Alien: Earth não é 8, nem 80
Série derivada da clássica franquia espacial tá longe de ser genial, claro, mas igualmente distante de ser considerada um fracasso retumbante…
Por THIAGO CARDIM
Eu sempre disse que, na maior parte dos casos, mais até do que PERSONAGENS (ou, como os marketeiros gostam de dizer hoje, PROPRIEDADES INTELECTUAIS), o que motiva o Thiago Cardim de 40 e poucos anos na hora de ver um filme/série ou algo assim são os nomes dos envolvidos. E quando descobri que ninguém menos do que Noah Hawley tava no comando duma série derivada de Alien, comprei a ideia NA HORA.
Se você não sabe quem é o figura, tô falando do cara que criou a MARAVILHOSA (assim mesmo, em caixa alta, e se conseguisse fazer o texto piscando, também o faria) série Legion, inspirada nas HQs da Marvel mas que graças aos deuses foi pra um caminho completamente diferente. Uma das séries da minha vida, sem exagero algum. Quem viu a série de Fargo, também dele, disse que a parada é simplesmente sensacional (não posso opinar por enquanto). Em certo momento de sua vida, Noah esteve envolvido num projeto de filme do Doutor Destino, bem antes do Robert Downey Jr. ousar vestir a carapuça, eu embarquei demais no trem do hype… mas como vocês bem sabem, a coisa acabou infelizmente engavetada.
Pois chegamos então em Alien: Earth.
No nosso vídeo sobre as diferentes formas do terror, eu confessei publicamente que gosto bem mais de Predador do que de Alien. Maaaaaaaaaaaas, porra, claro que adoro o trampo do menino Ridley Scott, acho até hoje a Ripley uma das maiores heroínas do cinema e, bão, o que o rapazote Fede Alvarez fez em Romulus, ano passado, é coisa linda. Pois então, neste clima gostoso, que Noah Hawley tivesse a chance de fazer a sua mágica. E ainda trazendo os xenomorfos pra Terra, rapaziada. Agora vai.
Bom, o fato é que não foi. A mágica de Noah Hawley talvez não tenha sido tão mágica assim. Só que… vamos lá… tem um porém. Ou alguns. Porque, no fim, eu não “desgostei” de Alien: Earth. Aliás, vou admitir, me diverti um bocado (o que é o Timothy Olyphant como uma espécie de cyber Magneto?). Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. E, como de costume, eu explico.

Não tô a fim de repetição, o que eu quero é expansão
Sim, sim, eu sei, Alien é uma franquia basicamente focada em terror espacial. Na tensão da caçada dentro de uma espaçonave, em uma espécie de Tubarão cósmico, mostrando pouco e chacoalhando muito. Facehugger cola na cara da pessoa, o embrião alienígena cresce no corpo, irrompe pela barriga numa sequência horrível e depois se torna o bichão cabeçudo e dentuço, enfim. Algo com o qual já estamos acostumados.
Mas, por mais saudosistas que sejamos, Alien é sim uma FRANQUIA. E como tal, busca crescer, se expandir, mostrar que seu universo e sua ambientação permitem mais do que apenas um jogo de gato e rato com as babonas criaturinhas de H.R.Giger. Portanto, diferente do que muita gente reclamou, eu acho SIM uma ótima notícia quando uma série como Alien: Earth se propõe a mostrar pedaços inexplorados de uma franquia estabelecida – tal qual, por exemplo, eu amo Andor por me mostrar uma Star Wars sem jedis, sem sabres de luz, sem família Skywalker.
Não, não, eu não tô comparando Alien: Earth com Andor, antes que comecem os chiliques (se bem que este texto é meu e se eu quisesse comparar, eu o faria e você não teria nada a ver com isso). Mas, pra além de termos os aliens sendo trazidos pra Terra como parte de uma experiência científica ilegal, eu curto ver mais detalhes de como funciona a dinâmica entre as corporações como a Prodigy e a Weyland-Yutani, que dominam o planeta neste futuro, por exemplo.
Sim, eu sei que Alien: Earth tem lá os seus furos de coerência e umas soluções narrativas um tanto fáceis, por vezes até abusando do deus ex machina. Mas acho legal demais sermos apresentados a OUTRAS espécies alienígenas para além dos xenomorfos, em especial ao olhinho simbionte – de longe, uma das sacadas mais legais de toda a série (o momento da ovelha é sensacional), a ponto de eu querer ver muito mais dele, talvez um filme inteiro dedicado ao monstrenguinho marrento e maquiavélico.
E gosto bastante também de descobrir que a humanidade tem planos ainda mais ambiciosos (e, obviamente, equivocados) em busca de sua imortalidade, desenvolvendo-se para além dos ciborgues e dos sintéticos e chegando aos híbridos, estes corpos artificiais para os quais são transferidas as consciências humanas. Era óbvio que ia dar merda, ainda mais se tratando de mentes vindas de crianças. Só mesmo um trilionário mimado como Boy Kavalier, uma versão mais jovem mas igualmente arrombada de Elon Musk (e justamente por isso, um personagem incrivelmente odiável), poderia acreditar que nada de bizarro poderia acontecer.

Alien: Earth é mais sobre Earth do que sobre Alien
Vi muitos críticos dizendo que a única coisa boa, de fato, em Alien: Earth tinha sido o episódio 5, “In Space, No One…”, protagonizado pelo ciborgue Morrow ao mostrar um flashback da nave Maginot antes de cair na Terra. Por se tratar de uma história fechada, por se tratar de uma trama com requintes do suspense dos filmes originais de Alien, coisa e tal, tal e coisa.
Sim, é um ótimo episódio. E claro, é um experimento narrativo interessante do próprio Noah Hawley, que escreveu e dirigiu pessoalmente este capítulo da série, vejam vocês. Mas, mesmo com todas as suas falhas e derrapadas, o restante de Alien: Earth me ganhou em um ponto crucial: os aliens estão em segundo plano. Eles são pano de fundo. A ideia é falar sobre monstros, sim, mas sobre aqueles escondidos sob o verniz humano. Sobre como nós podemos, seja pela ambição, seja pelo interesse científico desprovido de ética alguma, ser piores do que qualquer criatura insetoide ou reptiliana saída diretamente dos nossos pesadelos.
O fato de ser uma história que se passa no mundo de Alien, mas sem colocar o terror do Alien em primeiro plano, me lembra bem o que Ed Brubaker e Greg Rucka fizeram em Gotham: DPGC. O Batman está lá, a gente bem sabe… Mas a história vai além dele. Ele é mencionado, mas nem sequer precisa aparecer.
E não, não estou comparando… ah, vocês me entenderam. 🙂
Agora, mesmo assim… mesmo com os aliens como coadjuvantes… tem um outro algo que também curti. Talvez pudesse ter sido mais bem desenvolvido? Talvez.
No caso, a relação de Wendy (Sydney Chandler, embarcando numa ótima esquisitice do papel que talvez tenha faltado ao restante dos sintéticos dos chamados Garotos Perdidos) com os xenomorfos. A sua inesperada capacidade de falar a língua deles. Porque, ainda que em certos momentos tenha soado um tanto quanto quase infantil, esta conexão desconstrói a monstruosa figura dos aliens e os expõe com animais fora de seu habitat natural.
Para uma série cujo objetivo claro era vilanizar os seres humanos, digamos que foi uma ótima saída. 😉
Entre mortos e feridos, entre erros e acertos, no frigir dos ovos, Alien: Earth até que funcionou PRA MIM (e lembre-se, este texto é MEU).
Com o final bastante aberto, dá pra entender que, se eles não se meterem a fazer uma segunda temporada da série, pelo menos tem muita coisa pros próximos roteiristas/diretores brincarem.
A conferir.
PS: Parabéns pra seleção de músicas que tocavam nos créditos finais. Só filé. Metallica, Black Sabbath, Pearl Jam, Tool, Smashing Pumpkins, Queens of The Stone Age… Uma pedrada atrás da outra.