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O Homem Sem Medo enfrenta o ICE

Na segunda temporada de Demolidor: Renascido, a Marvel Television pesa mais a mão nas tintas políticas e essa Nova York fictícia vira o reflexo dos EUA da vida real

Por THIAGO CARDIM

Assim que a primeira temporada de Demolidor: Renascido, o retorno oficial do Homem Sem Medo como protagonista agora sob o controle da Marvel, fechou suas cortinas, ficou claro um cheiro de Reinado do Demônio no ar. Você tá ligado, aquela série dos gibis na qual Wilson Fisk/Rei do Crime (Vincent D’Onofrio) vira oficialmente prefeito de Nova York, estabelece abertamente uma caçada aos vigilantes, e praticamente todos os heróis urbanos da Grande Maçã se unem em resistência ao careca.

O que não faltou, como é costumeiro, foi gente fazendo milhares de teorias sobre quem seriam os outros guerreiros uniformizados que poderiam se juntar ao Demolidor (Charlie Cox) nesta versão televisiva – será que o Homem-Aranha, com a proximidade da nova incursão cinematográfica do Teioso? Será que teríamos a volta do Luke Cage, do Punho de Ferro, da Misty Knight e da Colleen Wing? Miss Marvel? Cavaleiro da Lua? Gaviã Arqueira?

Então, gente, vamos lá. Como de costume, o conselho é MENOS, bem MENOS. Já temos confirmado o retorno da Krysten Ritter como Jessica Jones (protagonista da MELHOR série Marvel do Netflix e isso não está aberto a discussões). Mas fora isso, não, não precisamos de mais nenhum vigilante uniformizado.

Se for pra aparecer alguém, diabos, que seja o Bruce Springsteen. O Tom Morello. Ou um dos caras dos Dropkick Murphys. Porque, afinal, a grande graça desta segunda temporada é o tanto que ela aterrissa na vida real – e, portanto, já nos basta um cara vestido de diabo pulando de prédio em prédio. Os protagonistas são as pessoas. Gente real, gente como eu e você. Porque, se na temporada 1, Fisk se torna cada vez mais Donald Trump, nesta continuação a sua tropa está nas ruas da mesma forma que vemos nos noticiários do nosso mundinho cinza e sem super-heróis. E a sua Força-Tarefa de caça aos vigilantes se transforma nitidamente no ICE.

Por enquanto, vimos apenas três episódios…

…mas já foi o bastante para vibrar cada vez que Matt Murdock se afunda por baixo da máscara diabólica e, deixando a eterna culpa católica de lado, distribui uma boa cota de ossos quebrados por entre os policiais de Fisk. Porque, da mesma forma que o ICE entende que qualquer um que não baixe a cabeça para Trump pode ser considerado um imigrante ilegal e, portanto, devidamente encarcerado (tenha ele green card ou não), o conceito de “vigilante” de Fisk tende a ser bastante “elástico”.

A cena da pequena loja de conveniência, na qual (sem spoilers) uma mulher latina tenta impedir que três adolescentes da vizinhança cometam um crime e, depois, que eles sejam baleados pelo dono da loja – e ela acaba sendo presa pela Força-Tarefa apenas por tocar no policial e tentar impedir que ele agrida brutalmente um adolescente – é absolutamente sintomática. Parece nitidamente saída de um noticiário local da CNN.

Detalhe: nenhuma das pessoas ali envolvidas tinha superpoderes ou usava um uniforme multicolorido que sequer lhe permitisse serem chamados de “vigilantes”. Loooooooonge disso.

Fisk, tal qual sua contraparte laranja, reescreve a lei a seu bel prazer. Orquestra julgamentos cujos resultados já estão previamente escritos. Armazena como gado seus inimigos em lugares secretos e fora do escrutínio público, sejam eles homens, mulheres, idosos ou crianças. Chantageia usando dinheiro ou violência para conseguir que as coisas se desenhem conforme sua própria vendeta pessoal. E constrói alianças nos bastidores com poderosos para que nada mude no status quo e sua conta bancária siga aumentando.

Tá bom, sim, esta é uma série de hominho…

E, como tal, apesar da violência física (a porradaria come solta em cenas cada vez melhor coreografadas, retomando os bons tempos do começo das aparições do Diabão no Netflix) e da violência psicológica deste odioso Fisk/Trump, a gente sabe que parte da galera se empolgou pra cacete foi mesmo com Murdock usando pela primeira vez um uniforme com o DD clássico no peito – e como eu naturalmente tendo a gostar desta versão preta com detalhes vermelhos de tempos mais recentes nos gibis, você imagina…

E claro que o fã usual do MCU pirou com a inclusão do Mr. Charles vivido por Matthew Lillard, um enviado da CIA que atua sob o comando de uma certa Valentina Allegra de Fontaine, o que pode criar uma conexão direta e reta com o que está acontecendo com a Marvel mais urbana, mais pé no chão, lá na tela grande. Ok, faria sentido, por exemplo, que ele estivesse vendendo armamento para ela, conectando um quê com o que se pôde ver no filme dos Thunderbolts.

Mas Demolidor: Renascido vive para além disso. É uma história que, apesar dos acenos, não os usa como muleta (portanto, AINDA BEM) e sabe caminhar por sua própria conta.

Temos uma Karen Page (Deborah Ann Woll) cada vez mais Frank Castle, flertando com a violência extrema e assumindo uma discussão sobre ser júri/juiz/executor que o próprio Matt tinha recorrentemente com Castle. Temos uma Heather Glenn (Margarita Levieva) cada vez mais traumatizada, enfrentando seus próprios demônios na forma de aparições “sobrenaturais” do Muse enquanto toma decisões eticamente questionáveis para ajudar Wilson Fisk. E temos o Mercenário (Wilson Bethel) cada vez mais… Mercenário, tornando-se ainda mais egomaníaco e arrogante como o dos gibis, que busca sangue enquanto um espetáculo no qual ele é personagem principal.

Demolidor: Renascido
ainda não acabou. Mas digamos que, junto com Magnum, já dá pra cravar que estamos diante de um daqueles pedaços da Marvel que fazem tudo valer a pena demais. Tipo um gibi que você compra despretensiosamente na banca e se diverte horrores, sem precisar entender o que está rolando no grande crossover que a editora inventou para aquele ano (oi, Doutor Destino, tô falando com você).