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Bernie Wrightson: do Monstro do Pântano ao Frankenstein definitivo

O novo Frankenstein de Guillermo del Toro reconhece o quadrinista como influência direta – apresentamos a trajetória e o legado desse gigante da arte sequencial

Por THIAGO CARDIM

Quando os créditos do novo Frankenstein de Guillermo del Toro mencionam não apenas Mary Shelley, mas também Bernie Wrightson, há um gesto ali: reconhecer que a imaginação visual do artista americano moldou, talvez como ninguém, nossa visão contemporânea da Criatura.

Para muita gente, Wrightson é “o cara do Monstro do Pântano” – e sim, isso já seria suficiente para cravar seu nome na história dos quadrinhos. Mas sua trajetória é mais ampla, mais profunda, e mais sombria: ele foi um dos grandes ilustradores de horror do século 20, dono de um detalhismo quase sobrenatural, capaz de transformar sombras em narrativa.

Quem foi Bernie Wrightson

Nascido em 1948, em Baltimore, Bernard Albert Wrightson cresceu admirando revistas de horror, filmes clássicos e ilustradores como Frank Frazetta, Gustave Doré e N.C. Wyeth. O impacto dessas referências aparece cedo: começou sua carreira como ilustrador do jornal The Baltimore Sun em 1966, antes de completar 20 anos de idade; mas dois anos depois, foi contratado pela DC Comics e tornou-se um artista regular das séries de terror House of Mystery e House of Secrets.

Ali, encontrou o ambiente perfeito para o que sabia fazer melhor: provocar inquietação no leitor através da luz, da textura e do silêncio entre os quadros.

Assim como muitos artistas neste período, mudou-se para Nova York na esperança de encontrar trabalho e, em certo momento, morou no mesmo prédio de apartamentos no Queens que outros nomes gigantes como Al Milgrom, Howard Chaykin e Walter Simonson.

Em 1971, dentro de House of Secrets #92 e ao lado do roteirista Len Wein, Wrightson co-criou Swamp Thing, o Monstro do Pântano, uma das personagens mais inovadoras da editora naquele período, que logo ganharia sua própria revista mensal. O que distingue essa fase não é apenas a criatura trágica emergindo da lama, mas a forma como Wrightson a tratava: um híbrido de poesia e horror, orgânico e monumental, com raízes que pareciam pulsar dentro da página.

A série o colocou de vez no mapa como mestre do grotesco estético, um artista capaz de transformar podridão em beleza, densidade em lirismo.

Mais ou menos na mesma época da criação do Monstro do Pântano, ao lado do roteirista  Marv Wolfman, ele criaria, na revista Weird Mystery Tales #1 (1972), o que seria a primeira versão do personagem Destino, aquele posteriormente usado como um dos irmãos Perpétuos por Neil Gaiman em Sandman.

O Frankenstein que virou referência definitiva

Se Swamp Thing foi o nascimento do mito, o Frankenstein de Wrightson, publicado originalmente em 1983, foi sua consagração absoluta.

Em 1974, o desenhista saiu da DC e começou a trabalhar para as revistas da Warren Publishing, ilustrando adaptações de obras de escritores de terror renomados, incluindo “O Gato Preto”, de Edgar Allan Poe, e “Ar Frio”, de H. P. Lovecraft.

No ano seguinte, ele se juntou aos colegas artistas Jeff Jones, Michael Kaluta e Barry Windsor-Smith para formar The Studio, um loft compartilhado em Manhattan onde o grupo buscava produtos criativos “fora das restrições comerciais dos quadrinhos”. Ele fez pôsteres, gravuras, calendários e até mesmo um livro de colorir altamente detalhado, chamado The Monsters (mas é claro!). Na década de 1980, trabalhou na revista Heavy Metal, edição norte-americana da revista francesa Métal Hurlant.

Neste período foi que começou a obra máxima na qual Wrightson passou vários anos de sua vida debruçado em criação (e para a qual não foi remunerado, descrevendo-a como “um projeto de amor”): uma edição ilustrada para acompanhar o romance Frankenstein, de Mary Shelley, lançada em 1983. Aqui é importante reforçar que seu trabalho não foi baseado no visual de filmes clássicos como aqueles estrelados por Boris Karloff ou Christopher Lee, mas nas descrições de personagens e objetos presentes no livro.

Wrightson usou um estilo de época, dizendo “eu queria que o livro parecesse uma antiguidade; que tivesse a sensação de xilogravuras ou gravuras em aço, algo daquela época” e baseando a sensação em artistas como Franklin Booth, J.C. Coll e Edwin Austin Abbey.  A obra usava técnicas de ilustração clássica, especialmente nanquim e hachuras que remetem a gravuras europeias do século XIX. O resultado é, segundo especialistas, um livro que parece ter sido encontrado numa biblioteca gótica esquecida.

Cada imagem tem uma energia ímpar: a Criatura é simultaneamente patética, nobre, aterrorizante e profundamente humana. Não é exagero afirmar que, desde então, qualquer adaptação de Frankenstein carrega um pouco de Wrightson nas sombras – inclusive a de del Toro.

Embora tivesse um acordo com uma editora antiga, que faliu, o autor buscou seus antigos parceiros da Marvel para ver se este Frankenstein ganhava mais corpo e visibilidade. Porém… “Na época, não queria fazer uma edição limitada. Queria que este trabalho chegasse ao maior número de pessoas”, afirmou ele, em entrevista à revista Glimmer Graphics Prints. “Então o que fiz foi levar para a Marvel. (…) Mas nunca chegou às livrarias e ninguém sabe disso. Eles estão sentados em 15 mil cópias dessas coisas em um depósito em algum lugar”.

Depois desta edição da Marvel, o Frankenstein de Bernie Wrightson foi republicado outras duas vezes, em 1994 e em 2008 – esta última, lançada pela Dark Horse, ganhando então uma “Monster Edition” ao ser publicada aqui no Brasil em formato de luxo pela Darkside Books.

Estilo, legado e artistas influenciados

Mais tarde em sua carreira, Wrightson forneceu arte conceitual para vários filmes (como o primeiro filme dos Caça-Fantasmas) e séries de televisão, além de estabelecer, desde 1982, uma parceria com ninguém menos do que Stephen King: ele desenhou adaptações em quadrinhos do roteiro do Rei para a sua revista Creepshow, incluindo capítulos da saga A Torre Negra, O Iluminado e A Dança da Morte.

Ao longo dos anos 1980 e 1990, Bernie Wrightson consolidou seu status de lenda ao lado de nomes igualmente gigantes, como Jim Starlin. Juntos, criaram Heroes for Hope (1985), um “comic jam” beneficente contra a fome na África que reuniu um elenco improvável de astros – de Stephen King e George R. R. Martin a Harlan Ellison. A parceria rendeu ainda outro projeto solidário, Heroes Against Hunger, com a DC Comics, desta vez com Superman e Batman.

Na produção usual, ele ainda ilustraria a lisérgica Marandi, graphic novel do Homem-Aranha com roteiro de Susan K. Putney; a pancadaria clássica entre Hulk e Coisa com escrita de Jim Starlin; aquela bizarra fase sobrenatural do Justiceiro que vira anjo; além do crossover Batman/Aliens com roteiro de Ron Marz. Paralelamente, assinou capas de álbuns (incluindo trabalhos com Meat Loaf) e retornou ao seu eterno fascínio pelo monstro de Shelley em Frankenstein Alive, Alive! (2012), parceria com Steve Niles que lhe rendeu prêmio da National Cartoonists Society.

Fato é que Bernie Wrightson inspirou gerações, dentro e fora dos quadrinhos. Seu estilo (com densidade, textura, contraste violento entre luz e escuridão) é uma escola inteira.

Entre os artistas que reconhecem sua influência estão nomes como: Mike Mignola (Hellboy), Bill Sienkiewicz, Kelley Jones (Batman, Sandman), Tim Sale (Batman: The Long Halloween), Scott Hampton e diversos ilustradores de cinema e concept artists ligados ao horror contemporâneo. Muitos deles creditam a Wrightson não apenas a estética, mas a coragem de explorar o horror com dignidade artística, sem tratá-lo como subgênero menor.

Os últimos anos e a permanência do mito

O artista faleceu em 2017, mas deixou um legado que ainda parece crescer: novos leitores descobrem seu Frankenstein a cada geração, e artistas seguem estudando suas linhas como quem estuda anatomia. Se Guillermo del Toro o inclui como inspiração, é porque sabe: sem Bernie Wrightson, o horror moderno não teria o mesmo rosto e nem as mesmas sombras.

Sua obra é uma porta de entrada para entender a evolução do horror nos quadrinhos; a importância da ilustração como linguagem narrativa; a ponte entre quadrinhos, literatura clássica e cinema; e a maneira como um artista pode redefinir personagens que julgávamos conhecer.

Wrightson não apenas desenhou monstros. Ele deu profundidade emocional a eles. Talvez por isso continue sendo essencial: ainda mais quando o Frankenstein retorna às telas pelas mãos de um cineasta que o reverencia.

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