O Agente Secreto e os impactos pouco visíveis da ditadura
Comparar o filme de Kleber Mendonça Filho com o premiado “Ainda Estou Aqui” é um imenso equívoco – porque as duas produções são absolutamente diferentes e, mais do que isso, complementares
Por THIAGO CARDIM
Quando a gente pensa no período da ditadura militar aqui no Brasil enquanto retrato e ambientação de um produto pop, seja ele filme-série-gibi-disco e por aí vai, no geral montamos na cabeça aquele cenário da truculência do exército, que sequestra e “desaparece” com opositores políticos. Os porões do DOPS, as torturas, o eterno fantasma de uma “ameaça comunista”. Tudo isso faz parte do imaginário já estabelecido sobre esta página infeliz da nossa história.
Mas… como era o restante do Brasil neste período? De que outras formas este período tinha impacto nas histórias do povo indo nas ruas, nos botecos, indo à padaria ou ao cinema? As suas sombras estavam ali, se espalhando, ganhando corpo, tomando forma, espreitando, manchando as nossas memórias. E é justamente sobre memória num período tão cheio de trevas que versa O Agente Secreto, novo filme do diretor Kleber Mendonça Filho (do magistral Bacurau).
Por conta de todo o rolê envolvendo premiações, tapetes vermelhos, Oscar e afins, além obviamente do assunto “ditadura”, o que não falta é gente comparando O Agente Secreto com o elogiadíssimo Ainda Estou Aqui – o que é uma imensa bobagem. Porque se tratam de obras totalmente diferentes, ainda que se passando num mesmo período histórico. Mas, de alguma forma, acabam se tornando narrativas complementares a respeito daquelas duas décadas.
Menos Bacurau, mais Retratos Fantasmas
Falar sobre Kleber Mendonça Filho é pensar em Bacurau, isso é meio inevitável. Mas, de alguma forma, O Agente Secreto conversa muito mais com o documentário Retratos Fantasmas, que o cineasta produziu para falar sobre sua paixão pelo cinema e sobre como o tempo mudou todo o cenário da Sétima Arte em Recife, onde nasceu, cresceu e se formou cinéfilo. Aliás, Recife, a cidade, é um personagem importantíssimo em O Agente Secreto – assim como é também o cinema no qual o sogro do personagem de Wagner Moura trabalha como projecionista.
O terror irracional que o público sente ao assistir o demônio escondido sob a aparência inocente de Damien em A Profecia, principal destaque do Cinema São Luiz na época do filme, não está na trama por acaso, assim como também não são apenas uma homenagem cinéfila as muitas referências ao clássico Tubarão, de Steven Spielberg. Pois ali, na obra do monstro aquático, o monstro ronda o tempo todo, sem dar as caras, sem ser de fato revelado, mas sempre sugerido pela trilha macabra de John Williams.
Aqui em O Agente Secreto, apesar da trama de passar em um Brasil tipicamente brasileiro de 1977, fora da urbanidade clássica de SP-RJ, numa Recife colorida e bem-humorada das praças e subúrbios, dos jornais e suas manchetes sensacionalistas, da cervejinha diante da praia, o nome “ditadura” sequer é mencionado. E sinceramente, nem precisa.
O protagonista de Moura não é um subversivo, um jovem comunista aspirante a líder revolucionário, alguém que almeja Cuba e estuda Marx. Ele é um sujeito comum. Um universitário. Um acadêmico. Um pai de família. Que é forçado a viver em segredo por estar sendo perseguido por um motivo absolutamente banal e mundano.

O personagem de Moura, em seus múltiplos nomes e identidades, é secreto porque a vida lhe forçou. E se torna agente porque precisa de alguma forma agir. Por si mesmo. Para si mesmo. No filme, nós vemos pessoas que se definem como “refugiadas”, forçadas a trocar de nome e se esconderem numa comunidade para poderem tentar a vida, pensar num futuro só delas.
E igualmente, nós vemos a polícia comum, simples, do cotidiano, cruel, mergulhada em corrupção, envaidecida de poder, saboreando inclusive um fetiche nazista (numa das cenas mais fortes do filme, envolvendo o finado Udo Kier, que nos deixou recentemente). E também vemos o quanto os ricaços e suas empresas multimilionárias ganharam livre acesso à máquina pública para fazerem o que quiserem, inclusive contratando matadores de aluguel para fazer das ruas o seu cangaço particular, sem precisarem recorrer aos soldados fardados.
Tudo isso é sinônimo e sintoma claro de uma ditadura – e da nossa ditadura, é bom que se diga. Sem porões. Abertamente. À luz do dia.
Uma história sobre identidade e memória
Marcelo ou Armando, tanto faz, o personagem de Wagner Moura (excelente, absolutamente merecedor de todos os aplausos nos festivais pelo mundo afora) está em busca de memórias. Acaba atrás de uma mesa num instituto de identidade porque quer completar as peças do quebra-cabeças de sua própria vida, buscando os documentos da mãe. Mas também quer manter viva a memória da esposa perdida, que ele explica ao filho que vai estar sempre entre o lado dos dois se ambos sempre se lembrarem dela.
Manter a memória viva e ajudar a construir novas memórias longe do medo é também a missão da incansável Dona Sebastiana – que inclusive foge de suas próprias memórias. A memória que também busca reorganizar uma personagem no presente, nos dias de hoje, conforme a trama vai e volta no tempo. Debruçada em fitas com depoimentos emocionados, documentos gravados clandestinamente e com pouca ou nenhuma conservação, ela tenta costurar uma vida que não é a sua – mas que conversa demais com o nosso momento atual.
Poisé: Museu da Memória e dos Direitos Humanos, isso lembra vocês de algo?

Clímax e anticlímax
Vi algumas pessoas reclamando do fim do filme, que obviamente não vou comentar aqui, dizendo que foi um corte muito abrupto, anticlimático, “ah, eu queria ter visto COMO aquilo aconteceu…”. Então… um dos movimentos mais inteligentes do Kleber enquanto cineasta é fugir radicalmente das características mais “explicadinhas” do típico cinema blockbuster americano.
Eu explico.
Nem tudo numa história precisa de alguém te contando em detalhes o que exatamente aquela cena ou sequência quis dizer. Às vezes a história se corta aqui e ali e tá tudo bem. Era ali que precisava chegar. Por vezes, aquele personagem só precisa aparecer e desaparecer logo depois num piscar de olhos, sem necessidade de contar inteiramente a sua história, sem fazer flashbacks, sem diálogos longos e expositivos.
E, portanto, aquele recorte de jornal no final, sim, ele conta exatamente o que precisa contar para fechar a trama.
Uma trama poderosa, intensa, humana… e 100% brasileira.
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PS: Quando subiram os créditos finais, eu imediatamente me tornei mais um integrante do abaixo-assinado “por favor, façam um filme sobre o passado comunista-anarquista-nemlembromais de Dona Sebastiana”. Kleber, nunca te pedi nada, faz este favor pra este Brasilzão. <3
PS 2: Tânia Mara, a senhora é FODA demais.