Frankenstein: o toque pessoal de del Toro ao monstro primordial
Inspiração clara do cineasta mexicano em grande parte de sua trajetória, a obra de Mary Shelley ganha mudanças e novos contornos sob sua batuta – e isso é uma ótima notícia!
Por THIAGO CARDIM
* Este texto contém leves spoilers.
Há cerca de 1 mês, tivemos uma conversa bastante interessante no nosso podcast Imagina Se Pega no Olho a respeito de ARTE.E uma das perguntas sobre as quais nos debruçamos foi justamente a definição do próprio conceito de arte – que, aqui, vou retomar como sendo o clássico “uma expressão da subjetividade humana”. Pois muito que bem: isso significa que o artista vai se expressar de maneira muito subjetiva, muito única, muito SUA, através de sua arte.
Sem entrar agora nos meandros das questões mais complexas e particulares da indústria hollywoodiana e da produção em massa de blockbusters muitas vezes vazios, vamos lá, dá para dizer que o cinema é arte. O cineasta é, portanto, também um artista. Um cara como o mexicano Guillermo del Toro, por exemplo, é claramente um artista, alguém que imprime não apenas coração e alma a cada uma de suas obras, mas também uma assinatura muito particular. Sua subjetividade, veja vocês. E, ora bolas, AINDA BEM que ele faz isso.
Quando Guillermo del Toro realiza o trabalho de uma vida ao criar uma transposição de Frankenstein, o clássico absoluto da ficção científica, para as telonas, ele está mais do que apenas prestando uma homenagem, se ajoelhando e fazendo uma reverência: ele está fazendo o SEU Frankenstein. Que, sim, carrega no âmago muito da obra de Mary Shelley mas que, quando sobem os créditos, é bem óbvio que se trata de um filme de del Toro. Eles faz mudanças na história, em pontos da narrativa, no tom de determinadas sequências. Tudo para que ele possa contar a SUA história. Do SEU jeito.
Porque isso deveria ser o que todo artista faz. Porque livro é livro, filme é filme, gibi é gibi, jogo é jogo, série é série e por aí vai. E o Frankenstein de del Toro não é, e nunca deveria ser, o de James Whale, o de Kenneth Branagh, o de Bernard Rose, o de Mel Brooks, o de Marcus Nispel, o de Stuart Bettie… E tampouco o da própria Mary Shelley.
Afinal, que graça tem quando alguém apenas contorna por cima do traço de outrem usando um papel de seda?

Monstros e Criaturas
Embora a cultura pop tenha cristalizado em nossos imaginários a figura do Frankenstein como o ser de passos lentos, olhar semicerrado e poucas palavras vivido por Boris Karloff, é importante lembrar que, no livro original, a Criatura – como sempre foi chamada – era um vilão de tintas trágicas e de fala bastante eloquente, quase sedutora (não por acaso, as muitas referências a Lúcifer quando Victor o descreve). Assim sendo, era meio de se esperar que del Toro criasse também o seu próprio Frankenstein.
A Criatura vivida por Jacob Elordi (de “Saltburn”) é grande, um tanto desengonçada, mas vai ganhando firmeza em cada passo e movimento conforme o filme se desenrola, deixando a selvageria eclodir. Seu visual é menos monstruoso e mais plástico, lembrando uma espécie de androide steampunk. Aliás, não foram raras as vezes em que me peguei, ao longo do filme, pensando nele como se fosse o Visão, personagem da Marvel Comics que foi vivido por Paul Bettany no MCU. Um ser artificial em busca de sua própria alma. E ele consegue encontrá-la, aos trancos e barrancos, mesmo que a humanidade acredite que o ser não tem este direito.
Ele não está mergulhado em busca de vingança. Ele está querendo encontrar o seu próprio direito de viver. E aprende a sentir raiva de quem o enxerga como alguém que não tem este direito.
Acrescentando toques de poesia visual à sua apresentação, del Toro usa a criatura que tanto o inspirou em obras como “Hellboy”, “Pinóquio” e especialmente em “A Forma da Água” em sentido reverso – e faz o seu Frankenstein ser o tipo de “monstro” que ele sempre adorou retratar. Uma criatura que, no fim, é muito mais humana do que os humanos que a cercam. A humanização de seres fora do comum que sempre foi seu tema favorito. Há quem diga, aliás, que o diretor optou por uma saída “óbvia” ao colocar no filme, como diálogo, a frase “você é o verdadeiro monstro”, que teria sido “didático” demais. Discordo. Ali, ele simplesmente assinou o filme como sendo “o Frankenstein de Guillermo del Toro”. Ponto.
O Frankenstein de del Toro inclusive ganha a chance de narrar a sua própria parte da história, ao encontrar seu criador, em uma cena tocante. Tão tocante quanto sua relação com Elizabeth (Mia Goth), aliás. Não, aqui ela não é uma mulher cujo destino sempre foi ser a pretendida de Victor (Oscar Isaac) e que tem um desfecho trágico nas mãos da Criatura – mas sim a esposa do irmão de Victor, William (Felix Kammerer), além de sobrinha do mecenas do cientista, Heinrich Harlander (Christoph Waltz). Elizabeth é uma jovem inteligente, com personalidade, bastante curiosa, que analisa a guerra se desenhando no mundo ao seu redor e tem aparentemente mais interesse por insetos do que por romance (além de usar um figurino simplesmente BELÍSSIMO).
E não, Elizabeth não está apaixonada pela Criatura sob um ponto de vista romântico, como alguns parecem sugerir. Ela está encantada por ele. Porque, cercada de homens insípidos (como o futuro marido) ou excessivamente egocêntricos (como o cunhado que a corteja), aquele ser oferece uma visão diferente de masculinidade. Alguém aprendendo a se abrir, a sentir – e curtindo cada minuto desta pequena jornada pessoal. E ela simplesmente não sente qualquer medo dele. Na verdade, se sente curiosa com seu desabrochar, ainda que lento e pouco sutil.
Concordo totalmente com quem diz que, no fim, del Toro retratou Elizabeth como a própria Mary Shelley, alguém que, no fim, se vê embevecida pela Criatura que, ao invés de morrer numa cruz, nasceu dela (ou você não reparou no proposital formato da mesa na qual o corpo feito de muitos corpos é disposto antes que os relâmpagos lhe tragam à vida?).
Muitíssimo diferente de Victor, o outro Frankenstein da história, que também ganhou contornos mais complexos.

Entre pais e filhos, criadores e… de novo, criaturas?
O Victor deste novo Frankenstein é um caso à parte e talvez seja uma das mudanças mais interessantes da história. Não, ele não é um menino criado num lar amoroso e que encontra na ciência o seu hobby. Ele é um garoto completamente apaixonado pela mãe, mas que se torna vítima de um pai abusivo (Charles Dance, de volta a um papel que tem sido bastante recorrente em sua carreira, hahahahaha) e encontra na ciência a sua salvação, por mais que ali esteja a mesma carreira do patriarca médico.
Conforme somos inicialmente apresentados à Victor, del Toro usa e abusa do carisma e do charme de Oscar Isaac pra que a gente se apaixone pelo cientista excêntrico e desafiador, que se rebela contra os velhos conservadores da academia médica. Mas a história vai seguindo e, quando a Criatura “nasce” e se desenvolve de maneira bem mais lenta do que Victor espera, o pai amoroso rapidamente se torna um déspota, tanto quanto seu próprio pai. Repetindo os erros do passado, ele acorrenta o ser que enxerga naquele homem o seu verdadeiro mundo e começa a se “desumanizar” diante da plateia.
Ao invés de fugir com medo, ele tenta matar sua própria cria – e o Victor por quem tínhamos simpatia logo se torna alguém que o público passa a odiar. E nisso, o cineasta mexicano faz uma tacada de mestre.
Esta é também uma história sobre paternidade. E para qual del Toro opta por um desfecho bem menos sombrio e brutal do que o de Mary Shelley. Há reconciliação de alguma forma entre eles e deles com seus próprios “eus”. Há um encontro. Que se encerra com morte. Mas também se encerra com vida. Com uma nova vida.
O Frankenstein de Guillermo del Toro é cinema pop? Opa, claro que sim. E dos bons. Um ótimo filme bancado pela maior plataforma de streaming dos tempos atuais. Mas também é arte. E das boas. Porque um cineasta pop pode, no fim do dia, ser também um artista e não apenas um apertador de botões a favor da indústria. Este Frankenstein é um trabalho de amor, feito por um artesão absolutamente apaixonado pela obra original, pelo ofício do cinema, pela arte.
E quem ama de verdade, escreve as suas próprias cartas de amor, de próprio punho, com erros e acertos, ao invés de roubar um punhado de frases emprestadas da internet.
Impossível deixar de agradecer del Toro por esta obra. E que venha, finalmente, Nas Montanhas da Loucura. Porque ele merece este sonho realizado. E nós também.
