O novo capítulo da instituição chamada Dorsal Atlântica
Uma das mais importantes bandas do metal brasileiro está de volta ao Catarse para financiar o seu próximo disco, “Misere Nobilis”, cinco anos depois do poderoso “Pandemia”
Por THIAGO CARDIM
::: APOIE AGORA o financiamento coletivo do disco MISERE NOBILIS
PCD. O significado da sigla que batiza a música “proibida” do trio carioca Dorsal Atlântica acabou se tornando um verdadeiro grito de guerra para os caras nos shows ao vivo: pau no cu de Deus. Um exagero? Pode ser. Mas era apenas mais um dos elementos que transformaram a trupe comandada pelo furioso Carlos “Vândalo” Lopes em um mito do underground nacional.
As letras provocativas, o visual extremo, as performances de evocação satânica, a vontade de chocar a todo custo com uma sonoridade que misturava elementos do punk e daquele tal de heavy metal, tornando-se o que seria chamado mais tarde de ‘crossover’.
Era o começo dos anos 80. E toda uma geração de moleques cabeludos passou a bater cabeça graças ao que eles faziam naqueles palcos ainda não acostumados com tanta porradaria.
Inclusive, vejam só, um jovem chamado Massimiliano Antônio Cavalera.
O sobrenome já entrega de quem se trata e que, depois de ver a Dorsal ao vivo, teve a ideia e a vontade de montar a sua própria banda, devidamente batizada de… bom, você já sabe. O ponto é que, diferente do filhote famoso dos Cavalera, a Dorsal jamais estourou de fato. E se tornou uma espécie de banda amaldiçoada e maldita, que nunca se cansou de ousar, que falava sem papas na língua, que sempre quis experimentar um pouquinho mais, que vivia lutando contra a falta de grana e deu severas dores de cabeça ao seu incansável líder.
Pioneiros do metal brasileiro e, mais especificamente, do thrash metal no Brasil, eles se juntaram ainda moleques, em 1981, tocando um tipo de som pesado em pleno de Rio de Janeiro, numa época em que mal existia público pro que eles estavam dispostos a tocar. Entre os anos de 1986 (quando lançaram seu debut, o histórico “Antes do Fim”) e 1997, sempre se mantiveram bastante ativos, antes da separação definitiva em 2001. Porém, no retorno do trio em 2012, a tática de guerrilha de Carlos se completou graças ao financiamento coletivo: era a forma de não depender de mais ninguém MESMO além dos próprios fãs para fazer as coisas acontecerem.
A partir dali, viriam uma série de lançamentos – e agora temos uma nova campanha no ar: é hora de fazer MISERE NOBILIS se tornar realidade.
Um novo capítulo a caminho!
“A miséria da nobreza, o nobre miserável. O termo em latim soa apocalíptico, uma ode contra os grandes impérios, um canto de resistência brasileiro e latino-americano”. Esta é a descrição de Carlos a respeito do novo disco, que trará canções como o canto revolucionário “Agora ou Nunca”; a faixa “Helen”, em homenagem à punk assassinada em São Paulo no último mês de agosto; “CLT”, um canto sobre como a constituição está acima da Bíblia (amém!); e uma ode do vocalista e compositor à um assunto bastante em voga nos dias de hoje: “I.A.” (como ele mesmo descreve: “não sabe cagar, mas faz muita merda”).
Sim, sim, é metal bastante político, caso você não conheça a banda ainda ou, sei lá, tenha ouvido as canções deles no mudo desde os anos 1980. Egresso de uma geração que ouvia uma grande música brasileira, politicamente engajada, em plena ditadura (“Como esquecer O Bêbado e A Equilibrista?”), com um país bem mais fechado, com tudo que chegava aos nossos olhos e ouvidos sendo controlado pela grande mídia e pelas gravadoras, além da censura, Carlos gosta de relembrar aquele como um período de grande efervescência cultural. “Cresci em um prédio ao lado de figuras emblemáticas de nossa história como Rubens Paiva, Zuzu Angel, Raul Ryff (ministro do presidente João Goulart), Alex Viany, Raul Seixas e muitos outros”, revelou ele em entrevista pra mim, lá no JUDÃO.com.br.
MISERE NOBILIS será prensado primeiramente em CD – o LP foi descartado por causa dos altos custos. “Para prensar em vinil precisamos de mais 20 mil reais além da arrecadação mínima: por isso, o LP foi descartado até segunda ordem”.
A campanha se encerra na próxima semana, dia 12 de novembro, com previsão de gravações em dezembro e lançamento oficial em abril de 2026.

Mas a Dorsal já usou bastante financiamento coletivo nos últimos anos…
…e com excelentes resultados. Desde o lançamento de 2012, que obviamente saiu em 2012, Carlos Lopes tem recorrido bastante ao suporte de seus próprios ouvintes para fazer a Dorsal continuar a reverberar por aí.
Pra ser honesto, a ideia de Lopes é que o último disco da banda fosse mesmo o Imperium, também financiado via Catarse e lançado entre 2014 e 2015, que previa a queda da presidenta eleita Dilma Rousseff. “Um disco sobre o golpe republicano que depôs o Imperador D. Pedro II e o novo golpe midiático-jurídico-empresarial de 2016”, compara. Mas não deu pra parar ali: a sucessão de bizarrices que estendeu-se pré, durante e pós o golpe indignou Carlos de tal maneira que ele se sentiu impelido a compor Canudos.
“Mas não poderia ser um disco comum e nem mesmo mais um disco da Dorsal. Conceitualmente, Canudos deveria levar o ouvinte ao sertão, contextualizar que o golpe não terminaria com a deposição da presidenta, mas que o movimento golpista prosseguiria”.
O resultado é uma porrada maravilhosa, uma ópera thrash sobre a revolução de Antonio Conselheiro e um dos mais importantes discos nacionais lançados em 2017 (e devidamente apoiado por este que vos escreve). Mas obviamente que não acabaria ali – porque, em 2020, fomos atropelados pela COVID-19 em meio a um (des)governo pouco afeito a nos fazer sobreviver a este cenário apocalíptico. Seria a vez de Pandemia, mais um disco conceitual, no qual a Dorsal nos leva a um lugar chamado Brazilândia, no qual a sociedade é dividida entre 3 etnias: os equinos que governam, o povo canino e os símios militares.
Um jumento é eleito como Primeiro-Ministro através de um golpe dado com o judiciário e os generais gorilas, e o novo governo infecta a população com o vírus da burrice, a pandemia da ignorância. Seus fanáticos seguidores empilham livros em fogueiras, clamam que a terra é plana e lotam os templos porque creem que o Deus Sumé as salvará do vírus, enquanto esses mesmos fanáticos destroem terreiros de Candomblé e incendeiam laboratórios, faculdades e livrarias.
Talvez te lembre algo, não? 😉
Carlos também usaria o Catarse para catapultar a sua produção como quadrinista – além de uma adaptação/expansão da biografia da banda em formato HQ, o maravilhoso livro Guerrilha, ele também fez O Condomínio, sobre um conjunto de três edifícios modernistas construídos no Leblon, Rio, nos anos 1950, quando o bairro era fora de rota e de moda. A história em quadrinhos não fala apenas sobre os prédios e seus moradores, mas serve como microcosmo da sociedade brasileira, a partir da fundação da cidade do Rio de Janeiro, a escravidão, o quilombo do Leblon, o incêndio da Praia do Pinto e a comunidade da Cruzada São Sebastião, vizinha ao Condomínio, fundada pelo Bispo “comunista” D. Helder Câmara.
Pois sim, o Carlos Lopes da Dorsal Atlântica também escreve gibi. “Sou um artista que ama história, filosofia, política e espiritualidade. Tudo é possível se for artisticamente válido, seja lançar quadrinhos ou gravar samba. (…) Porque nunca fui saudosista, porque vivo o hoje, e crio para os tempos atuais com toda a bagagem que adquiri em 4 décadas. Minha vida é amor, ação, criatividade e liberdade. O rock pesado é uma parte importante de minha história, mas não é a única”.
Quando as pessoas me perguntam quem foram os melhores entrevistados desta minha carreira de mais de 20 anos cobrindo cultura pop, eu sempre coloco o Carlos entre os top 3. Tive a chance de bater um papo com ele por volta de 1999 / 2000, quando lançou a essencial biografia Guerrilha — A História da Dorsal Atlântica, e me impressionou a inteligência do cara do outro lado do telefone. Inteligência não neste sentido pedante, acadêmico, o tradicional culto e erudito, mas a inteligência do olhar afiado de quem enxerga o mundo de um jeito diferente.
“Estive conectado à cena de metal nos anos 1980, mas o fiz porque meu objetivo era fortalecer uma cena brasileira. Quando percebi, nos anos 1990, que os brasileiros não gostavam de ser brasileiros, tornei-me cada vez mais independente. E isso não prejudicou a carreira, mas pôs as coisas em perspectiva. Libertou-me”.
Justamente por isso, ele considera que a Dorsal de hoje é livre, artística, madura e mais consciente do que era antes.
Então… SIMBORA APOIAR O NOVO DISCO DA DORSAL ATLÂNTICA?