Welcome To Derry expande lindamente a obra de Stephen King
Série pega pequenas pistas e migalhas espalhadas ao longo do livro e cria, com maestria, uma mitologia própria para Pennywise e sua cidade-vítima, além de conectá-la integralmente ao Kingverse
Por THIAGO CARDIM
Muita gente conhece Stephen King como sendo apenas e tão somente aquele velhinho gente boa que escreve um monte de livros que são recorrentemente adaptados como filmes e séries (nem todos bons, vamos admitir, mas aqui a discussão é outra). Todavia, o fato é que, do outro lado, existe um fandom devotado que devora cada uma das obras que ele continua colocando com assustadora recorrência no mercado editorial.
E estes fãs obviamente vivem encontrando as conexões que ele cria entre parte de suas publicações, sejam elas aquelas mais óbvias, sejam aquelas mais sutis.
Ao retomar o universo da cidade de Derry, o diretor argentino Andy Muschietti e sua irmã, a produtora Barbara Muschietti, não apenas encontraram um espaço para contar novas histórias pulando 27 anos pra trás dos eventos It – A Coisa (2017) e It: Capítulo Dois (2019) mas também fizeram uma verdadeira carta de amor à obra de Stephen King.
O livro original tem uma série de pequenas pontas soltas e pedaços de histórias, que a dupla aproveitou ao máximo e expandiu a mitologia, criando laços diretos com os dois longas e abrindo espaço para novas temporadas da série (coisa que é praticamente dada como certa).
Só que eles vão além e homenageiam a mitologia de King como um todo ao trazer como figura central, por exemplo, o personagem Dick Hallorann (Chris Chalk, que rouba a cena toda vez que aparece) – o homem que se comunica com o mundo dos mortos em O Iluminado e Doutor Sono. E salpicam um montão de referências à tartaruga Maturin, o deus ancestral que teve uma dor de estômago e vomitou a nossa realidade, que aparece no livro de It mas também é um dos feixes centrais que sustentam a Torre Negra, pilar central do multiverso de Stephen King.
Não deu pra sacar a referência ao baile de formatura sangrento em Carrie – A Estranha nos primeiros minutos do episódio final da série, por exemplo? O nevoeiro que se espalha por Derry não te lembra nada? E o ônibus que levava os presos para a penitenciária de Shawshank, onde se passa a história do lindíssimo Um Sonho de Liberdade? Tá tudo ali.
Como resultado final, a selvagem temporada 1 de Welcome to Derry é um prato cheio pra fãs de filmes de terror – que vão entender exatamente o que aconteceu, do início ao fim, sem precisar de explicações adicionais. Mas também é uma saborosa refeição completa pra quem se apaixonou pelo universo dos dois filmes e vai sacar a construção amplificada da cronologia. E um belíssimo banquete para os fãs devotos de Stephen King, que vão encontrar easter eggs muitíssimo bem-posicionados. Ao final destes oito episódios, tem sangue, tripas e gritos de crianças apavoradas para atender a todos os gostos.
Ao conseguir atingir este resultado com uma das séries mais interessantes do ano, os irmãos Muschietti estão definitivamente perdoados por aquela caralha de filme do Flash. Amém.

As muitas camadas de Pennywise
Além de um elenco infantil primoroso (que é em partes monstruosamente estraçalhado logo no primeiro episódio, pra total surpresa dos espectadores), Welcome to Derry dá o palco que Bill Skarsgård precisava para brilhar com o seu Pennywise, que aqui vai aparecendo aos poucos, sem pressa. Além de conhecermos um pouco mais do passado de Robert Gray, o homem de circo cuja personalidade foi “absorvida” pela criatura, também vemos um palhaço ainda mais cruel, sanguinário, assustador.
Na série, mais do que uma ameaça alienígena, Pennywise é apresentado como um ser cósmico muito maior, uma divindade do caos com tintas lovecraftinianas. Estamos falando de algo que nem de longe dá pra comparar com os Palhaços Assassinos do Espaço Sideral. É um ser que se alimenta dos nossos medos mais primais, uma ameaça para além do que conseguimos compreender, um predador (e não um serial killer, leia-se bem) que um general maluco resolve transformar em arma porque tem capacidade de atingir um país inteiro com sua névoa.
Uma força da natureza que enxerga passado, presente e futuro ao mesmo tempo, conforme ele mesmo vocifera, o que, portanto, abre empolgantes portas criativas para COMO lidar com a fome e a luta por sobrevivência que lhe são intrínsecos. Estaria ele mesmo tentando voltar no passado para eliminar aqueles que potencialmente o mataram lá na frente?
Enquanto a gente teoriza aqui, vale lembrar que cada olhar de ira, cada grito de desespero, cada ameaça passivo-agressiva seguida de um urro repleto de dentes afiados, Skarsgård coloca mais uma peça na construção de um dos vilões mais aterradores do horror contemporâneo.
E para enfrentar este ser diabólico…
…em meio a um elenco de coadjuvantes bastante instigante (gerando, inclusive, o claustrofóbico episódio 7, “The Black Spot”, que conversa demais com o maravilhoso sucesso cinematográfico Pecadores), nós temos as crianças, como de costume.
Temos no cardápio a perturbada Lilly Bainbridge (Clara Stack), responsável por algumas das sequências mais aflitivas da série e que NÃO envolvem Pennywise, diga-se; a passional Ronnie Grogan (Amanda Christine), que não tem medo de dizer a que veio mesmo num refeitório repleto de playboyzinhos; e o pequeno nerd Will Hanlon (Blake Cameron James), totalmente fora do estereótipo padrão para este tipo de personagem e, ufa, AINDA BEM.
Mas é importante mencionar, em separado, dois dos maiores destaques, a começar por Marge Truman (Matilda Lawler). Sim, é muito legal a gente saber que, no futuro, ela será a mãe de Richie Tozier, integrante do Clube dos Perdedores dos filmes originais. Mas o que faz da personagem algo envolvente vai bem além disso, porque o seu desenvolvimento é lento e cheio de sutilezas. A gente começa achando ela uma graça, como amiga grudenta da Lilly; depois, passa a se sentir incomodado com a necessidade de estar junto das meninas mais populares; depois ODEIA profundamente quando ela trai a amiga e chega até a celebrar quando ela é atacada pelo Pennywise; e no final da temporada, a gente está completamente apaixonado por Marge e desejando a morte sangrenta de quem tocar num único fio de cabelo dela.
Tudo isso ao longo de OITO episódios, vamos reforçar. 😉

Mas juro que NINGUÉM em sã consciência estava preparado para a presença magistral de Rich Santos (Arian S. Cartaya). O menino de origem latina foi aparecendo aos poucos, como alívio cômico, como alguém que se torna a figura de confiança do recém-chegado Will à escola. Mas foi crescendo, mostrando força e personalidade, além de um coração enorme. O “cavaleiro” se sacrificou pra salvar sua donzela, no momento mais emocionante da trama DE LONGE, e logo depois nos tirou um grito (de alegria) ao reaparecer sob forma espiritual na batalha final contra Pennywise e lhe mostrando o dedo do meio.
Rich virou mais do que craque do jogo – virou um dos personagens mais amáveis do mundo das séries em 2026. Estamos definitivamente todos apaixonados. <3
Portanto…
Welcome to Derry chegou pra ficar e merece demais as tais duas temporadas adicionais teoricamente programadas, todas pulando 27 anos pra trás, para que a gente possa ver um Pennywise cada vez mais monstruoso, fora de controle, incorporando esta pegada brutalizada de horror cósmico.
E, de preferência, com mais um elenco fofo, emocional e diverso de antagonistas infantis – além de outra centena de referências à obra de Stephen King. Se vamos voltar 27 anos no passado (chegando, portanto, em algo em torno de 1935), talvez houvesse a chance de ver Pennywise cruzando o caminho de John Coffey, o gigante gentil que é um dos protagonistas de À Espera de um Milagre?
Esperamos que sim!