1986, o ano em que o punk brasileiro gritou mais alto
Cólera e Inocentes completam 40 anos de dois clássicos punk da música nacional
Por THIAGO CARDIM
Quarenta anos não são pouca coisa. Especialmente quando falamos de discos feitos com o coração e com o estômago, pouco dinheiro, muita urgência e aquela necessidade quase física de DIZER algo.
Em 1986, enquanto o Brasil ensaiava seus primeiros passos fora da ditadura, duas bandas fundamentais do punk rock nacional lançavam álbuns que ajudaram a moldar não apenas um gênero, mas uma forma de estar no mundo: Pela Paz em Todo Mundo, do Cólera, e Pânico em SP, dos Inocentes.
Dois discos diferentes em forma, mas profundamente conectados em espírito. Dois clássicos que merecem ser revisitados agora, mesmo quatro décadas depois.

Cólera: punk como ética, não só estética
Formado no final dos anos 1970, o Cólera sempre foi uma banda movida por algo que ia além da simples raiva juvenil. Desde cedo, o grupo incorporou ao punk brasileiro não apenas a revolta urbana, a mensagem antiautoritária e o olhar sobre a potência da autogestão clássicas do anarquismo, mas também um discurso pacifista e ecológico, com um viés ambientalista até raríssimo não só no Brasil, mas no próprio movimento punk mundial até aquele momento.
Liderado pelo nosso saudoso Redson, o Cólera entendia o punk como prática diária: na música, nas escolhas de vida, na recusa ao cinismo.
Lançado em 1986, Pela Paz em Todo Mundo, sucessor do álbum de estreia Tente Mudar o Amanhã,de 1985, é talvez o disco que melhor sintetiza essa visão. Musicalmente direto, rápido e urgente, o álbum carrega letras que falam de guerra, destruição ambiental, alienação e violência estrutural — mas sempre apontando para uma saída coletiva. A prensagem original vinha acompanhada não apenas da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, mas também de um manifesto intitulado “Registro Arqueológico Sobre o Século XX”, escrito pelo já falecido Roberto Peixoto, que trabalhava no Circo Voador, no Rio de Janeiro.
Em 2016, quando o álbum completou suas três décadas, a Vice conversou com Pierre, batera e irmão de Redson, atualmente o único integrante original da formação. “Não existia um contexto para isso ou aquilo. Na verdade, era uma abordagem geral sobre tudo o que acontecia em todo o planeta, independentemente de qualquer segmento ou situação específica”, explica ele. “Era uma situação que afetava a tudo e a todos simultaneamente, e que nos levou a fazer as músicas com letras e pegadas que despertassem nas pessoas a necessidade da conscientização global sobre todos os problemas pelos quais o mundo estava passando. De uma simples discussão do dia a dia até a devastação e destruição da fauna e da flora, passando pelos conflitos religiosos, sociais, culturais, pessoais, familiares, e a total estupidez do uso de armas de destruição em massa. Tudo estava caminhando para um caos generalizado – não que isso tenha deixado de existir nos dias de hoje”.
Quando o disco foi reeditado pela Rocinante Três Selos, ele trazia um texto do jornalista Bento Araujo, do clássico Poeira Zine e também da série de livros Lindo Sonho Delirante, chamando a obra de “um manifesto ideológico de angústia e existencialismo juvenil”. Faz bastante sentido.
Poisé… faixas como “Pela Paz”, “Medo” (que tem mesmo um viés quase filosófico) e “Violência” não envelheceram: elas apenas trocaram de cenário. O mundo continua em guerra, o planeta segue à beira do colapso e a paz ainda parece um projeto radical. “O Redson fazia uma letra básica, no embromation, só para acompanhar uma música que estávamos desenvolvendo”, conta Pierre, sobre o nascimento das canções. “Durante o processo, as letras iam surgindo, mas, às vezes, quando parecia estar tudo encaminhado, mudávamos uma parte ou toda a letra. Tínhamos sempre esse cuidado para evitar ofender pessoas, direta ou indiretamente, sem o devido merecimento”.
O fato é que Pela Paz… vendeu cerca de 30 mil cópias via selo Ataque Frontal, um verdadeiro marco para um lançamento independente na época, o que abriu as portas inclusive para uma turnê dos caras pela Europa. Foram cinco meses de viagem em que o grupo passou por 10 países e se apresentou em 56 shows – com shows rolando em squats, casarões abandonados transformados em moradias coletivas e centros culturais, entre outros. Mais punk, impossível (e ainda bem!). Não por acaso, o disco foi escolhido pela revista Rolling Stone como o 2º melhor disco de punk rock do Brasil, atrás apenas de “Crucificados pelo Sistema”, do Ratos de Porão.
Vale lembrar que o Cólera permanece em plena atividade até hoje – com a morte de Redson, em 2011, a banda seguiu com o ex-roadie Wendel Barros assumindo os vocais e Anselmo Pessoa no papel de guitarrista.

Inocentes: o caos urbano como trilha sonora
Se o Cólera olhava para o mundo, os Inocentes olhavam diretamente para São Paulo. Ao lado de outros jovens amigos da Vila Carolina, Zona Norte da capital, o vocalista Clemente Nascimento iniciou sua carreira musical tocando como baixista no Restos de Nada, considerada a primeira banda punk do país, lá por volta da metade dos anos 1970 – sendo que, no finalzinho, justamente no ano em que este editor nasceu (1979), ele se juntou aos N.A.I. (Nós Acorrentados do Inferno), que depois mudariam de nome pra Condutores de Cadáver. Mas a banda acabaria em 1980 e, no ano seguinte, ele então fundou os Inocentes, ao lado do guitarrista Antônio Carlos Callegari e do baterista Marcelino Gonzales.
A banda sempre teve um pé no punk inglês e outro cravado no asfalto rachado da maior cidade do país. “Era uma coisa bem de bairro mesmo, amigos que se juntavam para fazer um som e se divertir. Existiam várias bandas na cidade na época. Os primeiros shows aconteceram no nosso colégio, a Escola Estadual Tarcísio Álvares Lobo”, lembra o frontman, em um papo com o Jornal da UNESP. Em 1982, ao lado do próprio Cólera e também do Olho Seco (portanto, as três bandas mais seminais do punk nacional), participaram da hoje lendária coletânea Grito Suburbano – com o estouro do movimento, ganharam alguma projeção nacional, mas ali por volta de 1983, depois do clássico festival O Começo do Fim do Mundo, no Sesc Pompeia, a banda deu uma parada, em especial por conta das brigas entre as gangues. “Punk não é isso; quando um não quer, dois não brigam. Eles querem brigar? Deixa para lá”.
A volta aconteceria logo em 1984, quando os Inocentes juntaram uma grana e gravaram uma demo-tape, que acabou sendo ouvida pelo então presidente da Warner, André Midani. Resultado? Contrato assinado para a gravação de três discos. A única exigência que o Clemente fez? “Que a Warner pagasse as horas de estúdio que a banda havia usado na gravação da demo-tape. A gravadora topou, agendou o estúdio para março de 1986 e propôs experimentar com o grupo um novo formato de disco: um EP de seis músicas, chamado na época de Mini-LP”, explica o jornalista Ricardo Alexandre, no encarte do disco.
No fim das contas, Pânico em SP foi gravado ao longo de 70 horas, nos lendários estúdios paulistanos da Mosh, com um produtor à época estreante mas que se tornaria um grande nome do rock nacional: Branco Mello, dos Titãs, devidamente acompanhado de Pena Schmidt como coprodutor. O disco é um retrato cru da vida urbana: medo, repressão policial, violência cotidiana, paranoia, falta de perspectiva. Tudo isso embalado em músicas curtas, nervosas e cortantes. Faixas como “Pânico em SP”, “Rotina” e “Não Acordem a Cidade” transformam a cidade em personagem — hostil, barulhenta, opressora. Não há romantização aqui. O punk dos Inocentes é sobrevivência.
Mas, pensando na sonoridade, aquele era um Inocentes mais “limpo” só que sem nunca perder a conexão com suas próprias raízes, o que inclui a regravação de “(Salvem) El Salvador”, lançada anteriormente no compacto Miséria e Fome. Mesmo fechados com a Warner e ganhando algum espaço fora do underground, claro, eles não chegaram a explodir no mainstream por um motivo bem simples: a banda do seu próprio produtor, os Titãs, também contratada da mesma gravadora, muito mais palatável para as rádios na época. “Houve uma clara preferência pelo que poderia ser mais rentável ou acessível. A concorrência pode ter sido cruel para nós, mas isso não foi motivo para nos desanimar. Estamos até hoje tocando e gravando”, diz Clemente num papo com o Estadão.
Mesmo quatro décadas depois, o disco segue assustadoramente atual. A São Paulo descrita ali mudou de fachada, mas manteve a lógica: exclusão, pressa, desigualdade e medo como política pública.
Dois discos, um mesmo impulso
À primeira vista, Pela Paz em Todo Mundo e Pânico em SP parecem opostos. Um fala de paz global; o outro, de caos urbano. Mas o que une esses discos é muito mais forte do que o que os separa. Ambos são produtos de um Brasil em transição, onde a liberdade recém-conquistada ainda vinha acompanhada de violência, pobreza e autoritarismo reciclado.
Os dois álbuns compartilham uma ética punk muito clara: faça você mesmo, fale o que precisa ser dito e não espere autorização. São discos feitos à margem da indústria, pensados para circular de mão em mão, em fitas, em shows, em fanzines. Não eram produtos. Eram ferramentas.
E talvez por isso tenham sido, por tanto tempo, subestimados fora do circuito punk. Nunca tocaram no rádio “certo”, nunca ganharam status de “MPB”, nunca foram devidamente incorporados ao cânone oficial da música brasileira. Mas seguem vivos — talvez mais vivos do que muita coisa que foi celebrada à exaustão.
1986 nunca acabou
Talvez o dado mais perturbador ao revisitar Pela Paz em Todo Mundo e Pânico em SP quarenta anos depois seja perceber o quanto eles não soam como peças de museu. Em 2026, seguimos assistindo a guerras transmitidas em tempo real, como o massacre em Gaza; a uma crise climática tratada como nota de rodapé por governos e corporações; e a cidades cada vez mais inviáveis, onde viver virou um exercício permanente de resistência.
O mundo que o Cólera denunciava e a São Paulo que os Inocentes gritavam não ficaram para trás. Eles apenas ganharam novos nomes, novas tecnologias e uma camada extra de cinismo.
E talvez seja justamente aí que esses discos sigam tão necessários. Porque eles não oferecem conforto, nem soluções fáceis, nem a ilusão de que “as coisas melhoraram”. Eles lembram que a violência é estrutural, que a paz é um projeto político radical e que o caos urbano não é acidente — é escolha. Ouvir Cólera e Inocentes hoje é encarar a pergunta que muita gente prefere evitar: o que a gente fez com os alertas que eles já nos davam em 1986?
Quarenta anos depois, o punk brasileiro segue não como estilo, mas como ética. Como incômodo. Como memória viva de que ainda há muito a ser combatido… e que o barulho, às vezes, continua sendo uma das formas mais honestas de dizer: isso aqui não está certo.