LUX, de Rosalía: entre a santidade e o marketing
Falando sobre performance neoliberal porque, quando você apaga a violência de um processo e enxerga apenas sua “pureza”, o que surge é inevitavelmente uma estética conservadora
Por GABRIELA FRANCO
Algo me incomodou profundamente em LUX (2025), o novo álbum da cantora espanhola Rosalía, e, de cara, eu não soube dizer o que era. Não foi, pelo menos inicialmente, a estética católica (eu posso achar um saco e nada inovador, mas tendo vindo da subcultura gótica, é algo que nunca me impressionou). Também não era o uso de música clássica: fiz conservatório, sou formada em música, isso definitivamente não era o problema. Era outra coisa. Mas o quê?
Ouvi o álbum três vezes, destrinchando cada música e cada letra. Li sobre sua história e as referências por trás do projeto. Li críticas, quase todas tratando LUX como se fosse um novo Réquiem de Mozart, e me deparei com uma enxurrada de criadores nas redes tentando “decodificar” a obra como se ela fosse a Pedra de Roseta da cultura pop (calma, gente, menos). Mas, ainda assim, não encontrei o que me soava estranho.
Foi só quando comecei a cruzar meus estudos acadêmicos sobre instrumentalização do sagrado e o modo como símbolos religiosos vêm sendo mobilizados na estética e na comunicação da extrema-direita com o que estava sentindo ao ouvir e reparar na estética do álbum, é que tudo começou a fazer sentido.
No início, achei que era exagero, uma implicância minha. Parecia que a Gabriela, jornalista crítica de cultura pop, estava sendo engolida pela minha nova skin de pesquisadora em filosofia da religião. Mas não há como negar: estética, marketing, cultura pop, política e discursos religiosos estão, infelizmente, entrelaçados.
Quem é Rosalia, o que é LUX, de onde viemos e para onde vamos
Rosalía não chegou à LUX por epifania divina, mas por pura estratégia de marketing.
Nascida nos arredores de Barcelona, ela cresceu sob a gestão firme de sua mãe, Maria Pilar Tobella, que sempre agiu como uma agente mão-de-ferro de sua carreira. Na adolescência, a cantora passou por uma maratona de realities musicais, inclusive versões do The Voice, entre outras tentativas frustradas de emplacar a carreira; era Pilar quem a inscrevia, acompanhava e administrava cada aparição.
Depois de uma dessas experiências terminar em humilhação pública, a mãe decidiu profissionalizar a operação: traçou um plano de carreira e transformou a filha em projeto. A contratação de Jonathan Dickins, empresário britânico conhecido por administrar a ascensão de Adele, consolidou essa virada. Ele segue com Rosalía ainda hoje.

Mas não há como negar o talento lapidado da cantora. Sua capacidade vocal é impressionante, conquistada através de uma formação muito sólida: Escola Superior de Música da Catalunha, estudo apurado de flamenco, obsessão técnica. E é justamente essa formação que dá peso ao seu primeiro disco internacional, o álbum El Mal Querer (2018), nascido primeiramente como seu trabalho de conclusão de curso e transformado em manifesto pop. O álbum a consagra e a vende para o mundo como “pesquisadora do flamenco”.
Mas é justamente aí que já nascem as críticas: músicos e guardiões do gênero a acusaram de apropriação, dizendo que a cultura flamenca, que já foi considerada marginal, com raízes árabes, judaicas e romani, forjada no sofrimento dessas comunidades antes perseguidas pela igreja e autoridades espanholas, na mão de Rosalía acabou virando produto de exportação de uma nova “Espanha cool”.
A lógica é mais ou menos a mesma que transformou o samba, antes cultura de resistência negra, em cartão-postal pra branco fazer sucesso e vender o Brasil no exterior.
Mas, mesmo assim, críticas foram abafadas e ela seguiu sendo aclamada pela mídia como artista de vanguarda que, ao integrar o flamenco ao pop, apresentou uma nova Espanha ao mundo. Já em Motomami (2022), seu segundo álbum, ela vira praticamente latina.
O flamenco quase some, entram o reggaeton, o dembow (variação dominicana do reggaeton), a cúmbia caribenha. A estética mistura códigos latinos e cultura geek japonesa de animes e mangás numa coisa meio Blade Runner caótica e com ares futuristas. As músicas também exploravam essa mistura totalmente pop e a crítica internacional novamente se derreteu: “Está muito à frente! Homenageia os ritmos e culturas latinas! É definitivamente a nova diva pop!”.
Mas o gesto é ambíguo: homenagem ou exploração da latinidade? Experimentação ou reposicionamento estratégico? Ao que parece, a inquietação estética de Rosalía vem sempre acompanhada de um cálculo milimétrico de qual nicho ela vai abraçar. Depois de Motomami, passou a ser normal ver muitas pessoas se surpreendendo em saber que ela não era latina como Shakira, por exemplo, mas espanhola mesmo, europeia. Pelo jeito, ela foi bem-sucedida em seu objetivo. 😉
Fiat Lux!
Então chegamos a LUX (2025), uma guinada avassaladora. E não apenas em termos sonoros, mas culturais e simbólicos: ela troca o urbano geek e sensual de Motomami pelo eruditismo clássico e o sacro; a música dançante por corais e vocais líricos; e as gírias latinas pelo latim.
Temos outra personagem, outros códigos, significados e significantes. Até aí tudo bem, isso é ótimo, David Bowie fazia isso a todo momento. A questão é O QUE esses novos códigos querem realmente dizer.
Pra começar, rebatendo a mídia que está incensando o álbum como “inovador”, também não posso dizer que é: Sarah Brightman e Jackie Evancho já fundiram a música clássica ao pop e ao rap muito antes de Rosalía. A primeira fez isso nos anos 1990, inclusive. Tudo bem, Rosalía faz isso à sua maneira: com sua assinatura, seu recorte estético, sua obsessão pela fisicalidade da voz, mas não inaugura um território.
Da mesma forma, inspirar-se em mulheres fortes e disruptivas para compor suas músicas, como ela alega que fez em LUX, tampouco é novidade. A própria Björk (que participa da faixa Berghain), FKA Twigs, Diamanda Galás, Sevdaliza, Fever Ray e tantas outras já se debruçaram sobre mitologias, espiritualidades, erotismos e futurismos femininos como motores de criação.
Rosalía faz parte de uma linhagem consistente, brilhante e necessária, mas não solitária.
Combinar orquestra, canto coral, música de câmara e religiosidade imagética e ainda homenagear mulheres, questionar papéis de gênero, falar sobre amor e não só sexo?
É um movimento ousado, sem dúvida, que parece ir na direção contrária da qual a música pop caminha, principalmente em tempos de IA, mas isso também levanta questões importantes sobre suas escolhas simbólicas e políticas.
Então, no que o álbum se destaca? Qualidade musical é um de seus pontos fortes. O disco foi gravado com a London Symphony Orchestra, conta com arranjos de compositores/arranjadores clássicos/experimentais e traz participações de vozes diversas, o que reforça seu caráter de hibridismo entre o pop contemporâneo e a tradição erudita.
Ela também canta em muitas línguas: espanhol e catalão (suas línguas nativas), mas também árabe, hebraico, japonês, italiano, latim, siciliano, ucraniano, alemão, entre outras. Há quem conte 14 línguas no total.

Santa performance
Ao ouvir LUX (luz, em latim) pela primeira vez, pela escolha das músicas iniciais e a ordem de todas as outras, tive a impressão de estar realmente ouvindo uma sinfonia: uma peça clássica com diversos movimentos onde as músicas se fundem umas às outras.
Ela começa com “Sexo, Violência y Llantas”, “Relíquia” (belíssima) e depois é seguida de “Divinize”. A primeira começa chocando em sua letra, fala de desejo, violência e dinheiro, como se discorresse sobre os prazeres carnais que nos afastam do divino; a segunda discorre sobre santidade e culpa, talvez a perda ou o distanciamento de algo que era puro e se corrompeu. Já Divinize fala sobre ele, “o sagrado feminino”: sim, reconhecer-se um ser divino, mesmo quebrantado e com cicatrizes.
Bonito, poético, mas um tanto elitista, vamos sempre lembrar. Meio difícil, por exemplo, uma mulher periférica e marginalizada reconhecer-se divina desta forma? Não soa, no fim, um pouquinho “jovem místico” demais? Mas, enfim, compreendemos a intenção e, no frigir dos ovos, a mensagem é “válida”.
No geral, LUX mergulha no “mistério feminino”, na espiritualidade, no sofrimento, na fé, no desejo e na angústia de sermos paradoxais. Muitas músicas dialogam com imagens religiosas, santos e santas, busca por transcendência, dor, perdão e renascimento.
“La Perla”, “ La Yugular” e ” Berghein” são bem dramáticas, quase operetas. Em “Porcelana”, ela volta a falar sobre pureza corrompida. “Mio Cristo Piange Diamanti”, cantada em italiano, soa quase litúrgica. Há ainda faixas que não chamam tanta atenção e outras com títulos provocativos como “Dios és un stalker” – que discorre sobre a onipresença divina num misto de fascinação e temor.
Enfim: cantar em treze idiomas acompanhada de uma orquestra e construir um mosaico cultural tão amplo demonstra ambição artística e respeito às tradições que Rosalia visita. O álbum pretende ser universal, um esforço para aproximar linguagens, culturas e sensibilidades rumo à transcendência.
Mas é justamente aí que o incômodo começa
Podemos viver em harmonia coletiva, claro. Mas transcendência e busca pelo sagrado são experiências profundamente íntimas, não existe nada de universal nisso.
O cristianismo, e em particular o catolicismo, construiu uma hegemonia cultural que moldou padrões de moral, estética e espiritualidade por séculos, muitas vezes à custa de outras individualidades e tradições religiosas. Nesse contexto, artistas pop como Madonna e Lady Gaga se mostraram disruptivas, subvertendo símbolos cristãos em suas performances e videoclipes, provocando choque e questionamento, mas também obtendo visibilidade e valorização no mainstream.
Essa apropriação crítica, porém, é marcada por um duplo padrão: pensemos noutra diva pop de tamanha repercussão global fazendo o mesmo estudo estético com outra religião, em especial daquelas que o catolicismo costuma estereotipar ou “demonizar”, do budismo ao islamismo, passando inclusive e principalmente pelas religiões de matriz africana. Imagine só o tipo de crítica do pai, do filho e do espírito santo. Pois é: no fim, sabemos que a hegemonia cristã ainda dita quais expressões religiosas podem ser convertidas em espetáculo cultural e quais devem para sempre permanecer marginalizadas.
Ao vestir LUX com uma estética católica de grande impacto visual (anjos, coros, latim, santas, iconografia sacra), Rosalía pisa em terreno delicado. A beleza gótica do catolicismo, já explorada muitas vezes pela cultura pop, convive aqui com o peso simbólico de uma instituição que ainda é conservadora, hierárquica, misógina e resistente à plena inclusão de pessoas LGBTQ+. Não se trata de negar o poder estético do catolicismo, mas de lembrar o que está por trás da decoração.
A Igreja Católica segue proibindo a ordenação de mulheres, mesmo após vários debates sinodais; mantém posições restritivas em relação a fiéis LGBTQ+; e enfrenta críticas internas por práticas discriminatórias recentes, algumas denunciadas por membros do próprio clero. Isso sem falar nos inúmeros casos de pedofilia que atravessam a instituição há décadas.
A apropriação de símbolos católicos, especialmente diante do histórico de violência da própria Igreja contra mulheres, responsável por três séculos de Inquisição, um verdadeiro massacre destinado a impedir que elas se emancipassem e ocupassem espaços de poder, revela um gesto de distorção simbólica.
Não é uma reapropriação crítica: é uma estetização performática. A tensão entre o discurso de modernização e as estruturas de poder que permanecem intactas é pública e constante. Essa realidade não desaparece porque a estética é bonita; às vezes, justamente por estar envolta em aura angelical, ela se torna ainda mais difícil de engolir.
É nesse ponto que LUX corre o risco de resvalar na idealização. Ao apresentar uma espiritualidade fortemente católica sem tensionar abertamente as estruturas que sustentam essa instituição, o álbum pode soar como um “glacê conservador” típico da extrema-direita: uma camada visualmente sublime cobrindo uma base problemática. Rosalía trabalha com a mística da coisa, mas evita confrontar o sistema que deu forma a essa mística: um sistema profundamente marcado pela exclusão de mulheres e pessoas dissidentes. Ao divulgar fotos de mulheres de diferentes etnias e trajetórias afirmando que “ cada música do álbum foi inspirada nelas”, Rosalía adere ao multiculturalismo como estratégia de marketing, uma construção puramente cosmética que produz “diversidade como performance” e não como experiência transformadora. As mulheres tornam-se ícones decorativos, e não sujeitos.

Portanto, descobri meu incômodo: LUX é a fusão definitiva entre santidade e branding, caracterizando um gesto profundamente neoliberal de conversão do sagrado em capital simbólico. E esse gesto é simultaneamente estético, político e mercadológico. O álbum parece atender à exigência da lógica neoliberal do mercado da música: para se tornar diva pop, não basta ser inventiva, é preciso fazer algo para parecer “importante”.
Assim, Rosalía mobiliza símbolos religiosos, música clássica, iconografia feminina e retórica espiritualizada para construir uma estética de transcendência que, na prática, maximiza seu valor de mercado. Essa é a marca do neoliberalismo: transformar tudo em mercadoria: religião, dor, memória, identidade.
Como lembra o crítico Hal Foster, uma das vozes mais importantes da arte contemporânea, o neoliberalismo cultural pega símbolos carregados de violência e trauma, limpa sua história e os transforma em item de luxo, apagando memórias, silenciando vítimas e neutralizando conflitos.
E a geração Z, tão frequentemente associada a rupturas, produz aqui o movimento contrário: um pop devocional de luxo, onde a transcendência é uma categoria de mercado.
Mas isso pode estar ligado ao conservadorismo que vem crescendo entre alguns jovens. Pesquisas recentes nos Estados Unidos mostram que, embora a maioria dessa geração ainda se declare liberal, cresce o número de “moderados” e “conservadores”, e essas mudanças variam bastante por gênero, contexto social e região.
Parte da juventude parece buscar símbolos tradicionais e religiosos como referência estética ou existencial, mesmo que de forma superficial. Nesse sentido, o pop devocional de luxo de LUX pode bem vir a calhar, afinal Rosalía, em LUX, não busca o sagrado em si, mas sim o efeito, a performance do sagrado.
No final, acabei lendo o álbum como um grande ritual de marketing: uma missa pop onde a artista é simultaneamente a sacerdotisa, a marca e o produto.
Mas vejam bem: isso não o invalida de forma alguma, apenas torna sua recepção um pouco mais complexa. Para alguns ouvintes, LUX pode sim ser uma experiência espiritual arrebatadora, um encontro entre fé, beleza e sofisticação musical. Para outros, pode soar como uma estetização acrítica de símbolos que carregam séculos de opressão.
Em ambos os casos, a obra exige reflexão e talvez esse seja um dos seus maiores acertos – ou talvez o maior de todos.