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PROJECT R.E.D.: fim e recomeço pros fãs de tokusatsu

A Toei encerra um ciclo de 50 anos dos Super Sentai e aposta tudo em Gavan Infinity, o primeiro passo de uma nova franquia que resgata a herança dos Metal Heroes

Por THIAGO CARDIM

Quando chegou a primeira notícia, ainda em forma de um boato, o universo dos fãs de tokusatsu virou do avesso: ao final da atual série Gozyuger, que chegou justamente para celebrar os 50 anos da franquia dos Super Sentai, a Toei iria encerrar as atividades das séries anuais dos super grupos multicoloridos.

(Um resumo rápido pra quem tá chegando agora e não faz ideia do que são os Super Sentai:  como acontece com Changeman, Flashman, Maskman ou Google V, todos exibidos por aqui, os protagonistas se transformam em super-heróis e ganham superpoderes, usando uniformes identificados por cores, sendo que o líder costuma ser o vermelho, para lutar contra um grupo de supervilões de outro mundo que ameaçam dominar a Terra. Em um episódio padrão, eles detonam o monstro da semana, que aí fica gigante e os força a enfrentá-lo usando o seu robô mecha da vez. Sim, eles são a base dos Power Rangers)

A notícia, que caiu como uma bomba, foi aos poucos ganhando tons de confirmação: depois de cinquenta anos de praticamente ininterrupta presença nas manhãs japonesas de domingo, a franquia Super Sentai foi apontada pela imprensa como próxima de uma pausa/encerramento no seu formato tradicional. E na última semana, tivemos a confirmação: não só este encerramento (que pode não ser necessariamente um “fim definitivo”, mas calma que eu já explico) é verdadeiro como temos até um substituto, uma nova franquia, Project R.E.D., com o nome em inglês mesmo.

Estamos falando de uma guinada editorial: a Toei não está apenas trocando um nome, mas testando um novo modelo de franquia para a era pós-Sentai. É o fim? É uma mudança de forma? Ou é o retorno de uma OUTRA franquia, bastante querida inclusive pelos fãs brasileiros, a ser mesclada com esta nova?

O fim da era Super Sentai — o que aconteceu?

As razões não são um único evento: foram discussões de bastidor sobre formato, audiência, merchandising e o cansaço natural de um ciclo editorial de cinco décadas. Além disso, muita gente aposta que, com o final do acordo entre a Toei e a franquia Power Rangers, depois que ela foi comprada da Saban pela Hasbro, este declínio acabou se tornando ainda mais rápido e evidente. Afinal, se antes os guerreiros coloridos da Alameda dos Anjos dependiam do material original japonês, hoje ganharam vida própria – e o prometido reboot pro Disney+ promete se distanciar ainda mais de suas origens nipônicas.

Fontes e analistas do gênero relatam que produtores e Toei debateram alternativas ao formato “quinteto/colorido/megazord” para atrair novas audiências (e, lembremos, estamos falando aqui de um público mais jovem, uma molecadinha que vai pra muito além de grisalhos como este que vos escreve) e renovar a dinâmica comercial da manhã de domingo. Sim, sim, comercial: a Toei e a TV Asahi, no fim das contas, querem ver bonecos e acessórios dos personagens sendo vendidos como água, tal qual Transformers, He-Man, Thundercats ou Tartarugas Ninja.

E isso nem de longe vinha sendo a realidade nos últimos anos, tampouco com o recente Gozyuger (já envolvido, aliás, em sua dose de problemas, com o bizarro afastamento da atriz Maya Imamori. De acordo com o site Live Door, em coletiva de imprensa, o presidente da TV Asahi, Arata Nishi, agradeceu aos fãs que acompanharam a trajetória dos heróis na emissora e afirmou que o momento é de criar um novo herói e continuar oferecendo novas produções de tokusatsu.

“Existe uma chance de futuras novas temporadas de Super Sentai, embora nada esteja definido”, disse. “O ciclo de 50 anos se torna um marco importante para encerrar uma etapa e abrir outra”.

A resposta para isso foi um novo selo com proposta distinta, e não necessariamente o fim absoluto do Sentai em todas as suas formas – afinal, há menções a possibilidades de continuação via streaming ou formatos especiais, tentando aproveitar o apelo que a franquia tem, ainda que sob um ponto de vista mais nostálgico, fora do Japão.

Enquanto isso, esta nova franquia promete, de alguma forma, retomar o espírito de uma antiga série de produções da Toei, os chamados Metal Heroes (sim, a turma do Jaspion, Spielvan e por aí vai).

Metal Heroes: quem eram e por que sumiram

Os Metal Heroes nasceram no começo dos anos 1980 como metassérie da Toei — com vertentes como os Space Sheriffs (Gavan, Sharivan, Shaider) e depois tramas policiais/robóticas (Winspector, Solbrain). A produção regular original durou até 1999 e, depois disso, o selo ficou em grande parte em repouso, retornando esporadicamente em crossovers, filmes ou projetos especiais.

O “desaparecimento” se explica por fatores parecidos com os do Sentai: mudança de mercado, baixas vendas de brinquedos, prioridades da Toei e a transição de um público nitidamente envelhecido – até que agora a companhia passou a registrar marcas e preparar um ressurgimento.

Porque, sim, o primeiríssimo lançamento desta nova franquia Project R.E.D. (Record of Extraordinary Dimensions) será Super Space Sheriff Gavan Infinity. Pois é, o nome Gavan acende uma luz na cabeça dos fãs mais nostálgicos, já que estamos falando do mesmíssimo título daquele primeiro dos Metal Heroes.

Gavan (Uchū Keiji Gavan), criado em 1982, foi o primeiro dos Space Sheriffs e um dos pilares que originaram o universo Metal Hero – um herói espacial em armadura metálica que patrulhava o cosmos e a Terra. Trata-se também da primeira etapa da trilogia dos Policiais do Espaço, que seria seguida plas duas séries seguintes, Sharivan e Shaider. No Brasil, Gavan foi transmitida pela Rede Globo, a partir de 4 de março de 1991, na tal “Sessão Aventura”, em meio à explosão tokusatsu por aqui graças à TV Manchete, quando foram exibidos apenas os 20 primeiros episódios.

Posteriormente, acabou remanejada pro Xou da Xuxa, quando os 44 episódios foram milagrosamente exibidos. Os episódios ainda teriam outra chance nas nossas telinhas no mesmo ano só que na TV Gazeta dentro do infantil Gazetinha.

Ao longo das décadas, Gavan ganhou novas encarnações pra além da versão clássica dos anos 1980, incluindo sucessivas reinterpretações em filmes e especiais (como Space Sheriff Gavan: The Movie, longa-metragem de 2012 criado para celebrar três décadas da estreia da série), que atualizaram visual e mitologia. Em tempo: caso você tenha curiosidade de conhecer ou revisitar o Gavan original, o canal Tokusato está disponibilizando as versões dubladas dos episódios para os seus membros.

Sabe-se que este Gavan Infinity surge como uma reimaginação/continuação desse legado, embora teoricamente muito longe de um remake/reboot ou continuação direta. Pois mesmo que não saibamos nada de muito concreto para além do pôster, que mostra uma armadura vermelha e não aquela clássica prateada do personagem original, a promessa da Toei é modernizar o conceito, mas mantendo os elementos icônicos.

O que é PROJECT R.E.D. e o que já sabemos

Project R.E.D. deve ser centrada visual e tematicamente em heróis “vermelhos” e numa proposta que promete ser mais serializada e interconectada, com potencial inclusive de crossovers entre séries (da mesma franquia? Da franquia que “morreu”? Das outras franquias em atividade? Em breve saberemos).

Agora… será que os “heróis vermelhos metálicos” podem substituir a lógica de equipes coloridas? A resposta curta: é possível. Lembremos que históricas séries Metal Hero já testaram arranjos de equipes (Winspector e Solbrain, por exemplo, apenas para lembrar duas também exibidas no Brasil, trabalharam com estruturas próximas de “trios coloridos” em campos policiais/tecnológicos) e demonstraram que a estética “armadura + individualidade” pode funcionar em diversos formatos.

A novidade do PROJECT R.E.D. é justamente tentar pegar o apelo solista/figural dos Metal Heroes e combiná-lo com narrativas compartilhada e combinações de personagem, ou seja: replicar a sensação coletiva dos Super Sentai sem necessariamente reproduzir o mesmo modelo de equipe de roupa de lycra e com robô gigante.

Em suma: o público aceitará qualquer ideia mirabolante se a execução equilibrar espetáculo, personagens carismáticos e jogadas de marketing convincentes.

Agora… e a experiência Kamen Rider – pode se repetir?

O exemplo de Kamen Rider é instrutivo: a franquia teve um período de hiato e reinvenção (o grande “reboot” com Kamen Rider Kuuga em 2000, a primeira série da franquia desde o nosso clássico Kamen Rider Black RX, é o caso mais citado), e desde então voltou com força, reconfigurando-se para públicos contemporâneos sem perder sua identidade.

Isso mostra que franquias clássicas podem ser pausadas e ressuscitadas com sucesso se a reinvenção respeitar o cânone ao mesmo tempo em que atualiza linguagem e marketing.

Portanto, sim, é razoável acreditar que o Super Sentai clássico como conhecemos poderia seguir trajetória parecida (pausa em um formato, retorno em outro) caso a Toei queira executar uma estratégia de longo prazo. Mas é importante frisar: cada franquia tem suas especificidades de produto e mercado; o sucesso de Kuuga não garante uma réplica automática.

No entanto, nos comunicados e nas reações do mercado, há sinais de que a Toei pensa grande: registrar marcas, centralizar propriedades e criar um selo interconectado facilita licenciamento, filmes, crossovers e, potencialmente, estratégias globais (streaming, mercadorias e até adaptações locais).

A própria escolha de reativar Gavan – figura já conhecida internacionalmente – indica um olhar para além do Japão, tal qual acontece hoje com Kamen Rider Zeztz, exibido simultaneamente para uma série de países (incluindo o nosso).

Em resumo: as estruturas que a Toei está montando favorecem um alcance global maior, mas muito depende de distribuição, plataformas parceiras e apelo transmediático.

Enfim…

Enquanto aguardamos mais informações, é possível concluir que a chegada de Super Space Sheriff Gavan Infinity e do PROJECT R.E.D. soa como o tipo de sacudida que só o tokusatsu sabe dar: um aceno ao passado (Metal Heroes), um ajuste no presente (criando algo para substituir/atualizar os Super Sentai) e uma aposta no futuro (franquias modulares, crossovers e economia global de fandom).

Pode dar certo. Pode dar errado. Mas o que importa é que, para fãs (dos Sentai clássicos, dos Metal Heroes ou mesmo curiosos de plantão), 2026 promete manhãs dominicais muito menos previsíveis do que nos últimos cinquenta anos.