Vire um herói: DC ganha RPG oficial criado por brasileiros
Desenvolvido pela D20 Culture e supervisionado por Mark Waid, o jogo promete recriar o drama épico da Liga – da pancadaria na cidade ao conflito multiversal – com gosto tropical
Por THIAGO CARDIM
Vá lá, confesse: todo fã de gibi de super-herói, desde que se entende por gente, precisa admitir que sonhou, em algum momento, com a chance de vestir aquele uniforme multicolorido, voar pelo cosmos e socar um tirano interdimensional sem medo de romper o frágil tecido do multiverso… pelo menos, não antes da hora. Se este fã de gibi é uma criança, basta amarrar uma toalha no pescoço e fingir que é uma capa, um verdadeiro clássico.
Agora, se este fã de gibi já é um adulto (que, caso queira, TAMBÉM pode amarrar uma toalha no pescoço e sair por aí, não estamos aqui pra julgar!), talvez uma boa saída seja mergulhar de cabeça em um projeto verdadeiramente histórico: o Justice League Unlimited — The Roleplaying Game, RPG oficial da DC Comics desenvolvido pela D20 Culture e atualmente na reta final de uma explosiva campanha no Catarse.
Sim: estamos falando de um RPG oficial da DC (RPG de mesa, com dados, planilhas e afins) que nasce sob o calor tropical dessa terra onde Batman vs Superman é pauta de boteco (embora saibamos qual é a única resposta certa) e onde ler a Liguinha de Giffen/DeMatteis/Maguire forma caráter. E melhor: é um jogo licenciado, supervisionado, chancelado e 100% abraçado pela própria Warner. Um evento pop digno de capa dupla metalizada com brilho holográfico.
O renascimento da DC nos RPGs de mesa
Se você tem memória de fã dos anos 1980 e 1990, lembra bem: a DC já teve RPGs icônicos. O primeiro foi o DC Heroes RPG (1985), da Mayfair Games, com o lendário sistema MEGS, que permitia desde encarnar o Superman até interpretar um Robin cheio de vontade (e pouca potência). Depois, já nos anos 1990, veio o DC Universe RPG (1999), da West End Games, baseado no d6 System, com regras mais narrativas e aventuras mais cinematográficas.
Nos anos 2000, a Green Ronin assumiu o bastão com o DC Adventures, usando o sistema do Mutants & Masterminds para traduzir o espírito super-heróico aos jogadores.
Desde então, a editora ficou anos sem um RPG oficial… até agora.
Claro, foram jogos importantes, cada um à sua maneira (e eu me lembro de ter tido, durante anos, o DC Universe RPG na minha coleção, sem nunca sequer ter encontrado alguém pra jogar comigo). Mas nenhuma destas versões tinha o que este novo projeto traz:
✔ DNA brasileiro
✔ Engine original
✔ Licença oficial da DC Comics e Warner Bros. Discovery
✔ A promessa de um sistema realmente pensado para histórias ao estilo da Liga
Ou seja: agora é oficial – a DC tem um novo RPG, e ele fala português com sotaque de mesa de filtro de barro e jarro de plástico em forma de abacaxi.

Quem está por trás do Justice League Unlimited RPG?
O trio criativo é um crossover que só poderia ter nascido no Brasil – a começar por Pet Rodrigues, um dos narradores mais respeitados do país, conhecido por campanhas épicas ambientadas em Lacrima, seu universo próprio de fantasia sombria. A experiência dele em longform storytelling é essencial aqui.
Ao seu lado está Lucas Conti, criador de Mojubá e Full Metal Cria, dois RPGs que celebram a cultura preta brasileira, o afrofuturismo e o protagonismo periférico. Uma visão plural e contemporânea que a DC precisava — e que os fãs agradecem.
Já o terceiro pilar dispensa apresentações: Mark Waid, um supervisor criativo que é um dos escritores mais influentes da história da DC, a mente por trás de O Reino do Amanhã, Superman: Legado das Estrelas, DAQUELA fase do Flash e uma tonelada de clássicos. Ver seu nome num projeto brasileiro já é histórico; ver seu crivo criativo aqui é quase um evento cósmico. É um time que mistura técnica, narrativa, cultura pop, diversidade, ousadia e muita paixão.
“Vocês não estão se sentando para jogar com um mago ou bárbaro qualquer. Vocês estão aqui para jogar com lendas”, afirmou Waid, responsável principalmente por manter a continuidade cronológica da ambientação, sobre o projeto. Mas em tempo: não me venha falar mal do meu bardo, hein????
O jogo vem com a assinatura da D20 Culture, produtora e desenvolvedora que já tinha sido responsável por trazer ao Brasil e adaptar por aqui o RPG Avatar Legends (que saiu pela Galápagos) e também pelo jogo de tabuleiro O Senhor dos Anéis: Inimigos da Terra-Média – a primeira vez que uma marca nacional elaborou um jogo original baseado em uma propriedade intelectual da Warner. O namoro, portanto, começou aí.
Um jogo que se entende como gibi
O Justice League Unlimited RPG tem uma proposta sedutora: recriar não só o poder dos super-heróis, mas a dramaturgia das HQs, séries e animações da DC. Não é só sair voando e socando… embora isso também aconteça e saibamos que é divertido pra cacete, hahahahaha. O sistema proprietário usa elementos vindos das técnicas de roteiro que moldam o gênero: arcos dramáticos, momentos de virada, consequências narrativas e escalonamento épico digno de uma grande saga que carregue CRISE no nome.
É um RPG que entende que a Liga da Justiça não funciona só porque os heróis são fortes, mas porque suas histórias são gigantescas.
Assim sendo, dá pra criar seu herói original ou se inspirar nos clássicos, além de montar equipes improváveis para defender um bairro, uma cidade, um planeta, uma galáxia ou uma coleção inteira de realidades. Os autores tentam equilibrar clássico + moderno, oferecendo ferramentas narrativas que homenageiam todas as eras da DC, da Era de Ouro às mega sagas cósmicas recentes.
E sejamos honestos: a escolha do nome é tudo, menos acidental. A série animada Justice League Unlimited (2004–2006, conhecida por aqui como Liga da Justiça Sem Limites) ampliou o universo animado da DC (o DCAU) e trouxe dezenas de heróis para a tela. Diferente da série anterior, que tinha um núcleo fixo de sete personagens, esta tornou a Liga uma organização global, operando a partir de uma base espacial e com dezenas de integrantes, que eram convocados de acordo com as suas habilidades específicas para cada missão.
Sua jornada madura, ética e espacial funciona como uma espécie de “gramática visual” que o RPG busca traduzir para mesa.
James Gunn, por que choras? 😀
Historicamente, o jogo se passa em universo marcado por eventos cataclísmicos recentes, como a Crise Sombria nas Infinitas Terras (olha a crise aí!). Após uma série de batalhas que reescreveram a realidade, a Liga da Justiça se reconfigurou em uma versão “ilimitada” e, operando a partir de um novo satélite, a Torre de Vigilância, a organização oferece agora afiliação a todos os heróis da Terra. As missões são coordenadas pela inteligência artificial do Tornado Vermelho, que seleciona e envia as equipes mais adequadas para cada ameaça através de Tubos de Explosão.

Falando de regras
Antes que você me pergunte, eu te conto: o sistema faz uso de d20 (um dos elementos principais) e também de d12, d8 e d6.
Ao montar o personagem, você define seu arquétipo, que nada mais é do que seu papel narrativo, sua abordagem para o heroísmo: seja ele o campeão do amanhã, um farol de esperança que inspira a todos; ou o cavaleiro das trevas, um vigilante que usa as sombras e o medo como armas; ou ainda o anti-herói, que luta ao lado dos heróis mas tem métodos bastante questionáveis. As opções são fartas e variadas.
Com Pontos de Ascensão, você customiza os atributos (potência, agilidade, mente, etc.) e então compra seus poderes. O sistema de Graus permite que eles vão evoluindo com os heróis – que pode inicialmente controlar pequenas chamas e chegar até a manipular o fogo do centro da Terra, em escala planetária.
Ah, sim: para definir o código moral do seu herói, é preciso responder a estas cinco cláusulas tácitas:
– Como você justifica não tirar a vida de um vilão?
– Qual o seu maior sacrifício pelo bem maior?
– Quem é a pessoa que te mantém com os pés no chão?
– Qual a sua conexão com a humanidade que protege?
– O que você teme que o mundo descubra sobre você?
E aqui, o mestre é chamado não de narrador, mas sim de EDITOR, alguém que apresenta a história, traz os desafios e dá vida aos NPCs, desde as vítimas mais inocentes até os vilões mais cruéis. E a regra de ouro é sempre “a história acima de tudo”, sempre incentivando interpretação e colaboração.
Para dar ainda pimenta às sessões, entre cenas de combate, cenas de salvamento e aqueles interlúdios que servem para “humanizar” os personagens, é possível usar o chamado Dado de Crise, desencadeados a partir dos chamados Pontos de Roteiro. Aquele que pode trazer uma reviravolta no roteiro, enfiando um evento catastrófico surpresa quando menos se espera.
Um marco, um orgulho, uma nova Liga
O Justice League Unlimited RPG é mais que um lançamento. É um divisor de águas para o RPG nacional, um momento importante na história da DC, e uma ponte entre culturas e fandoms. É a prova de que histórias de super-heróis podem nascer em qualquer lugar – inclusive aqui, entre nós, que sempre discutimos se o Batman tem ou não tem poder (spoiler: tem sim, do dinheiro infinito), mas nunca deixamos de acreditar no poder das histórias.
É o Brasil entrando oficialmente para a mitologia da DC Comics (quer dizer, já tivemos a Fogo antes, mas vocês entenderam).
Pra quem ficou curioso, aqui dá pra baixar um fast play, que já dá um gostinho do que esperar, ou ainda ver algumas das sessões especiais que o pessoal da D20 Culture fez em seu canal no YouTube, com as campanhas “O Retorno do Nêmesis” e “Aurora Dourada”.
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Gabriel de Abreu
Como eu consigo comprar online? Não estou achando no Mercado Livre. Se alguém puder me ajudar
Thiago Cardim
Você não ia conseguir comprar no Mercado Livre mesmo, porque, conforme a gente fala no texto, eles estão finalizando uma campanha de financiamento coletivo no Catarse, hahahahahaha. A campanha dura mais três dias, reforço o link aqui: https://www.catarse.me/JLURPG