As muitas faces do Zorro
A gente aproveita que uma nova versão do personagem chega ao Brasil pelas mãos do quadrinista Sean Murphy para lembrar as origens e raízes do alter ego mascarado de Don Diego de la Vega
Por THIAGO CARDIM
Embora as versões mais antigas da origem do Batman deixassem claro que o jovem Bruce Wayne estava saindo com os pais Thomas e Martha do cinema, quando aconteceu o crime que marcou a vida do garoto para sempre, foi só na seminal série O Cavaleiro das Trevas que alguém tornou cânone o filme que os Wayne tinham ido ver: A Marca do Zorro. No fim, tanto poderia ter sido a versão muda de 1920 com Douglas Fairbanks no papel principal quanto a de 1940, na qual Tyrone Power usa a máscara. O que importa é o impacto que o personagem causou.
Não apenas na cabeça de um jovem Bruce, dentro da história contada nos gibis, que anos mais tarde também assumiria a sua versão muito particular de uma máscara e uma capa para combater a injustiça –, mas também na cabeça de um certo cartunista de nome Bob Kane. O próprio cocriador do Batman (junto com Bill Finger, sejamos totalmente justos aqui) já tinha dito claramente que suas três inspirações para o Homem-Morcego tinham sido o Zorro, o diagrama de Leonardo da Vinci para a máquina voadora conhecida como ornitóptero e o filme The Bat Whispers, thriller de 1930.
Este Zorro aí que surgiu em 1919, quando seu criador, o escritor americano Johnston McCulley, publicou na revista All-Story Weekly a primeira parte de uma história seriada chamada The Curse of Capistrano. E o tal do Zorro cuja nova reinvenção chega ao Brasil em formato HQ, via editora Pipoca & Nanquim. Trata-se de Zorro: A Ressureição, obra escrita e desenhada por Sean Murphy (Batman: Cavaleiro Branco, Punk Rock Jesus), com cores de Simon Gough.

Nesta nova versão, descrita pelo próprio autor como sendo “Dom Quixote encontra Narcos”, Diego é um jovem que está plenamente convencido de que é o Zorro. Ainda criança, ele sofreu um surto psicótico ao testemunhar o assassinato de seus pais pelas mãos de um cartel de drogas. Para lidar com o trauma, ele então abraça de vez a lenda do justiceiro de capa preta, assumindo a máscara e a espada numa guerra declarada contra os traficantes que dominam o humilde povoado mexicano de La Veja.
Mas o outro lado desta história é Rosa, a irmã de Diego. Forçada a trabalhar como motorista para o mesmo homem que matou seu pai e levou seu irmão a crescer isolado, ela busca ser realista e evita acreditar em “contos de fadas” – como parte da população que sonha com o retorno do cavaleiro de capa e espada que deixou sua marca na igreja local há quase dois séculos…
“Eu adoro o Zorro e quero muito me divertir”, afirmou Murphy na época do lançamento da campanha de financiamento coletivo da HQ, via Kickstarter, que acabou tendo seu lançamento original garantido pela Massive Publishing. “Sempre estou buscando novos desafios e voltar ao meu amor pela arte de Alex Toth e pelos clássicos filmes B de capa e espada é meio que uma forma de voltar a ser criança de novo”.
Vale lembrar, inclusive, que a histórica versão de Toth a qual Murphy se refere, publicada nos EUA entre o final dos anos 1950 e o início dos anos 1960 pela Dell Comics e adaptando a série de TV homônima da Walt Disney Productions, chegou a ser lançada recentemente no Brasil numa compilação da JBraga Comunicação.
Um pouco de história sobre o Zorro (como de costume)
Johnston McCulley, criador do Zorro, não tinha lá muita intenção de dar continuidade às histórias do vigilante mascarado depois daquela estreia em formato texto, lá em 1919. Mas quando Hollywood foi lá e resolveu, um ano depois, adaptar a trama como veículo para o galã Fairbanks, a parada deu tão certo que o autor sacou o potencial e alimentou o público ávido das publicações pulp (as revistas de entretenimento “barato” de ficção/fantasia/terror publicadas desde a virada dos anos 1900 até pelo menos o final de década de 1950) por quatro décadas, com cinco histórias seriadas, em vários capítulos, e nada menos do que 57 histórias curtas — sendo que a última saiu em 1959, o ano depois de sua morte aos 75 anos.
Embora muitos estudiosos afirmem que McCulley se inspirou na vida de Joaquin Murieta, criminoso mexicano da vida real que se vingava contra os abusos que os ricos impunham aos seus conterrâneos numa Califórnia do século 19 (e conhecido NPC Brujah do RPG “Vampiro: A Máscara”), em plena Corrida do Ouro, é inevitável fazer comparações com um personagem surgido nos livros mais de uma década antes, em 1905, o chamado Pimpinela Escarlate (Scarlet Pimpernel).
Criação da baronesa húngara Emma Orczy, o Pimpinela era a identidade secreta de Sir Percy Blakeney, um ricaço inglês que, embora se parecesse apenas com um bon-vivant, era na verdade um ginasta excepcional e um espadachim formidável que libertava os aristocratas franceses antes que fossem enviados para a guilhotina, deixando para trás o seu símbolo, uma flor, a tal pimpinela escarlate que lhe dava nome.
Sacou a semelhança? 😉
McCulley, no entanto, preferiu trazer esta “inspiração”, mas acrescentando um tanto mais da figura “exótica” dos caballeros hispânicos, com um código de honra inabalável. Então ele acrescentou o cavalo preto Tornado e colocou o nobre Diego para lutar não pelos ricos aristocratas como ele, mas sim pelos pobres mexicanos oprimidos e igualmente pela população indígena, ambos sofrendo nas mãos de homens poderosos e tirânicos interessados apenas e tão somente no ouro.
A história-padrão ao redor do Zorro conta que ele é filho de um dos maiores e mais ricos donos de terras da Califórnia, Don Alejandro de la Vega, que vive no vilarejo outrora conhecido como Pueblo de Los Ángeles, aquele que se tornaria a cidade que conhecemos como Los Angeles. Embora tenha passado grande parte de sua juventude na Espanha, estudando e aprendendo a nobre arte da espada, Diego (cuja mãe é falecida) acaba sendo convocado pelo pai para retornar à sua cidade natal, hoje nas mãos de um ditador opressivo e seu exército violento. Ágil, bem-humorado, especialista em diversas armas e formas de luta, o jovem resolve que é hora de fazer algo pela população e se torna um herói mascarado, usando como codinome a expressão em espanhol para a palavra “raposa” e tornando-se um dos foras da lei mais procurados da região — em especial pelo total desrespeito que tem pelas autoridades, tratando de humilhá-las publicamente em suas aventuras.

Contando com o segredo de Alejandro e também de Bernardo, seu criado mudo (…), ele usa uma série de passagens secretas e túneis subterrâneos para esconder o quartel-general do herói em uma caverna (ah, veja você) na enorme fazenda em que vivem. E assim como Bruce Wayne, Don Diego finge ser apenas um playboy frívolo, bobalhão e até meio covarde. Mas, diferente do sisudo Batman, o Zorro não se leva muito a sério, tira onda de tudo e todos e, claro, incentiva a criação desta persona sensual e provocativa, levando as mulheres da cidade à loucura.
Estereótipo e representatividade
“O Zorro pode ser qualquer pessoa”, diz, em entrevista ao jornal Los Angeles Times, Sandra Curtis, representante da Zorro Productions — uma empresa criada pelos filhos de Mitchell Gertz, que teria recebido os direitos de McCulley em 1949, e que agora que detém os direitos do personagem. “Ele não tem poderes especiais. Ele é atlético, brilhante e carismático, mas não tem superpoderes. Ele tem esta qualidade de ser gente como a gente”.
Talvez, no entanto, nem toooodo mundo concorde com esta última afirmação. Alguns estudiosos da cultura latina, por exemplo, são bastante críticos aos estereótipos que o herói (criado, afinal de contas, por um americano) carrega em sua essência, como ser um típico latin lover europeu lutando contra um bando de soldados mexicanos meio apatetados. “A imagem do herói espanhol moreno e misterioso cria uma imagem romantizada das tais proezas latinas”, explica o professor da UCLA, Rafael Perez-Torres. “O Zorro é um branco nascido no Novo Mundo, de sangue puramente espanhol. O comediante e roteirista latino Herbert Siguenza, integrante da trupe performática Culture Clash, especializada em atuações políticas e responsável por uma nova versão teatral do herói, concorda: “Ele fica menos ameaçador desta forma. Mas a Califórnia tinha os bandidos reais defendendo os nativos, caras como Joaquin Murieta. Eles eram os Zorros para nós, latinos. (…) Ele acaba sendo a visão eurocêntrica de um herói”.
Ambos, no entanto, admitem que o apelo do personagem acaba transcendendo os estereótipos. “Ele é alguém que luta pelos direitos dos oprimidos, na mesma filosofia de Zapata e Che Guevara. Este é um espírito que apoiamos”, afirma Siguenza. “O clichê é inseparável do apelo do personagem. Isso também é verdadeiro à medida que ele tem uma imagem positiva de um personagem aristocrático e nobre que luta contra a injustiça, que luta contra vilões impiedosos. A história do Zorro acaba misturando os lados bons e ruins do estereótipo latino”.
Mas gozado que, ainda assim, demorou UM BOCADO até que alguém minimamente hispânico interpretasse o Zorro numa telona ou telinha da grande mídia. E, pô, estamos falando de um personagem que virou uma dezena de adaptações pra TV e pro cinema. Popularizado principalmente por uma série da Disney exibida entre o final da década de 1950 e o começo dos 1960, com o ítalo-americano Guy Williams no papel principal, mesmo na série de TV dos anos 1990, totalmente gravada na Espanha, o Zorro era vivido por Duncan Regehr, um canadense.
À exceção de produções menores e não-oficiais no México e na Europa, a mudança de fato, global, se daria mesmo quando Hollywood resolveu fazer um filme no qual um Don Diego (no caso, Anthony Hopkins) já em vias de se aposentar resolve passar o seu manto para um outro sujeito (no caso, Alejandro Murieta, em tese irmão do Joaquin histórico original). Nascia aí o filme A Máscara do Zorro, sucesso de bilheteria de 1998 no qual Antonio Banderas assume a identidade do herói.
“Lá estava eu, no set, com a capa e a máscara, olhando para o vilão, o Capitão Love”, relembrou o ator, em 2018, ao celebrar os 20 anos do lançamento do filme numa entrevista pro Yahoo. “O vilão era loiro, de olhos azuis e falava um inglês perfeito. Logo pensei: hummm, tem algo mudando aqui”. Banderas, que no início da carreira tinha sido advertido que provavelmente viveria muitos vilões no cinemão americano já que latinos e negros eram sempre escolhidos como antagonistas, estava do outro lado do espectro. E ele defende que foi muito importante que estivesse ali, naquele momento, para que diversas crianças que falavam espanhol ao redor do mundo pudessem ver. “É uma fantasia, mas tem informação que entra na cabeça daquelas crianças. Elas vão guardar aquilo”.
Justamente para trabalhar um OUTRO recorte do herói, inclusive, mais moderno e contemporâneo, é que a Zorro Productions procurou, em 2003, ninguém menos do que a prestigiada escritora chilena Isabel Allende, do clássico A Casa dos Espíritos. A ideia seria fazer um livro que tivesse uma outra abordagem para a sua mitologia… mas digamos que a autora não estava lá muito interessada. “Eu sou uma escritora séria”, teria dito ela. Quando mandaram pra ela uma caixinha com antigos filmes, séries e gibis do Zorro, bem… “Eu me apaixonei de novo por ele”, explicou Isabel. “Porque eu o adorava quando era criança. Eu queria ser como ele. Ele é romântico, atlético, luta pela justiça”.
“Eles acharam que eu faria um bom trabalho porque já tinha escrito aventuras históricas. Além disso, eu conheço a cultura hispânica muito bem”, afirmou ela, em entrevista para a Folha de S.Paulo. A intenção de Zorro: Começa a Lenda era justamente criar um contexto historicamente mais realista. “Johnston McCulley era um americano que não era historiador”, complementa Curtis. “Queríamos criar uma origem que incluísse a jornada do herói junto de uma rica profundidade para a sua ambientação”.

Narrado a partir do ponto de vista de uma mulher, Isabel de Romeu, o livro mostra Don Diego como uma mistura de heranças espanhola e indígena — enquanto Bernardo era um índio e, sim, também irmão de leite de Diego. “Nas outras adaptações, Bernardo era apenas o servente. Era tratado de forma muito racista. Por isso, decidi lhe dar orgulho e dignidade”, conta Isabel.
O futuro
Depois dos dois filmes com Antonio Banderas, Zorro acabou sendo meio ignorado por Hollywood – mas aparentemente, isso está prestes a mudar. Para citar alguns exemplos, temos a série francesa Zorro (2024), estrelada por Jean Dujardin como o espadachim mascarado, rolando praticamente ao mesmo tempo que uma outra série de mesmo nome, só que do Prime Video, com Miguel Ángel Bernardeau Duato no papel principal do elenco essencialmente espanhol.
Além destes, atualmente estaria em andamento um projeto, a ser desenvolvido pela CBS Studios e com criação do cineasta Robert Rodriguez e de sua irmã, a roteirista e diretora Rebecca Rodriguez. Nesta versão contemporânea (um projeto que já passou por muitas mãos, aliás, considerando emissoras como NBC e CW), uma jovem latina descobre que seu pai, falecido há muito tempo, era o lendário herói Zorro. Ela assume sua identidade mascarada para defender os cidadãos desesperados de sua comunidade em Austin, Texas, das forças ricas que buscam explorá-los.
A notícia mais recente dava conta de que John Hlavin (O Homem Que Caiu na Terra) se juntou ao projeto.
Mas tem mais: já tem um bom tempo que o ator Wilmer Valderrama (o clássico Fez da série That ’70s Show) vem desenvolvendo uma série própria do Zorro para o Disney+, com o roteirista Bryan Cogman se juntando à equipe recentemente. Na trama, temos Diego retornando à sua cidade natal, El Pueblo de Los Angeles, após uma tragédia familiar, onde descobre uma cultura de corrupção e injustiça que o levará a assumir o manto do vigilante mascarado Zorro.
Falando do universo das HQs, depois de passar por editoras como a Topps Comics e a Dynamite Entertainment (onde foi publicado o crossover com Django Livre, escrito pelo próprio Quentin Tarantino e que inclusive vinha sendo prometido como adaptação para as telonas em algum momento do futuro), o personagem caiu também nas mãos da American Mythology — que não vem poupando esforços para torná-lo ainda mais moderno para as audiências contemporâneas.
Quer um exemplo? No título Zorro: Swords of Hell, de 2019, o roteirista David Avallone inaugura toda uma linha de HQs de western horror e coloca o personagem para enfrentar demônios, vampiros e demais criaturas sobrenaturais. Ao encarar um grupo de cavaleiros monstruosos que querem transformar a região num inferno, o espadachim encarna a sua melhor versão Van Helsing. Já Zorro: Sacrilege, sob a batuta do editor-chefe da American Mythology, Mike Wolfer, tem uma pegada mais crítica, ao mostrar uma ameaça vinda da religião — lembremos que, no século 19, tivemos uma série de assentamentos religiosos na região para tentar “converter” a população local. Junte a isso uma pegada de filme de terror mais Dario Argento e, bingo, tá aí a ideia.
Pra 2026, no entanto, a Alien Books já anunciou nada menos do que DUAS séries de gibis estreladas pelo personagem, produzidas em colaboração com a equipe da Zorro Productions, Inc. e vendidas diretamente para lojas de quadrinhos no próximo ano, por meio da parceria de subdistribuição da Alien com a IDW Publishing.
A primeira minissérie, intitulada apenas Zorro, será lançada em abril de 2026, com roteiro de Howard Chaykin (que a gente sempre adorou mas depois que a Gail Simone fez um exposed de misoginia e transfobia, passamos a achar um lixo de ser humano) e arte de Jorge Fornés. A série acompanhará Don Diego de la Vega enquanto o Vingador combate o crime enfrentando Napoleão Bonaparte. Já Zorro’s Legacy, com lançamento previsto para junho de 2026, reúne Dan Abnett e Aaron Lopresti para explorar as aventuras de um descendente moderno de Zorro em Los Angeles e sua busca para honrar suas raízes heroicas recém-descobertas.
Ah, é, sobre o Cavaleiro Solitário…
Sim, sim e muito sim: importante lembrar que, para os brasileiros, principalmente os mais velhos, Zorro é sinônimo não apenas de um, mas também de DOIS personagens, graças a um equívoco histórico.
Sabe o Cavaleiro Solitário (Lone Ranger), o caubói criado por George W. Trendle e Fran Striker na década de 1930, aquele mascarado que andava ao lado do parceiro indígena Tonto e que cavalgava um cavalo (branco, é bom lembrar) que incitava dizendo AI-Ô SILVER? Então. Ele não chama Diego, mas sim John Reid. Ele não usa espada, mas sim um revólver. Tampouco tem qualquer origem hispânica ou sai marcando a bandidagem com um Z por aí. Mas ele TAMBÉM era chamado de Zorro por aqui, pelo menos durante um tempo.
Basta buscar a tradução para o português do nome da série do Lone Ranger dos anos 1940, aquela clássica com Clayton Moore: As Aventuras do Zorro, o Cavaleiro Solitário. Pois é… Por que esta decisão? Pouco se sabe-se a respeito, na verdade. Talvez uma confusão pela ambientação meio western + cavalo + máscara preta? Ou talvez tenha sido algo PROPOSITAL para tentar surfar na onda de sucesso de seu predecessor?
Sabe-se lá.