Jornalismo de cultura pop com um jeitinho brasileiro.

Em defesa da cultura pop

Por que quadrinhos, séries, filmes, games e música não são “fuga da realidade”, mas territórios centrais de disputa simbólica, formação crítica e transformação social.

Por GABRIELA FRANCO

Quando eu digo que sou uma jornalista especializada em cultura pop, a reação costuma vir muitas vezes em forma de muxoxo ou decepção.

Um sorriso atravessado, um “legal” dito com pouco interesse e logo mudando de assunto como se os anos que dediquei a estudar esse campo fossem perda de tempo, como se o assunto fosse pouco sério ou intelectualmente irrelevante. Afinal, não sou uma jornalista de guerra ou política, que está cobrindo fatos altamente impactantes para o futuro da humanidade. Mas aí habita um erro bem grande, o de ignorar a subjetividade das coisas e quem vem junto de uma resposta elitista BEM FEIA, aliás. Essa resposta é fruto de uma hierarquia cultural antiga que ainda separa o que supostamente educa e portanto é ÚTIL, do que apenas diverte.

Como se ambas fossem opostas e nunca pudessem estar juntas, como se a reflexão e o pensamento crítico não pudessem partir de um outro local, fora os estudos clássicos.

Não sei se já ouviram falar sobre o grande sociólogo Stuart Hall, intelectual jamaicano radicado no Reino Unido, um dos grandes estudiosos em Estudos Culturais e fundador do Centre for Contemporary Cultural Studies, da Universidade de Birmingham, que dedicou sua obra a desmontar essa lógica. Para Hall, a cultura popular é um dos principais territórios de disputa simbólica da sociedade, porque é ali que significados circulam em larga escala, moldando percepções sobre identidade, poder, raça, gênero e pertencimento. Ignorar a cultura pop é ignorar como o senso comum é produzido.

Sua teoria é baseada na FRAGMENTAÇÃO do indivíduo moderno. Ao analisar a modernidade tardia, Hall mostrou como o sujeito contemporâneo é atravessado por múltiplas identidades, instáveis e muitas vezes contraditórias. O indivíduo deixa de ser pensado como um bloco coerente e passa a ser entendido como fragmentado, constituído por discursos, representações e práticas culturais que mudam conforme o contexto histórico, social e midiático.

É nesse ponto que a cultura pop se torna central. Para Hall, a cultura de massa não apenas reflete a sociedade, ela participa ativamente da construção das identidades. Isso muito antes das redes sociais, que só provaram que ele estava corretíssimo. Em um mundo marcado por deslocamentos, crises de pertencimento e disputas de sentido, essas narrativas ajudam a organizar a experiência subjetiva social e individual.

Quando essas produções são desqualificadas, o que se ignora é justamente seu papel na mediação entre o indivíduo fragmentado e o mundo.

A cultura pop oferece linguagem e ferramenta para conflitos que muitas pessoas ainda não conseguem nem nomear!

Portanto, quadrinhos, séries, cinema, música e games funcionam como linguagens de mediação cultural. Elas apresentam temas complexos a públicos que muitas vezes estão fora da universidade, fora do debate acadêmico e fora dos circuitos tradicionais de informação. O pesquisador norte-americano Henry Jenkins, também outra referência nos estudos sobre mídia e narrativas contemporâneas, mostra como essas produções constroem letramentos informais, estimulando o pensamento crítico e engajamento político fora da sala de aula. 

Já nossa queridíssima bell hooks, pensadora feminista e educadora, defendeu ao longo de sua obra a cultura popular como espaço legítimo de aprendizagem, especialmente para pessoas historicamente excluídas das instituições do saber.

O que tenho a dizer à grande “inteligentzia” que classifica essas produções como entretenimento de segunda classe é que essas pessoas estão desconsiderando seu impacto social concreto e imediato. A cultura pop não empobrece o debate público, ela o facilita, torna possível.

Em contextos marcados por desinformação, crenças, teorias da conspiração e bolhas obscurantistas, são essas narrativas que atravessam fronteiras simbólicas, criam identificação e introduzem questões urgentes que precisam ser debatidas.

Defender a cultura pop é defender a educação como prática viva, cotidiana e acessível, e reconhecer que transformação cultural também acontece fora da Academia, nas histórias que as pessoas consomem, que as marcam e que elas levam para a vida. Classificá-la e desprezá-la como entretenimento barato não é rigor intelectual, é só elitismo e manutenção de privilégio de quem sempre teve acesso aos meios “legítimos” de formação. E que, pelo jeito, não aprendeu nada.

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