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Lápis Cor de Melanina: silêncio vira narrativa e inclusão vira prática

Coletânea idealizada por Anderson Shon reúne artistas do Brasil e de Angola em histórias sem diálogo que ampliam o acesso à leitura e propõem um novo olhar sobre identidade e pertencimento.

Por THIAGO CARDIM

Tem coisa que a gente lê. Tem coisa que a gente sente. E tem coisa que faz você reaprender a ler. Ou algo assim. “Lápis Cor de Melanina”, nova coletânea idealizada por Anderson Shon, pode entrar fácil nessa terceira categoria — e não é força de expressão. É, no caso, literalmente a proposta da obra. A HQ nasce com um compromisso que vai muito além da estética: inclusão, representatividade e acessibilidade. Aqui, não estamos falando apenas de diversidade no elenco criativo (que já é gigante), mas de repensar o próprio ato de leitura.

A obra, atualmente em busca de financiamento coletivo lá no Catarse, reúne 16 histórias em quadrinhos curtas, sem diálogo, roteirizadas por Shon e ilustradas por artistas de diferentes regiões do Brasil e também de Luanda, em Angola. Sim: sem diálogo. E não, isso não é “experimentalismo vazio pra parecer cult”. É estratégia.

Ao apostar na narrativa visual, a coletânea abre as portas para pessoas com baixa escolaridade, analfabetos funcionais e até pessoas surdas alfabetizadas em Libras. Porque, inclusive, quando há uso do português, a HQ traz tradução em Língua Brasileira de Sinais nas próprias páginas. Ou seja: o foco aqui é não apenas em contar boas histórias — mas sim pensar em QUEM pode acessá-las.



Um projeto que busca impacto real


“Lápis Cor de Melanina” não quer ser só mais uma coletânea bonita na estante. A ideia é ambiciosa: se tornar uma das maiores e mais diversas reuniões de quadrinhos da Bahia, fortalecendo a cena local e ampliando seu alcance nacional. E tem mais: ainda pretende levar remuneração justa para artistas independentes, além de permitir um potencial uso pedagógico em escolas, sempre com incentivo à leitura de imagens e pensamento crítico e abordagem de metáforas raciais dentro de uma proposta antirracista.

Sem contar um detalhe importante: ao eliminar o texto verbal como base, a obra também facilita sua circulação internacional, reduzindo barreiras linguísticas. Sim, é gibi, mas também é ferramenta.

A coletânea reúne um time impressionante de artistas, incluindo: Ana Cardoso, Bennê Oliveira, Breu, Cau Gomez, Chao Gizan, Dan Borges, Daniel Cesart, Eric Blake, Helô D’ Angelo, Hugo Canuto, Drigo, Jean Lins, Ju Loyola, Lhaiza Morena, Luis Ligmo, Mariow, Magô Pool, Manoel Taylor, Paulo Moreira, Pedro Estouco e Rafael Kachec. É um verdadeiro mosaico de estilos, territórios e olhares, que reforça o caráter plural da obra desde a sua base.

E quem é Anderson Shon?

Talvez você se lembra que gente, aqui no Gibizilla, já entrevistou ele, por conta do projeto Estados Unidos da África. Escritor, poeta, educador, roteirista e quadrinista, além de vencedor do HQMix 2024 & 2025, Shon tem uma trajetória que cruza literatura, ensino e cultura pop com uma naturalidade rara. Uma frase que ele usa pra se definir? “Me armo com livros e me livro de armas”.

Além de Estados Unidos da África, ele trabalhou em obras como Não Termine Comigo Joana, Onde Mora a Poesia, e O Sítio da Tia Naná. Aliás, foi justamente Estados Unidos da África que levou o autor até Angola, em uma troca cultural que agora reverbera diretamente em “Lápis Cor de Melanina”. Porque aqui nada é por acaso.

Quer um exemplo de história que está na coletânea? O próprio autor conta: o que existe por trás de “Somos Todos Sarah”, com arte de Bennê Oliveira. “Sarah Baartman foi uma mulher sul-africana do povo Khoikhoi levada para a Europa no século XIX e exibida em espetáculos por causa de seu corpo, sob o nome Vênus Hotentote. Ela foi explorada e desumanizada em shows e estudos pseudocientíficos que reforçavam o racismo colonial. Depois de sua morte, parte de seu corpo ficou exposto por décadas no Musée de l’Homme, em Paris”. Aqui, a dupla cria uma narrativa em que é pensado um destino diferente para Sarah. “Os traços de Bennê e sua firmeza na arte foram fundamentais para que a história ganhasse os contornos necessários de homenagem para Sarah.

Já a história que abre a coletânea, “Afro Museu”, foi ilustrada por Jean Lins e conta a jornada de um pai e sua filha por um museu que celebra personalidades negras e suas jornadas. Os dois ficam encantados com os rostos naquelas quadros e pegam emprestado um pouco daquelas vivências para si.

Quero apoiar. Como faço?

Vale reforçar que, sim, “Lápis Cor de Melanina” está em campanha de financiamento coletivo no Catarse. A previsão de publicação é dezembro, com uma edição robusta:

– 184 páginas
– formato 17 x 24 cm
– miolo colorido
– capa com verniz localizado

Como o próprio Shon define: “Lápis Cor de Melanina não é apenas uma coletânea de quadrinhos, é um manifesto visual sobre identidade, pertencimento e justiça”. E talvez seja exatamente isso que esteja faltando em boa parte da cultura pop hoje: um pouco menos de barulho, um tantão mais de significado.

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