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Ing Lee em dois atos – e ambos sensacionais

Quadrinista coreano-brasileira lança versão física de uma obra digital cheia de significado e é premiada na Itália por um gibi jornalístico a respeito de IA

Por THIAGO CARDIM

Dona de um traço bastante expressivo e uma narrativa sensível, a quadrinista,  ilustradora e pesquisadora Ing Lee, nascida e laureada bacharel em Artes Visuais pela UFMG lá em Belo Horizonte/MG e atualmente residindo em São Paulo/SP, já tinha recebido um importante reconhecimento lá em 2024, vencedora do Prêmio Jovens Talentos da Indústria Editorial 2024.

Ela acabou tendo seus projetos experimentais e independentes de HQs, que conectam inspirações diversas como colagem + cinema do Leste Asiático + arte japonesa, reconhecidos e foi para a Feira do Livro de Frankfurt com todas as despesas pagas.

Mas, dois anos depois, agora em 2026, ela volta a ganhar o destaque merecido com duas outras importantes notícias. A primeira delas é o lançamento, em formato impresso, da HQ “João pé-de-feijão” – obra autobiográfica outrora publicada online e agora saindo pela VR Editora.

No gibi, ela revisita memórias do cotidiano familiar para contar a história do crescimento do irmão caçula, João, uma criança curiosa, afetuosa e espontânea, que aos 2 anos de idade foi diagnosticado no espectro autista. 

“Navegando entre memórias, reflexões e pequenas aventuras do cotidiano, imaginação, humor e ternura se misturam em uma história costurada por descobertas, cumplicidade e o amor profundo que une dois irmãos”, diz a sinopse do quadrinho. E ela mesma completa, em seu Instagram: “partindo do ponto de vista não só como sua irmã mais velha, mas também uma pessoa com deficiência, um dos meus objetivos com esse quadrinho é abordar com leveza tópicos que comumente são tratados como tragédia ou de forma maternalista, e mostro as coisas como elas são”, explica. “Ouso em dizer que o João é, literalmente, uma das pessoas mais felizes que conheço. e imagino que essa alegria vem da liberdade que ele sente em ser como ele”.

“É muito interessante ver como um trabalho funciona de maneiras diferentes de acordo com a forma que ele é veiculado – seja no papel ou digital”, diz ela, em entrevista exclusiva pro Gibizilla. “Cada suporte tem seus apelos e limitações próprias, bem como atraem públicos distintos. Por mais que o virtual permaneça ali publicado, o papel ainda confere uma certa vida para além do momento em que é lançado. É diferente do virtual, quando geralmente o alcance se limita ao momento da postagem e dificilmente o trabalho circula pra além do período que aquilo foi publicado”.

Ela acredita que a obra, que ganha vida própria no livro com prefácio da queridíssima Lu Cafaggi, traz a possibilidade de uma pessoa encontrar sem querer esse livro daqui a, sei lá, uns 10 anos. “E isso é algo que apenas o livro impresso pode nos proporcionar”. Portanto, sim, uma obra impressa pode ajudar a angariar públicos que ela jamais esperaria ter. “É um tema muito importante e necessário de ser debatido; pensar a acessibilidade e inclusão é uma pauta muito relevante para os tempos de hoje”.

A própria Ing, aliás, entende bastante do assunto vivendo na própria pele, pois possui deficiência auditiva moderada bilateral e faz uso de aparelhos auditivos.

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Os demônios nos dados da IA

Por outro lado,também com uma obra “vida real”, Ing ganhou um prêmio no Voices Awards 2026, na cidade italiana de Florença, que reconhece diferentes trabalhos jornalísticos – incluindo aqueles em plataformas como HQs e animações, por exemplo.

O gibi, no caso, é a webcomic “The Demons in AI’s Data”, escrita pelo jornalista científico australiano Carl Smith – cujo objetivo é ter um formato interativo, com transições que acontecem graças às ações tomadas pelo próprio leitor. “É uma ferramenta educacional gratuita para alunos do ensino fundamental, que alerta sobre o viés embutido na inteligência artificial, combinando uma história fictícia com entrevistas e pesquisas”, explica o autor, em seu perfil no LinkedIn, ao celebrar o prêmio e também a possibilidade de trabalhar com a artista.

Perguntamos pra Ing se ela acha que as IAs são um caminho sem volta – e ela discorda. “Até meados de 2020-2021 vivíamos bem e normalmente sem depender dessas tecnologias. A premissa de uma suposta ‘dependência’ por elas é tão artificial quanto o produto que é oferecido ao público, pois ela reflete somente o interesse mercadológico de fazer seus investimentos bilionários compensarem”, opina.

No entanto, ela diz ter uma visão otimista… mas que pode ser pessimista pra muitos outros. “O mercado da IA generativa é insustentável desde sua criação e é uma questão de tempo para que essa bolha estoure. Contudo, até isso acontecer, segue sendo algo que prejudica profissionais de diversas áreas, principalmente a criativa, e este é um dos motivos pelos quais precisamos seguir lutando pela sua regulamentação, pois o seu crescimento desordenado, exponencial e predatório é prejudicial e perigoso para nossa sociedade”.


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