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Chespirito: valeu a pena?

Tomando emprestado o título do último episódio da série autobiográfica a respeito do criador de Chaves, a gente se pergunta se, mesmo com todas as mudanças, este retrato específico do Pequeno Shakespeare valeu a pena…

Por THIAGO CARDIM

Assim que foi anunciada a produção de “Stardust”, cinebiografia a respeito do camaleônico cantor David Bowie estrelada por Johnny Flynn, também foi anunciada a total discordância da família com a obra. “Se você quer ver uma biografia de um artista sem a sua música ou sem a benção da família, é escolha do público”, disse o filho do homem, Duncan Jones, um tanto contrariado e garantindo que as músicas do pai não tiveram os direitos liberados para o filme – que é OK, nada de UAU.

Mas eis que eu mesmo, em texto pro JUDÃO.com.br, cravei uma frase importante de se discutir quando o assunto são as adaptações de biografias para telonas e telinhas: “Vamos combinar, Bohemian Rhapsody tá aí pra nos provar que nem sempre ter a aprovação da família/representantes legais e o direito de usar as versões originais das músicas garante a qualidade de muita coisa, né?”.

Poisé, Brian May e Roger Taylor estavam ali, por trás do filme sobre o Queen e, no entanto, o resultado foi uma produção enviesada que, em certo momento, não apenas vilaniza Freddie Mercury pelo “fim” da banda mas também “demoniza” a descoberta de sua sexualidade. No fim, este é um “mal” do qual acaba sofrendo de alguma forma Chespirito: Sem Querer Querendo, série do HBO Max que se propõe a ser uma biografia de Roberto Goméz Bolaños, criador de Chaves e Chapolin Colorado.

Mas, diferente do tenebroso resultado final de Bohemian Rhapsody, a série do Chespirito caminha numa linha fina bastante delicada entre ficção e realidade – fazendo retratos equivocados em certos pontos e trazendo uma delicadeza quase conto de fadas em outros.

Calma que o tio aqui explica.

Antes de tudo, vale aqui um aviso importante

A pessoa que está escrevendo este texto, eu mesmo, é fã declarada de Chaves desde, sei lá, SEMPRE. Isso significa, na prática, que eu tenho um total de zero preocupação com quem NÃO gosta das obras de Bolaños. Pra mim, não existe o conceito de guilty pleasure – se eu gosto de alguma coisa, não tenho vergonha alguma de confessar isso. E se todo mundo ao meu redor desgosta – como é o caso da minha família, incluindo esposa e filhos – bom, isso não muda absolutamente nada na minha vida, hahahahaha. Chaves é uma série pela qual eu tenho um carinho imenso, cujas piadas eu decorei e das quais rio TODA FUCKING VEZ e que se tornaram inclusive parte do meu vocabulário e das minhas piadas internas (por vezes, apenas comigo mesmo).

Saber que agora dá pra ver Chaves no SBT+, no Netflix, no Prime Video e no Globoplay, olha, chega a ser um bálsamo. 😉

Eu falo um tanto sobre isso no episódio do nosso podcast Imagina Se Pega no Olho que dedicamos totalmente à obra de Chespirito.

Mas, como fã, eu sei apreciar o que uma obra tem de bom em sua essência e, ao mesmo tempo, enxergar os seus problemas, problematizar abertamente os pontos nos quais ela envelheceu mal, e por aí vai. Isso vale para as séries originais e, ora bolas, também para esta série biográfica de seu criador.

Tá entendido o meu ponto de partida? Que bom, então.

Alô, Marmota 2, aqui é o Lobo Branco, câmbio!

Uma questão importante a se ressaltar aqui, antes de tudo, é que os principais roteiristas de Chespirito, a série, são ninguém menos do que Roberto Gómez Fernández e Paulina Gómez Fernandez – dois de seus filhos. Já deu pra começar a sacar? Sim, sim, eles se basearam essencialmente na biografia escrita pelo próprio pai, “Sem Querer Querendo – Memórias”, lançada aqui no Brasil pela editora Estética Torta. Muito que bem.

De certa forma, como cabe a qualquer obra ficcional, a trama que acompanha o pequeno Roberto desde sua infância até o momento em que se torna um autor cultuado por milhões de pessoas em centenas de países toma suas liberdades poéticas não apenas no que diz respeito ao seu processo criativo, mas também sobre sua vida pessoal.

Para reforçar a sua “luta” desde cedo por se tornar um artista, por exemplo, o roteiro amplifica uma resistência de sua mãe que não aconteceu exatamente desta forma. Criando uma visão absolutamente em tom de fábula, eles “distorcem” o que de fato aconteceu para desenvolver o Chapolin Colorado – um momento que foi muito menos, digamos, cheio de metáforas e bem mais direto ao ponto (além do quê, a tal gravação “às escondidas” de fato nunca existiu).

No entanto, a grande questão sobre a série permanece sendo o retrato da atriz Florinda Meza, a Dona Florinda de Chaves, que foi sua parceira por mais de 25 anos. Tanto ela quanto Carlos Villagrán (o Quico) se recusaram a apoiar a série e tampouco ser mencionados por ela, fazendo com que os seus nomes fossem mudados respectivamente para Margarida/Maggie e Marcos. Mas qualquer um, obviamente, sabia muito bem de quem se tratavam…

A relação um tanto tempestuosa com Carlos Villagrán, embevecido com o sucesso, causando problemas nos bastidores, acusando aos outros atores de inveja por seu sucesso acima da média (!) como o menino bochechudo e saindo das séries em busca de uma carreira solo, não chega a ser de todo irreal – apesar, obviamente, de carregar nas tintas “vilanescas” de Marcos enquanto personagem, trazendo muito mais a versão do pai dos roteiristas do que a de seu “algoz”.

Só que, como estamos falando de um sujeito que ATÉ HOJE diz que foi ele quem criou o Quico e que insiste em cutucar Bolaños e sua família, mudando a sua versão da história recorrentemente e inclusive inventando teorias da conspiração bizarras sobre uma suposta relação dos atores com o narcotráfico e o caixão de Chespirito estar vazio em seu velório (além de ser um negacionista da COVID-19), creio que não dá pra esperar muito, né?

A questão com Florinda, no entanto, soa bastante diferente. Sua personagem também é, pelo menos até os dois últimos episódios da série, alguém com ares claros de uma antagonista. Uma mulher de opiniões fortes, que se posicionava (de vezes um tanto incômodas) e pela qual Chespirito começou a se interessar mesmo antes de se separar de sua esposa, Graciela Fernandéz, mãe de seus seis filhos. Florinda teria começado a influenciar Roberto no direcionamento dos programas, por exemplo, causando desconforto com o restante do elenco.

Um dos grandes pontos aqui é que, aparentemente, este ponto do roteiro soa como uma espécie de “exorcismo” que os dois filhos fazem no retrato da história do pai. Bolaños é visto como alguém que, conforme vai adentrando o mundo artístico, vai “perdendo o interesse” pelos aspectos de uma vida mais mundana, mais prosaica, o que o faz se afastar gradativamente da esposa. Quando ele e Florinda se envolvem, em certo ponto ela faz questão de dar-lhe um ultimato, para que se decida do que quer fazer na vida. De alguma forma, isso faz certo sentido com a realidade, já que a futura esposa resistiu durante cinco anos às investidas do pequeno galanteador antes de decidirem ficar juntos, em 1977.

O que não faz sentido algum, e acaba se tornando justamente um dos principais pontos de crítica da própria Florinda ao roteiro, é posicioná-la, ainda que indiretamente, como a responsável pelo rompimento – sendo que o Chespirito tinha tido diversos casos ao longo dos anos. A própria Florinda já revelou publicamente que ele era um “sedutor nato”. Ou seja… digamos que os filhotes mostraram apenas alguns defeitos do papai famoso… mas não todos. Rolou, portanto, uma passada de pano parcial, talvez como forma de preservar não apenas a memória de Roberto, mas também a de Graciela, falecida em 2013.

Só que isso significa que Florinda é a vilã da história? A real culpada? A “destruidora de casamentos”? Ainda que ela tenha defeitos e seja passível de críticas como eu e você, querido leitor… será que valia pintar este tipo de retrato?

Agora, será que a série foi só isso? Um retrato “chapa-branca”?

Será que, portanto, valeu a pena?

Sabia que somente os idiotas respondem a uma pergunta com outra pergunta?

Não, não foi só isso. E sim, se você tiver tudo isso em mente enquanto estiver assistindo, se pensar que se trata de uma produção ficcional que pretende homenagear a vida e obra de um gênio por vezes subestimado, então dá pra curtir bem aquilo a que Chespirito: Sem Querer Querendose propõe no fim do dia.

Existem, para os fãs mais devotados, uma dezena de easter eggs a cada episódio, indo das falas clássicas espalhadas aqui e ali ao longo dos diálogos às participações especiais de María Antonieta de las Nieves (a Chiquinha) e Édgar Vivar (o Seu Barriga) em pequenos papéis coadjuvantes.

E a interpretação do elenco, em especial quando eles estão incorporando os personagens clássicos, é lindíssima e beira a perfeição. A sequência da fogueira em Acapulco, por exemplo, chega a tirar lágrimas dos olhos, ainda mais pela representatividade do fim de uma era.

Só que o principal papel que uma série como esta cumpre é mostrar o tamanho da importância do Pequeno Shakespeare (origem de seu apelido famoso, o tal Chespirito) para a América Latina, ao fazer humor do nosso jeito e com a nossa cara. E sim, digo sem medo de errar aqui um NOSSA bem grande, porque não é a cara apenas dos países que falam espanhol, mas também do nosso Brasil (o sucesso da série até hoje por aqui fala por si só).

Por muitas vezes subestimado e tratado como alguém que faz uma obra menor, “brega”, datada, parada no tempo, Chespirito fez sucesso ao criar um super-herói atrapalhado, um tanto covarde e muitíssimo diferente dos comics americanos, referência escancarada de muitos autores latinos (lembram do filme do Besouro Azul?).

O Bolaños criador e roteirista acertava na simplicidade. No humor pastelão, de fácil compreensão, torta na cara, tropeções. Gags que, em sua inocência, transbordavam genialidade. Sem precisar apelar, Bolaños conseguia fazer uma crítica social acertadíssima, ao mostrar a realidade de uma vila de gente pobre, humilde, que sofria com a falta de dinheiro para pensar no que comer no dia seguinte. O garoto de rua inocente e sofrido, que no jogar bola com o moleque rico e mimado no meio da rua, se nivelava, se igualava, eram um igual.

A gente tem a tendência a ser um tanto vira-lata e ficar prestando repetidas homenagens a grandes nomes do entretenimento familiar como Walt Disney e Osamu Tesuka, porque tudo que é estrangeiro é “sensacional”. Mas Chespirito soube criar algo que sempre manteve o DNA latino, que conversa com cada menino que a gente vê nas ruas até os dias de hoje. E isso não é pouca coisa, não.

 “Acima da tecnologia estão os valores”, arriscou Edgar Vivar, colega de elenco que interpretava o Senhor Barriga e o Nhonho, em sua primeira passagem promocional pelo Brasil – quando tive a chance de entrevistá-lo pessoalmente. “A situação e os personagens são a coluna vertebral de qualquer produção. Não importam a cenografia pomposa ou a tecnologia que gerou personagens por computador. Se não houverem personagens cativantes, as pessoas não vão se interessar”.

Como lembrança da importância do autor, um tesouro criativo, Chespirito: Sem Querer Querendo acerta no alvo. E que não se misture com esta gentalha.