Magnum e a redenção de Trevor Slattery
Nova série de Marvel é ideal pra quem tá cansado do MCU como o conhecemos… e também pra quem entende que Homem de Ferro 3 é um BAITA filme
Por THIAGO CARDIM
1º Ato: Vamos esclarecer uma parada aqui…
O Gibizilla é uma casa dividida, essencialmente, em duas metades. A metade respectiva a este que vos escreve é formada, basicamente, por um fã completo e declarado de Homem de Ferro 3 – sim, sim, o filme dirigido por Shane Black, aquele que boa parte dos fãs do MCU simplesmente ODEIA e eu AMO. Pra mim, tá ali no meu top 5 pessoal de filmes da Marvel, formado basicamente pelo primeiro Guardiões da Galáxia, Capitão América 2: O Soldado Invernal, Thor: Ragnarok, Homem de Ferro 3 e o primeiro Pantera Negra.
Este é um filme sobre um Tony Stark despedaçado, com o ego usualmente titânico esmagado por uma paranoia que o torna deliciosamente falível.
E com um vilão que se tornou uma maravilhosa subversão de expectativas tanto para os fãs da Marvel nos cinemas quanto para os leitores de gibis: então temos o terrorista Mandarim, interpretado por um ator do calibre de Ben Kingsley, que no fim é não uma figura absolutamente repleta de estereótipos preconceituosos imbecis (seja a versão muçulmana, seja a versão chinesa), mas sim um personagem quase ridículo vivido por um ator fracassado e entregue ao álcool. Em resumo, melhora, basicamente, a cada vez que eu assisto (e eu tendo a rever pelo menos uma vez a cada um ou dois anos).

2º ato: Tá, mas o que isso tem a ver com a série do Magnum?
E aqui eu te respondo: TUDO. E não tô falando apenas e tão somente pela presença de Trevor Slattery aqui também. Mas sim porque esta aqui é igualmente uma história de pessoas QUEBRADAS. Que estão tentando se encontrar. Tentando colar suas próprias peças. E estamos falando aqui não apenas do Simon Williams vivido por Yahya Abdul-Mateen II mas também do próprio Trevor. Que aqui está MUITO longe de ser um sidekick ou alívio cômico. Ele é, no fim, tão protagonista quanto o próprio Simon.
Magnum é meio que uma conclusão da trilogia de redenção de Trevor, começando com Homem de Ferro 3 e depois passando por sua inesperada aparição em Shang-Chi.
A grande graça da história ao longo destes oito episódios, aliás, está no cruzamento dos caminhos de Simon e Trevor, no tanto que eles são distintos pela diferença de idade, mas também o tanto que se parecem por conta da sua relação com a paixão pela interpretação e como isso os coloca como párias de uma indústria que quer passá-los por um moedor de carne.
A principal diferença para Homem de Ferro 3 aqui, no entanto, é que Magnum não é uma série sobre super-heróis. Aliás, muitíssimo pelo contrário. Sim, o Simon tem poderes. Sim, este Trevor é o mesmo que interpretou o Mandarim e foi usado para ameaçar o mundo. E sim, o Magnum está dentro do MCU, estão ali as conexões, os easter-eggs, o pacote completo. Mas é tudo MUITO sutil. Porque, enquanto série, Magnum não precisa do MCU. Nem sequer depende do MCU. Se trata claramente de uma história com começo, meio e fim. Não por acaso, cada episódio tem ali no início uma vinheta de Marvel Spotlight, uma espécie de “selo” mais “autoral” do MCU, tal qual aconteceu com o filme especial Lobisomem na Noite.
::: Leia também: Wonder Man: mas quem é o tal do Magnum mesmo?

Esta não é uma série com participações especiais de outros heróis das telonas ou mesmo daqueles personagens obscuros dos gibis (ou seja: esqueça a vã esperança de que Eric, irmão de Simon, se transforme magicamente no Ceifador). Não é uma série com supervilões. O grande antagonista são eles mesmos, numa luta eterna sobre tentar ser quem você é e nunca conseguir, sobre ser julgado por um mundo que te enxerga como inadequado (Simon) ou ultrapassado (Trevor).
Yahya e Kingsley estão ambos brilhando, ambos na medida certa entre drama e humor, entre o sofrido e o burlesco – e a química entre eles é perfeita.
Simon se sente um fracasso porque não consegue se provar não apenas para si mesmo, como alguém capaz de realizar o seu sonho, mas também para a própria família – e quando surge a chance de viver o Magnum, uma espécie de herói para ele e também para o seu saudoso pai, ele acha que não pode falhar de forma alguma. Trevor também tem uma questão com a própria mãe, claro, mas aqui temos um veterano que já passou por seus dias de glória e, depois de uma situação monstruosa que virou sua carreira do avesso, ele vive querendo provar para o mundo e para si mesmo que ainda pode mais, que tem muito mais a oferecer do que uma piada de uma nota só. Ele quer ser mais do que um meme.
Quando eles se encontram numa sala de cinema vazia do centro da cidade, tendo em sua frente um clássico das telonas, por um acaso que talvez não seja tão acaso assim, começa a se desenhar uma amizade entre dois caras que lidam todos os dias com a solidão.
Como um todo, Magnum é uma série incrível, talvez um dos pontos mais HUMANOS do MCU até o momento, sobre um humano que tem vergonha de seus poderes, que tem medo deles, que não se revela porque isso pode se tornar até sinônimo de preconceito. Mas o que acontece especialmente nos dois últimos episódios é simplesmente emocional e emocionante. É surpreendente, é uma baita virada na trama, mas ao mesmo tempo é de aquecer o coração.
Claro que é fácil e até meio óbvio comparar Magnum com O Estúdio, a premiada série de Seth Rogen, por sua habilidade metalinguística de navegar pelos bastidores de Hollywood. Mas enquanto O Estúdio é claramente sátira, Magnum funciona quase como um manifesto. Um estudo sobre quem faz Hollywood para além das grandes estrelas. Sobre quem está nos bastidores e nas brechas entre os holofotes.
3º ato: No fim…
Se Homem de Ferro 3 tá no meu top 5 pessoal de filmes do MCU, consigo dizer com total tranquilidade que Magnum ganhou lindamente o seu espaço no meu top 5 pessoal de séries do MCU. Aliás, pra ser honesto, acho que ganhou lindamente o seu espaço no Top 3 de séries do MCU, deixando WandaVision pra trás e fazendo par com Gavião Arqueiro e Mulher-Hulk, pouquinho à frente de Miss Marvel.
Se isso é pouco pra você, te garanto que tu tá perdendo aquele que deve ser um dos melhores lançamentos audiovisuais da Marvel em 2026 – e sim, eu sei, tem AQUELE filme com AQUELE cidadão da Latvéria no final do ano.
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Filme: Homem de Ferro 3
Gibi: Wonder Man: The Saga of Simon Williams
Vídeo: Dossiê Magnum
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