Absolute Green Arrow: saem as flechas galhofa, fica o caçador
A versão absoluta do Arqueiro Verde chegou esta semana às lojas americanas trazendo uma história que é o mais puro creme do personagem… só que misturando Luigi Mangione e Mercenário na receita
Por THIAGO CARDIM
Ainda não tive a chance de ler todos os gibis da mais do que bem-$ucedida iniciativa editorial Absolute, da DC Comics, que pretende reinterpretar os medalhões clássicos da editora com uma pegada mais sombria e porradeira – mas pelo menos a trindade principal, formada por Batman, Superman e Mulher-Maravilha, é sim muito legal, cada uma a seu tema diverso.
E embora esteja pirado para ler o Caçador de Marte (popularmente conhecido como Ajax… pelo menos pelos grisalhos como eu), numa versão lisérgica escrita por Deniz Camp e ilustrada por Javier Rodríguez, devo admitir que a parada me pegou DE FATO quando anunciaram a versão do Arqueiro Verde, personagem favorito deste que vos escreve no panteão da Distinta Concorrência. E ainda mais quando descobri o recorte que eles dariam ao herói… aqui, nem tão herói assim. Ou talvez sim…?
Com roteiros do tailandês-americano Pornsak Pichetshote (que, inclusive, foi um dos chefões da divisão de TV da DC e ajudou a criar, vejam vocês, o Arrowverse) e arte da dupla brasileira Rafael Albuquerque (desenhos) e Marcelo Maiolo (cores), estamos falando de uma minissérie em seis edições cujo capítulo inicial chegou às lojas dos EUA nesta semana – apresentando sem papas na língua um conceito que pega o coração esquerdista do personagem e rasga qualquer fantasia de civilidade. Saem, conforme a própria editora anuncia com pompa e circunstância, as flechas cheias de truques divertidos e a fortuna e fica apenas… o caçador.
Aí, obviamente, corri atrás pra ler e… UAU. Simplesmente UAU.

A parada é uma história de horror urbano sobre um serial killer que caça bilionários usando um arco formado por duas espadas, além de flechas venenosas e mortalmente explosivas, e discute abertamente o quanto o acúmulo exagerado de capital ajuda a tirar toda e qualquer capacidade de empatia sobre o que acontece aqui embaixo, na base da pirâmide. É óbvio que estamos falando de uma história que conversa demais com o atual momento dos EUA, mas que também reflete obviamente em qualquer sociedade atravessada pelas selvagens mazelas do capitalismo tardio. Inclusive no nosso Brasil-sil-sil.
(Ou vamos negar toda a euforia global em torno de um certo Luigi Mangione – que, se você não lembra quem é, bastante um Google pra entender exatamente do que estamos falando)
É um Arqueiro Verde com uma máscara de esqueleto que cobre todo o seu rosto, nada engraçadinho, bem silencioso e bastante violento, que usa métodos de tortura para tirar a vida dos endinheirados (o que inclui desmembramentos e flechas enfiadas nos olhos das vítimas, sempre fatais). E um Arqueiro Verde que pode, inclusive, nem ser o Oliver Queen que conhecemos.
Pois num título batizado de “Arqueiro Verde”, digamos que o matador é, até o momento, meio que pano de fundo numa trama estrelada por Dinah Lance – uma Canário Negro igualmente diferente daquela que conhecemos no universo DC usual.

Um pouco de contexto
Apenas para começar, é bom que você saiba que o Oliver Queen do Universo Absolute foi simplesmente assassinado pelo Gavião Negro – aqui, trabalhando como os músculos do governo americano. E muito antes do loirinho colocar de fato em prática o seu plano de tornar-se um vigilante disposto a punir seus colegas oligarcas (ou seja, ele estava prestes a se tornar o Arqueiro Verde que conhecemos).
E sim, nesta realidade, Oliver também era um milionário, mas não alguém originalmente herdeiro de uma linhagem mergulhada em dólares – e sim uma espécie de Mark Zuckerberg de cavanhaque, que criou com o sócio Jubal Slade um rentável aplicativo cujo objetivo era democratizar o acesso ao universo dos investimentos. O nome do projeto? Greenarrows Trading. Sacou? 😉
Meses depois, Slade se torna mais uma das primeiras vítimas do assassino que faz uso justamente das flechas verdes que serviam como símbolo do empreendimento de Oliver. Um matador que caça a sangue-frio uma série de bilionários corruptos – incluindo um sujeito chamado Hector Hammond (você, leitor da DC, deve se lembrar de alguém com este nome), cujos investimentos sombrios na indústria farmacêutica levam seu capanga, Malcolm Merlyn (você, leitor da DC, TAMBÉM deve se lembrar de alguém com este nome), a buscar a proteção de uma mulher bastante capaz para o cargo… em todos os sentidos.
Dinah é uma ex-policial, filha de uma família ligada às forças da lei, que outrora foi uma famosa lutadora de MMA mas acabou obrigada a cuidar do pai doente e bancar seus medicamentos (saúde nos EUA, você bem imagina qualé) – trabalhando como segurança para todo tipo de ricaço que pudesse pagar seu preço e, óbvio, ajudar a apagar um pouco as muitas dores na consciência que ela sofre por ter que usar a violência em casos que desafiam seus próprios limites éticos. E Dinah também é uma mulher que, na adolescência, namorou um jovem Oliver Queen, ainda um moleque com muitos sonhos na cabeça, mas poucos centavos no bolso.
E sobre suas costas, recai justamente a missão de investigar quem diabos é este tal Arqueiro Verde.
A série, inclusive, tem lá seus suspeitos usuais – Roy Harper (o Ricardito/Arsenal na DC original), Mia Dearden (Ricardita) e Tom Hallaway (Aranha) estão entre eles. Mas, de verdade, pra mim isso são apenas uns easter eggs pra quem conhece o Arqueiro do universo DC usual.

Porque, obviamente, o leitor acaba sendo o tempo todo levado a pensar que muito possivelmente o próprio Oliver Queen ainda esteja vivo e em busca de vingança. Não que esta fosse a primeira vez que Mr. Queen volta do mundo dos mortos, veja, e tampouco isso fosse ser algo que incomodasse quem está lendo a série… Mas talvez fosse ainda mais interessante descobrir que quem se esconde por trás da máscara é alguém muito mais… inesperado (há até quem aposte na própria Dinah, sofrendo de algum tipo de stress pós-traumático diretamente conectado com uma síndrome de múltiplas personalidades. Será…?).
A trama é intensa, de tons cinematográficos, com uma narrativa dinâmica e direta ao ponto, como um bom filme de slasher sabe ser. E a arte do nosso Albuquerque está deslumbrante, com sequências de luta brutais e um tipo de agilidade nos movimentos que lembra muito os mangás. Mas é na conexão com as cores saturadas de Maiolo que a coisa toda ganha ainda mais corpo, tornando cada quadro quase como a sufocante cena de um bom filme de terror contemporâneo.
Se Absolute Green Arrow já começou neste ritmo, com você sem saber se tem medo ou se torce por este homicida psicótico, claramente vai ser impossível deixar de acompanhar os próximos episódios desta história. Que bom.
Entendeu como se faz, Dona Marvel (provocação gratuita e totalmente desnecessária… ou não)?

Em tempo: o gibi ainda não tem previsão de lançamento oficial, em português, pela Panini. Mas se você, como a gente, já embarcou no trem do hype e saiu gritando na janelinha, dá pra comprar lá pelo site dos caras da Baú das HQs.
Nota a gente, galera. 😉
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