Love Kills traz romance, violência e horror das HQs pras telonas
Após circular por festivais no Brasil e em Cannes, adaptação da HQ de Danilo Beyruth chega aos cinemas apostando em um thriller romantasy que mistura desejo, trauma e brutalidade urbana.
Por THIAGO CARDIM
O cinema brasileiro sempre teve uma relação curiosa com o fantástico. Durante décadas, gêneros como horror, fantasia e ficção científica foram tratados quase como visitantes ocasionais dentro de uma indústria historicamente mais associada ao realismo social, ao drama urbano ou à comédia popular. Mas algo vem mudando lentamente nos últimos anos — e Love Kills talvez esteja entre alguns bons e interessantes exemplos dessa transformação.
Depois de circular ao longo de 2025 pelo Festival do Rio, pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e até pelo Fantastic Pavilion/Blood Window no Festival de Cannes, o longa finalmente estreia comercialmente no Brasil no próximo dia 21 de maio. E o mais curioso é que, embora o filme esteja sendo vendido como thriller, terror ou romantasy dependendo do contexto, ele parece funcionar justamente porque escapa um pouco dessas classificações rígidas.
Existe horror em Love Kills, claro. Mas existe também romance, desejo, obsessão, violência emocional e uma atmosfera quase febril que aproxima o longa mais de um pesadelo afetivo do que de um filme de sustos convencionais (ou pelo menos é o que a sua origem nos leva a crer – falamos mais sobre isso à frente, rs).

A direção é de Luiza Shelling Tubaldini, cineasta e produtora que vem construindo carreira especialmente ligada ao cinema de gênero brasileiro. Antes de assumir a direção de Love Kills, sua primeira obra como cineasta de fato, Tubaldini trabalhou em diferentes frentes de produção audiovisual, incluindo sua participação como produtora em Motorrad, thriller sobrenatural dirigido por Vicente Amorim. Essa conexão não é mero detalhe de currículo: Motorrad também tinha participação de Danilo Beyruth na concepção visual, criando um elo criativo que ajuda a entender como Love Kills nasce de um diálogo artístico que já existia antes mesmo da adaptação ganhar forma.
Mas a cineasta parece particularmente interessada em histórias onde o fantástico funciona menos como escapismo e mais como amplificador emocional para histórias como a sua própria, uma mulher trans. Luiza produziu vários curtas-metragens, entre eles De Glauber para Jirges (2005), exibido no Festival de Veneza, e 14 Bis (2006), além de longas como Qualquer Gato Vira-Lata (2011), Concurso (2013) e Divórcio (2017).
Em Love Kills, isso aparece na forma como a violência e o afeto convivem quase sem separação clara, criando uma sensação constante de desconforto íntimo.
“Abordar universos diferentes sempre me moveu, de alguma forma foi parte de minha experiência. Realizar filmes em uma gama tão diversa, de terror a faroeste, passando por viagem no tempo, bem como lidar com arquétipos inesperados e, ao mesmo tempo, buscar uma voz nossa, brasileira, é maravilhoso”, diz ela, em entrevista para a Folha de S.Paulo. “Acredito neste cinema plural que visita lugares dramáticos diferentes,” diz ela.
Um pouco da história deste amor que mata
A trama acompanha dois personagens atravessados por uma relação intensa, obsessiva e progressivamente destrutiva, em uma narrativa que mistura romance sombrio, brutalidade urbana e elementos sobrenaturais. No caso, estamos falando de Helena (Thais Lago), uma jovem vampira que vive assombrando um café localizado no centro da cidade de São Paulo, mais especificamente na Cracolândia. Aos poucos, ela vai se aproximando de Marcos (Gabriel Stauffer), um garçom ingênuo e sem nenhuma ligação com o mundo sobrenatural, e aumentando a sua conexão com a humanidade.
Tal qual a HQ, o filme promete evitar transformar seus protagonistas em arquétipos simples de “mocinho” e “vilã”, preferindo trabalhar zonas emocionais muito mais ambíguas.
“Vampiro é uma metáfora para muita coisa. É o excluído, o outcast, quem tá fora do sistema, quem é tido como mal, né”, diz diretora, num papo com o site do Festival do Rio. “E para mim, eu sou uma mulher trans, o vampiro representa isso. Da mesma forma que representa a mulher, a mulher preta, o imigrante, todos os que estão embaixo. É uma metáfora para falar de minorias, e de toda essa natureza excludente da sociedade. (…) De alguma forma, o vampiro não consegue estar o tempo todo oculto, em algum momento ele vai ser lido como vampiro, né? Ou seja, ele tem que enfrentar as consequências da natureza dele no convívio com as pessoas”, conclui.
Os dois protagonistas são interpretados por nomes que vêm construindo trajetórias interessantes dentro do audiovisual brasileiro contemporâneo. A baiana Thais Lago se tornou um rosto conhecido no audiovisual brasileiro principalmente pelo papel da Professora Flávia Santana na novela Cúmplices de um Resgate. A partir da temporada 2, ela também integrou 3%, um dos primeiros grandes projetos brasileiros do Netflix – e recentemente, esteve em Tremembé, do Prime Video.
Já o cantor e ator curitibano Gabriel Stauffer esteve nas novelas A Força do Querer (2017) e O Sétimo Guardião (2018), além de viver a versão adulta de Joel na série De Volta aos 15, do Netflix, inspirado na obra da autora Bruna Vieira e também integrar o elenco do musical Lazarus, escrito por David Bowie, uma montagem inspirada no livro O Homem que Caiu na Terra.

Mas talvez a grande chave para entender Love Kills esteja justamente em sua origem nos quadrinhos, já que o longa adapta a HQ homônima, lançada pela editora Darkside e criada por Danilo Beyruth, um dos autores mais importantes da atual geração dos quadrinhos brasileiros. E aqui vale uma pausa, porque Beyruth talvez seja um daqueles casos em que muita gente conhece a obra sem necessariamente associar imediatamente ao nome do autor.
Sua carreira começou ganhando força com Necronauta, mistura de horror, ficção científica e existencialismo pulp que rapidamente chamou atenção pelo traço carregado, pela atmosfera sufocante e pela narrativa visual extremamente cinematográfica. Depois veio Bando de Dois — frequentemente lembrado como um dos quadrinhos brasileiros mais importantes dos anos 2010, além de favoritaço deste que vos escreve — reinterpretando o cangaço sob uma ótica quase de western brutalista.
Mas foi também dentro da coleção Graphic MSP que Beyruth consolidou ainda mais seu nome para um público maior. Seus volumes estrelados pelo Astronauta ajudaram a redefinir o potencial emocional e visual do selo criado pela MSP, aproximando ficção científica, solidão e drama psicológico de uma maneira raramente vista em quadrinhos brasileiros comerciais.
Existe algo muito característico no trabalho de Beyruth: personagens emocionalmente exaustos tentando sobreviver em ambientes igualmente hostis. E Love Kills parece condensar bastante dessa identidade criativa.
Além disso, a relação de Beyruth com o cinema não começa aqui. Seu thriller brasileiro Samurai Shirô serviu de base para A Princesa da Yakuza, novamente dirigido por Vicente Amorim. Ou seja, Love Kills também reforça um movimento interessante: o crescimento das adaptações de quadrinhos brasileiros para o audiovisual sem necessariamente tentar reproduzir fórmulas hollywoodianas.

E isso ajuda a entender uma diferença importante entre HQ e filme.
Na versão original em quadrinhos, Beyruth trabalha muito com impacto visual imediato: enquadramentos agressivos, ritmo acelerado, violência gráfica e uma fisicalidade constante.
O cinema de Luiza Shelling Tubaldini, por outro lado, parece optar por um caminho mais atmosférico e psicológico, desacelerando certos momentos para ampliar desconforto e tensão emocional.
Não é uma adaptação interessada em copiar quadro por quadro. Parece mais preocupada em traduzir sensação. Talvez por isso Love Kills funcione melhor quando abraça justamente esse lugar híbrido entre horror, romance e tragédia emocional. O longa não parece interessado em oferecer conforto narrativo ou respostas simples. E, honestamente, ainda bem.
Porque existe algo profundamente interessante em obras que aceitam permanecer um pouco indefiníveis.
Especialmente dentro de um cinema nacional que, aos poucos, começa finalmente a permitir que o fantástico seja também espaço legítimo para falar de desejo, violência, obsessão e fragilidade humana.
Assista ao trailer!