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1986: o ano em que Metallica e Slayer redefiniram o peso do mundo

Master of Puppets e Reign in Blood não apenas transformaram o thrash metal: eles ajudaram a redesenhar os limites do metal extremo, influenciando gerações de músicos e permanecendo assustadoramente atuais quatro décadas depois.

Por THIAGO CARDIM

Existem anos importantes para a música e existem anos que parecem pontos de mutação. Pois então, 1986 foi um deles. A gente já falou, por exemplo, de dois discos seminais do punk brasileiro que celebram suas quatro décadas. Agora, é hora de falar de heavy metal.

Vamos lembrar que, naquele momento, o metal já não era muito lá novidade. O gênero em sua vertente saída da Sunset Strip havia conquistado arenas, capas de revista e espaço na MTV, com cabelos de laquê e calças de tigrinho coladas no corpo. O problema era outro: para onde ir depois disso? Parte da resposta veio do thrash metal.

Nascido da colisão entre a velocidade do punk hardcore e a técnica do heavy metal tradicional, o thrash surgiu como reação à domesticação do metal no início dos anos 1980. Era mais rápido, mais agressivo, mais político e menos interessado em agradar o rádio. Bandas como Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax formariam o chamado Big Four do thrash americano, devidamente ladeados por nomes como Testament, Exodus, Overkill, Death Angel e por aí vai.

Mas foi justamente em 1986 que duas dessas bandas produziram obras que ultrapassariam os limites do próprio subgênero. Primeiro veio Master of Puppets. Poucos meses depois, Reign in Blood. Quarenta anos depois, ambos continuam parecendo discos vindos do futuro.

O Metallica antes de virar o Metallica (aquele de Enter Sandman)

É difícil acreditar nisso nos dias de hoje, mas em 1986 o Metallica ainda não era a maior banda de metal do planeta (vamos lá, “maior” em termos de alcance e potência comercial, deixemos de ser clubistas). Naquele momento, o Metallica era, talvez, uma das bandas mais promissoras.

Depois de Kill ‘Em All (1983) e Ride the Lightning (1984), o grupo já havia se tornado uma referência dentro do underground, colocando o pézinho já no mainstream. Havia velocidade, agressividade e técnica, mas também algo relativamente incomum para o metal da época: ambição artística. Os quatro integrantes queriam compor músicas maiores, mais complexas e mais desafiadoras. O resultado foi Master of Puppets (sim, sim, pros mais jovens, aquele mesmo da faixa que se tornou hit com o banger/RPGista Eddie Munson em Stranger Things).

Produzido por Flemming Rasmussen na Dinamarca, o álbum expandiu tudo o que a banda havia feito até então. As composições ficaram mais corpulentas, os arranjos mais sofisticados e os temas ainda mais sombrios. Drogas, manipulação, guerra, violência institucional, insanidade e controle social atravessam o disco inteiro.

A faixa-título, por exemplo, continua sendo uma das descrições mais devastadoras da dependência química já gravadas no metal, com James Hetfield falando de sua luta ali, de peito aberto. Já “Battery”, “Disposable Heroes”, “Welcome Home (Sanitarium)” e “Damage, Inc.” mostravam uma banda operando em um nível de confiança quase absurdo para músicos tão jovens.

“Foi uma época louca”, explicou Lars, num papo com a revista Rolling Stone.  “Éramos realmente jovens, bem imaturos. Quando vejo fotos nossas daquela época, havia uma pureza. Todos nós éramos fãs de música. Tínhamos todo tipo de pôster na parede: Iron Maiden, Michael Schenker, UFO, Ritchie Blackmore. Tudo girava em torno de música. Estávamos ouvindo Deep Purple, AC/DC, Motörhead e o resto. Vivíamos e respirávamos música 24 horas por dia, sem segundas intenções”.

O produtor Rasmussen lembra que ele e Lars eram quase obsessivos sobre o quão focado tudo precisava soar. “Queríamos que fosse perfeito. Sempre falávamos sobre a vibe da música”.  E ele ainda completa, explicando que a intenção era refazerRide the Lightning, só que muito melhor. “Sempre pensei que o Metallica elevava o padrão toda vez que entrava no estúdio. Eles desafiavam suas próprias habilidades técnicas o tempo todo, o que é a única forma de você melhorar”.

Mas existe um personagem central em toda essa história.
Um músico de nome Cliff Burton.

Baixista da banda desde 1982, Burton ajudou a ampliar radicalmente o horizonte musical do Metallica. Enquanto muitos baixistas de metal da época exerciam função essencialmente rítmica, ele carregava influências de música clássica, rock progressivo e jazz. Boa parte da sofisticação harmônica que transformou o Metallica em algo maior do que uma simples banda de thrash passa por sua presença. E infelizmente, Master of Puppets seria também seu último álbum.

Em setembro de 1986, durante uma turnê pela Europa, o ônibus da banda sofreu um acidente na Suécia. Burton foi arremessado para fora do veículo e morreu aos 24 anos. A tragédia – que até hoje é uma espécie de cicatriz sempre aberta para o Metallica – interrompeu uma das trajetórias mais promissoras da história do metal.

E transformou Master of Puppets em algo ainda maior do que um clássico: um documento de um potencial que jamais seria plenamente realizado. “O que o Metallica teria se tornado se Burton ainda estivesse vivo”, permanece sendo a grande pergunta.

Aliás, é bom que se diga, Master of Puppets também se tornou a grande maldição do Metallica. Virou o ponto de partida pra toda e qualquer comparação com discos posteriores – do abertamente comercial Black Album à dobradinha eternamente amaldiçoada Load e Reload. “É um bom disco… mas não é nenhum Master of Puppets”, virou a resposta óbvia pra qualquer coisa que a banda resolva fazer de lá pra cá.

“Nós ficamos muito felizes quando coisas mais antigas como Master of Puppets atraem fãs de uma geração mais nova”, disse Hetfield, no talk show de Jimmy Kimmel, questionado sobre o interesse renovado graças à Stranger Things. “Imaginar que a maioria das pessoas que nos assistem não tinha nem nascido e hoje gosta de uma música de heavy metal de quase nove minutos é insano”, complementou Ulrich.

Quando o Slayer decidiu botar fogo no metal… e no mundo

Se Master of Puppets ampliava os horizontes do thrash, Reign in Blood parecia interessado em incendiá-los. Quando o Slayer entrou em estúdio para gravar seu terceiro álbum, já era considerado o grupo mais extremo do Big Four… mas ninguém estava preparado para o que viria.

Lançado em outubro de 1986, o disco tem pouco menos de meia hora de duração total. Em compensação, parece um ataque cardíaco transformado em música. Produzido por Rick Rubin, nome então em ascensão após seu trabalho com o hip hop e o rock alternativo, Reign in Blood eliminou praticamente toda gordura possível.

Não há espaço para baladas. Não há espaço para respiro. Não há espaço para conforto.

O álbum abre com “Angel of Death”, talvez uma das músicas mais controversas da história do metal. Inspirada nos crimes do médico nazista Josef Mengele, a faixa gerou acusações de apologia que acompanham a banda até hoje. Mas o verdadeiro impacto vinha mesmo da sonoridade em si.

As guitarras de Jeff Hanneman e Kerry King pareciam operar em outra dimensão de agressividade. A bateria de Dave Lombardo redefiniu parâmetros para velocidade e precisão. E os vocais de Tom Araya transformavam cada faixa numa espécie de sermão apocalíptico. “Raining Blood”, especialmente, tornou-se uma das músicas mais influentes da história do metal extremo.

Boa parte do death metal, do black metal e até do grindcore nasce direta ou indiretamente daquele som. Se o Metallica mostrava onde o thrash podia chegar artisticamente, o Slayer mostrava até onde ele podia ser levado em termos de brutalidade.

“Não queríamos fazer um álbum lento como Hell Awaits, então fizemos um rápido. Fizemos um álbum rápido de propósito por causa disso”, disse o vocalista Tom Araya, em entrevista ao site The Quietus. “Muitas bandas estavam fazendo músicas longas e épicas, então nós escrevemos músicas rápidas de propósito. Não percebemos que seria tão rápido quanto foi”. E uma das inspirações foi justamente o punk rock. “Jeff era fã de música punk, e isso foi algo que ele nos apresentou como banda, e Dave também era um grande fã. Ele meio que entrou na onda. Eu não era fã, mas gostei da música, havia algumas coisas muito boas. Ótimas músicas, ótimas letras”.

O produtor Rick Rubin, no entanto, tem uma outra perspectiva sobre o quanto as canções se tornaram enxutas. Num papo com o youtuber Rick Beato, ele contou que, quando ouve música muito rápida, mas também muito longa como o próprio Metallica, a coisa toda fica meio borrada para ele. “Não consigo realmente ouvir”, explicou. “Eu disse a Andy Wallace [engenheiro de som]: ‘seria possível gravar de uma forma que soasse forte, mas que tudo fosse curto porque é rápido e queremos que haja isso?’. E ele disse ‘acho que podemos fazer isso’.”

No fim, segundo Rubin, em Reign in Blood ele era mais subtrativo do que aditivo. “Era uma coisa de voltar à essência. Não era fazer a ‘coisa’ profissional. Eu não estava usando todos os truques normais do ofício. Era reduzi-los apenas ao que era essencial com essa ideia particular em mente”.

E curiosamente, o Slayer vive hoje uma situação quase tão contraditória quanto sua música. A banda anunciou seu encerramento em 2019, mas continuou realizando apresentações esporádicas. Em 2026, segue confirmando shows especiais pelo mundo, incluindo passagem pelo Brasil, onde executará Reign in Blood integralmente para celebrar seus quarenta anos.

Uma despedida que aparentemente se recusa a terminar. Talvez como o próprio disco.

Dois discos, um mesmo terremoto

Existe uma tentação natural de colocar Master of Puppets e Reign in Blood em competição. Coisa que os metaleiros, aliás, ADORAM fazer.

Qual é melhor? Qual envelheceu de maneira mais natural? Qual foi o mais influente?

A verdade é que qualquer uma destas perguntas talvez esteja errada. Porque os dois discos funcionam melhor quando observados de alguma forma em conjunto. O tio explica.

Ambos nasceram do mesmo contexto histórico: os anos Reagan nos Estados Unidos, a Guerra Fria, o medo nuclear, o crescimento do conservadorismo político, a sensação de violência permanente que atravessava boa parte da cultura ocidental.

Mas os dois discos responderam a esse cenário de maneiras diferentes, é bom que se diga. O Metallica produziu um álbum sofisticado, progressivamente ambicioso e intelectualmente inquieto. O Slayer produziu um álbum que parecia uma manifestação física da ansiedade coletiva.

Um investigava o controle. O outro encarnava o caos.

Juntos, ajudaram a definir praticamente tudo o que aconteceria no metal extremo nas décadas seguintes. Bandas tão diferentes quanto Sepultura, Pantera (🤮), Machine Head, Gojira e Mastodon carregam ecos desses dois álbuns. E talvez a maior prova de sua relevância esteja justamente no fato de que continuam soando contemporâneos.

Não porque a música envelheceu pouco. Mas porque os medos que alimentavam aquelas composições continuam entre nós.

Não precisa ir muito longe, né. Veja as palavras-chave destes discos: manipulação, violência, autoritarismo, alienação, colapso social.

Quarenta anos depois, o mundo mudou tão radicalmente assim? Ou ler o parágrafo anterior nos dá uma sensação de que estamos DE NOVO lendo as notícias de um site jornalístico dos dias de hoje, plenos 2026?

Mas basta colocar a agulha (ou dar o play, dependendo da sua faixa etária) em Master of Puppets ou ouvir os primeiros segundos de Angel of Death para perceber que algumas angústias continuam exatamente onde estavam. E talvez seja por isso que esses discos sobrevivam.

Eles não são apenas monumentos do thrash metal. São isso, mas não só. São documentos sonoros de um mundo em crise. E, infelizmente, essa continua sendo uma linguagem que ainda entendemos muito bem. Preferencialmente, com o volume lá em cima.

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