Marjane Satrapi não desenhou apenas o Irã, mas sim a liberdade
A morte da autora de Persépolis encerra uma trajetória artística que transformou os quadrinhos em ferramenta de memória, resistência e denúncia. Mas seu legado permanece mais atual do que nunca.
Por GABRIELA FRANCO
A notícia chegou carregada de uma tristeza difícil de ignorar, mesmo para quem nunca a conheceu pessoalmente.
A quadrinista, escritora e cineasta franco-iraniana Marjane Satrapi morreu no último dia 4 de junho, aos 56 anos. Em um comunicado divulgado à imprensa, familiares afirmaram que ela morreu “de tristeza”, pouco mais de um ano após a morte de seu marido, o produtor, ator e roteirista sueco Mattias Ripa, a quem chamaram de “o amor de sua vida”. A declaração rapidamente repercutiu no mundo inteiro, não apenas pela carga emocional, mas porque parecia dialogar com a própria obra da autora: uma produção artística profundamente atravessada pela memória, pela perda, pelo exílio e pela persistência humana diante da dor.
Mas reduzir Marjane Satrapi à criadora de Persépolis seria um erro comparável a definir George Orwell apenas como o autor de 1984. É verdade que a obra mudou sua vida e a história dos quadrinhos contemporâneos. Mas sua importância vai muito além de um único livro.
Satrapi ajudou a transformar os quadrinhos em uma linguagem capaz de disputar espaço com a literatura, o cinema e o jornalismo na tarefa de explicar o mundo.
E fez isso sem abrir mão da subjetividade.
Uma iraniana entre revoluções
Nascida em 1969, na cidade de Rasht, no norte do Irã, Satrapi cresceu em Teerã numa família progressista e politicamente ativa. Sua infância coincidiu com um dos períodos mais turbulentos da história contemporânea do Oriente Médio: a Revolução Iraniana de 1979, a ascensão do regime dos aiatolás e, pouco depois, a devastadora guerra entre Irã e Iraque.
Ainda adolescente, foi enviada para Viena pelos pais, numa tentativa de protegê-la do endurecimento político e religioso que tomava conta do país. A experiência do exílio marcaria profundamente sua visão de mundo. Mais tarde, retornaria brevemente ao Irã antes de se estabelecer definitivamente na França em 1994, tornando-se oficialmente cidadã francesa em 2006.
Foi em Paris, aliás, que Satrapi encontrou os quadrinhos. Ali entrou em contato com artistas ligados à histórica associação francesa L’Association, responsável por renovar a linguagem das HQs europeias durante os anos 1990. O ambiente estimulava narrativas autobiográficas, experimentação fora do formal e uma visão autoral dos quadrinhos. Era o terreno perfeito para ela.

Quando uma menina iraniana mudou os quadrinhos
Em 2000, Satrapi publicou o primeiro volume de Persépolis. À primeira vista, parecia uma autobiografia, mas, na prática, era muito mais do que isso.
Contada através de um traço simples, quase infantil, e de um rigoroso preto e branco, a obra acompanha a infância e adolescência da própria autora durante a Revolução Islâmica, mostrando o impacto da repressão política sobre a vida cotidiana. O que tornou Persépolis extraordinário foi justamente sua recusa em transformar o Irã em caricatura.
Durante décadas, o Ocidente se acostumou a enxergar o país apenas através de manchetes sobre fundamentalismo religioso, guerra e geopolítica. Satrapi apresentou algo mais complexo. O que existia no meio das rachaduras.
Mostrou pessoas, famílias, contradições, mulheres tentando existir em um sistema construído para silenciá-las, jovens ouvindo Iron Maiden escondidos, medo, humor, humanidade.
Traduzida para dezenas de idiomas, a obra vendeu milhões de exemplares e se tornou leitura obrigatória em escolas e universidades ao redor do mundo. Mais importante: ajudou a consolidar a graphic novel autobiográfica como uma das linguagens centrais dos quadrinhos do século XXI.
Se hoje obras autobiográficas ocupam espaço relevante no mercado internacional, uma parte dessa transformação passa inevitavelmente por Persépolis.

Muito além de Persépolis
O sucesso monumental do livro acabou produzindo um efeito curioso: para muita gente, Satrapi virou sinônimo de uma única obra. Só que sua produção foi bem mais ampla. Em Bordados (Embroideries), mergulhou nas conversas íntimas entre mulheres iranianas, explorando sexualidade, casamento, desejos e frustrações normalmente apagados pelas narrativas oficiais sobre o país. Já Frango com Ameixas (Chicken with Plums) trouxe uma história melancólica sobre arte, amor e desencanto, reafirmando sua capacidade de combinar drama político e emoção pessoal.
Em 2023, Satrapi foi uma das intelectuais e artistas mais visíveis no apoio internacional ao movimento Mulher. Vida. Liberdade (Women, Life, Freedom), reunindo artistas de diversas partes do mundo para documentar os protestos iranianos desencadeados após a morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia moral do país, em setembro de 2022. Satrapi declarou publicamente seu apoio ao movimento e chegou a descrevê-lo como uma revolução cultural e feminista, utilizando sua projeção internacional para denunciar a repressão do regime iraniano e amplificar a voz dos manifestantes. Sua principal contribuição foi coordenar e organizar o livro Woman, Life, Freedom, lançado em 2023/2024, reunindo jornalistas, pesquisadores, ativistas e artistas para explicar ao público internacional as origens, o significado e a dimensão política dos protestos. A obra foi concebida explicitamente em solidariedade aos manifestantes iranianos e à luta pelos direitos das mulheres.
Era, portanto, um retorno às origens. Ou talvez uma demonstração de que ela nunca havia se afastado delas.
Dos quadrinhos para o cinema
Poucos autores conseguiram transitar entre quadrinhos e cinema com a mesma naturalidade. Em 2007, Satrapi codirigiu a adaptação animada de Persépolis ao lado de Vincent Paronnaud. O filme conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e recebeu indicação ao Oscar de Melhor Animação (perdendo para Ratatouille, da Pixar).
Posteriormente, ela também dirigiria adaptações de suas próprias obras, como Frango com Ameixas, além de projetos como The Voices e Radioactive.
Mesmo quando trabalhava longe dos quadrinhos, permanecia interessada pelos mesmos temas: identidade, poder, violência, memória e resistência.
Uma voz que se recusava a ser domesticada
Nos últimos anos, Satrapi tornou-se uma das intelectuais mais visíveis da diáspora iraniana. Criticava abertamente o regime teocrático instalado em Teerã, defendia os direitos das mulheres e denunciava a repressão contra opositores políticos.
Mas também recusava simplificações. Não aceitava transformar o Irã em um monólito. Nem permitir que governos ocidentais utilizassem a situação do povo iraniano como justificativa para agendas geopolíticas próprias. Sua posição era frequentemente desconfortável.
E justamente por isso importante.

Em 2025, recusou a Legião de Honra francesa, uma das maiores condecorações do país, alegando divergências com a postura do governo francês em relação ao Irã. Era uma atitude coerente com toda sua trajetória: Satrapi jamais pareceu interessada em ser uma figura decorativa da cultura e preferia continuar sendo uma pedra no sapato.
Por que Marjane Satrapi continua necessária?
Existe uma tentação recorrente, especialmente no Ocidente, de tratar Persépolis como uma obra sobre um passado distante. Mas basta abrir um jornal para perceber o contrário. O Irã continua ocupando o centro de disputas geopolíticas globais.
Mulheres continuam sendo perseguidas por desafiar normas impostas pelo Estado. Conflitos armados seguem moldando a vida de milhões de pessoas na região. E discursos autoritários continuam tentando controlar corpos, identidades e formas de expressão.
Nesse contexto, a obra de Marjane Satrapi permanece desconfortavelmente contemporânea. Porque ela nunca escreveu apenas sobre o Irã. Escreveu sobre o que acontece quando governos tentam controlar a vida privada. Sobre o que acontece quando a política invade a infância. Sobre o que acontece quando a liberdade deixa de ser garantida e passa a ser disputada.
Sua morte encerra uma trajetória artística extraordinária. Mas sua verdadeira herança nunca esteve apenas nos livros que publicou ou nos filmes que dirigiu.
Ela está na capacidade de fazer leitores do mundo inteiro compreenderem que nenhuma pessoa cabe dentro de um estereótipo.
Nem uma mulher. Nem um povo. Nem um país inteiro.
E talvez seja exatamente por isso que Marjane Satrapi continue tão necessária, mesmo depois de sua partida.
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