#DCSoWhite: quando a discussão não é apenas sobre representatividade
Nova campanha liderada pela Black Comic Alliance acusa a DC Comics de negligenciar personagens e criadores pretos. Mas a polêmica levanta uma pergunta maior: quem realmente ganha espaço nas HQs de super-heróis em 2026?
Por THIAGO CARDIM
Existe uma diferença enorme entre “aparecer” e “pertencer”.
Nas últimas décadas, as grandes editoras de super-heróis aprenderam a incluir personagens mais diversos em seus universos – incluindo representantes negros. Aprenderam a colocá-los em pôsteres, adaptações para cinema, séries animadas, videogames e campanhas publicitárias. Aprenderam, inclusive, a usar a linguagem da diversidade quando ela se tornou comercialmente interessante.
O problema é que inclusão não se mede apenas em capas promocionais, mas sim também em espaço editorial e em investimento. Mede-se ainda em quais personagens recebem dezenas de oportunidades para insistir e insistir de novo até encontrar seu público… e quais são descartados depois de uma única tentativa.
É exatamente essa ferida que a recente campanha #DCBlackout decidiu expor.
A campanha, organizada pela Black Comic Alliance, pedia que leitores, criadores de conteúdo e até lojistas suspendessem seu apoio às publicações da DC Comics até que a editora anunciasse novas séries regulares estreladas por personagens pretos em sua continuidade principal. Lançada no final de maio, ela representava na verdade a segunda fase de uma mobilização iniciada anteriormente sob a hashtag #DCSoWhite. Segundo seus organizadores, o objetivo é pressionar a DC a investir de forma mais consistente em personagens pretos, tanto diante das “câmeras” quanto atrás delas, com equipes criativas formadas por autores negros.
O argumento central da iniciativa é simples e direto: embora a DC tenha criado ou incorporado diversos heróis negros ao longo das décadas, raramente lhes concede séries regulares duradouras.
Segundo dados divulgados pela própria campanha, em quase cinquenta anos apenas dez títulos regulares protagonizados por heróis pretos foram publicados na continuidade principal da editora, e apenas um deles ultrapassou a marca de cinquenta edições. Além disso, nunca existiu uma série regular protagonizada por uma mulher negra dentro dessa mesma linha editorial.
Por isso, o grupo vinha pedindo que a editora anunciasse entre uma e três novas revistas mensais protagonizadas por personagens negros, com apoio editorial e de marketing comparável ao recebido por propriedades consideradas prioritárias pela empresa. A reivindicação não se limita à publicação dos títulos. Os organizadores argumentam que muitas iniciativas anteriores fracassaram porque receberam divulgação insuficiente, cancelamentos precoces ou apoio inconsistente da própria editora.
Onde diabos foi parar o Cyborg, integrante dos Titãs e da Liga da Justiça? Por qual razão não deram mais destaque para o Senhor Incrível, depois de sua participação tão destacada no mais recente filme do Superman? E o que dizer de John Stewart, que em breve será protagonista da série dos Lanternas, na HBO?
Em entrevista ao site Bleeding Cool, o principal porta-voz da iniciativa, James Portis III, conhecido online como JPenumbra, relembra ainda um ativo fundamental da DC, hoje mais uma vez escanteado: Raio Negro. “Ele deveria ser uma prioridade para a DC. É o primeiro super-herói negro da editora a ter uma série regular, e seu 50º aniversário é em janeiro de 2027”, relembra. “Não há desculpa para ele não ter uma série regular em 30 anos e para, nesses quase 50 anos entre séries regulares e minisséries, ele ter apenas 41 edições individuais. Não importa que ele e o Super Choque tenham poderes semelhantes. Jefferson Pierce merece sua própria série regular”.
Quem é a Black Comic Alliance?
A Black Comic Alliance surgiu recentemente como um coletivo formado por criadores de conteúdo, jornalistas, quadrinistas e profissionais do setor interessados em ampliar a presença de vozes negras dentro da indústria de quadrinhos. Segundo a própria organização, o objetivo não é atacar leitores ou profissionais específicos, mas pressionar estruturas editoriais que, na visão do grupo, continuam tratando personagens e criadores negros como iniciativas temporárias, e não como parte permanente do mercado.
É uma diferença importante: a campanha não pede apenas representatividade simbólica, mas sim questiona quais personagens recebem investimento real.
Antes do #DCBlackout, no entanto, veio o #DCSoWhite, uma primeira fase da mobilização que se concentrou em chamar atenção para um dado que rapidamente se espalhou pelas redes: o número de dias desde a última revista regular protagonizada por um personagem negro na continuidade principal da DC.

A campanha ganhou repercussão significativa entre leitores, criadores e veículos especializados. Sites como Popverse, AIPT e The Beat dedicaram espaço ao tema, ampliando um debate que inicialmente circulava apenas em nichos específicos da comunidade de quadrinhos. Por outro lado, MAS É CLARO, a iniciativa também encontrou resistência (uma das mais proeminentes, VEJAM VOCÊS, vinda de ninguém menos do que Rob Liefeld, ora ora ora).
Parte dos fãs argumenta que a análise desconsidera minisséries, títulos fora da continuidade principal e publicações estreladas por personagens negros em universos alternativos. E tudo bem, porque vamos lá, nem era este o argumento principal da conversa. Outros apontam que o problema talvez esteja ligado ao modelo de distribuição do mercado direto americano, que há décadas enfrenta dificuldades para sustentar séries fora do núcleo dos personagens mais populares (no caso da DC, essencialmente Batman, Superman e um pouco da Mulher-Maravilha).
Independentemente da posição adotada, a discussão conseguiu algo raro em um mercado cada vez mais fragmentado: colocar a política editorial da DC no centro do debate.
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Nos últimos dias, no entanto, o grupo publicou um comunicado oficial dando fim ao boicote – mas mantendo o reforço ao #DCSoWhite. “Antes de mais nada, queremos agradecer a todos que apoiaram a campanha #DCSoWhite. Desde o início deste ano, milhares de leitores de quadrinhos, lojistas, criadores e fãs se uniram a nós na defesa de um maior investimento em personagens negros e oportunidades para criadores negros na indústria dos quadrinhos”, afirmou o grupo.
O anúncio do fim do boicote de nome #DCBlackout foi, segundo os integrantes, uma decisão tomada após muita reflexão e conversas com membros da comunidade de quadrinhos. “Embora o boicote tenha sido lançado para chamar a atenção para uma questão que acreditamos ser importante, ficou claro que a discussão em torno do boicote muitas vezes ofuscava o objetivo maior da campanha”, explicam eles.
Mas mantém-se a discussão: o fato é que já se passaram mais de 1200 dias desde que um personagem negro estrelou uma série solo na linha principal da DC Comics. “Continuamos acreditando que essa é uma questão que merece ser discutida e abordada. No entanto, também reconhecemos que muitos fãs e criadores que admiramos sentiram que o boicote, mesmo que involuntariamente, minimizou livros, personagens e criadores cujo trabalho oferece representatividade significativa para mulheres, leitores LGBTQIA+, pessoas negras e outras comunidades marginalizadas. Essa nunca foi nossa intenção e pedimos desculpas por esse impacto. Ouvimos essas preocupações e elas desempenharam um papel fundamental em nossa decisão de reavaliar o boicote”.
Daqui para frente, segundo eles, a ideia é que a conversa se concentre em soluções, apoio e oportunidades significativas para personagens e criadores negros. “A campanha #DCSoWhite não está terminando. O abaixo-assinado permanece ativo. Continuaremos a destacar criadores negros, promover quadrinhos independentes negros, documentar tendências do setor e defender um maior investimento em personagens negros nos quadrinhos convencionais”.
O grupo explica ainda que uma das maneiras mais eficazes de os leitores apoiarem os criadores e influenciarem as decisões das editoras é por meio da pré-venda antes da data limite para pedidos de um livro. “As pré-vendas são um dos indicadores mais claros do interesse dos leitores e ajudam editoras e varejistas a determinar investimentos futuros em personagens, títulos e equipes criativas. Encorajamos os fãs a apoiarem os livros e criadores que desejam ver prosperar, principalmente aqueles de comunidades sub-representadas”.
O elefante na sala chamado Milestone
E é aqui que a conversa fica mais complexa, porque a DC não é exatamente uma editora sem personagens negros. Muito pelo contrário, aliás.
Recentemente, Portis escreveu para o Comics Beat sobre sua frustração como leitor negro de quadrinhos e fã da DC Comics, afirmando: “O último título principal em publicação com um personagem negro como protagonista foi I Am Batman, do escritor vencedor do Oscar John Ridley, centrada em Timothy ‘Jace’ Fox. Essa série foi concluída após 18 edições, em 14 de fevereiro de 2023. Desde então, a DC tem se baseado quase que exclusivamente em minisséries e séries limitadas para seus personagens negros, deixando os fãs se perguntando o motivo”.
Ele também questionou a ideia de que “histórias com protagonistas negros não vendem”, mencionando grandes sucessos fora da DC Comics no Kickstarter, bem como a falta de promoção comparável para projetos que apresentam protagonistas negros. Ele também destaca que “a DC Comics nunca publicou uma série contínua centrada em uma super-heroína negra em sua continuidade principal. E apesar da enxurrada de fãs pedindo à DC que desse essa honra à Vixen e que pioneiras da indústria como Stephanie Williams e Tee Franklin escrevessem o projeto, aparentemente seus apelos caíram em ouvidos surdos”.
Mas lembremos AINDA que, desde os anos 1990, da DC publica — direta ou indiretamente — personagens oriundos da histórica Milestone Media, iniciativa fundada por criadores como Dwayne McDuffie, Denys Cowan, Michael Davis e Derek T. Dingle. Dali nasceram personagens como Static (o nosso popular Super Choque), Icon, Rocket e Hardware.
Durante décadas, a Milestone foi considerada um dos projetos mais importantes já realizados para ampliar a diversidade racial nos quadrinhos americanos. Mas há uma diferença fundamental entre possuir esses personagens e transformá-los em prioridade editorial.
Os organizadores da campanha argumentam justamente que a existência da Milestone torna a situação ainda mais contraditória. Afinal, se a DC possui um dos catálogos mais relevantes de personagens negros da indústria, por que tão poucos deles conseguem manter presença contínua nas bancas?
É uma pergunta desconfortável. E talvez seja exatamente por isso que ela continua sendo feita.

O futuro da discussão
Até o momento, a DC Comics não respondeu oficialmente à campanha.
Também é impossível prever se o #DCBlackout teve impacto comercial relevante. Historicamente, boicotes no mercado de quadrinhos raramente produzem efeitos imediatos nas vendas. Por outro lado, eles costumam influenciar a conversa pública e, eventualmente, a percepção editorial de longo prazo.
O que torna esta campanha particularmente interessante é que ela não fala apenas sobre diversidade, mas principalmente sobre PERMANÊNCIA. Sobre quem recebe espaço para falhar, crescer, encontrar público e construir legado. Porque criar personagens diversos é relativamente simples.
Difícil é decidir quais deles merecem continuar existindo quando os holofotes se apagam. E talvez seja justamente essa a pergunta que a Black Comic Alliance está tentando fazer a uma das maiores editoras do planeta.
Não quantos heróis pretos existem. Mas quais deles a DC realmente considera importantes.
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