The Bear não é e nem nunca foi sobre gastronomia
Uma crítica sobre a temporada final da série, seus personagens, os bastidores e o motivo real pelo qual ela sempre foi sobre saúde mental, luto e família.
Por GABRIELA FRANCO
Quando The Bear estreou em 2022 na Hulu, nos Estados Unidos, sendo disponibilizada internacionalmente pela Disney+, foi frisson imediato: hoje, a série soma vinte e uma vitórias em quarenta e nove indicações ao Emmy, incluindo o prêmio de melhor comédia (está longe de ser uma, mas isso é outra conversa) em duas temporadas diferentes, e lançou ao estrelato nomes como Jeremy Allen White, Ayo Edebiri e Ebon Moss-Bachrach, que até então eram conhecidos apenas por quem prestava atenção aos créditos.
A quinta e última temporada estreou em meados de junho, com oito episódios, todos já disponíveis para maratonar de uma vez. Cinco anos foi o tempo que a série levou para levantar, no final das contas, uma discussão que surgiu desde a sua estreia: não é sobre comida.
Quem assiste achando que a série fala sobre o mundo da gastronomia e a corrida por uma estrela Michelin, na verdade está fazendo uma análise bem rasa. Desde a primeira briga e o primeiro prato mal servido, o verdadeiro assunto sempre foi saúde mental, mais especificamente LUTO e relações familiares. Agora, nesta última temporada, o foco cai mais para aquele momento raro e desconfortável em que alguém percebe o que está lhe fazendo mal, e o que essa dor não resolvida está fazendo com todos os aqueles com quem ele se relaciona.
O showrunner Christopher Storer criou a série a partir de uma ideia simples e cruel: Carmen “Carmy” Berzatto (Jeremy Allen White), chef premiado no circuito mais implacável da alta gastronomia, volta para Chicago depois do suicídio do irmão, Mikey (Jon Bernthal), para assumir a lanchonete de sanduíches da família. O que começa como drama de herança vira, ao longo de cinco temporadas, um estudo de caso sobre autoaceitação como sintoma.
Ao lado de Carmy está Sydney Adamu (Ayo Edebiri), a sous-chef que entra tímida e sai, temporada após temporada, como a pessoa mais sólida e estável daquele universo inteiro. Richie (Ebon Moss-Bachrach), o melhor amigo do finado Mikey, passa de obstáculo inútil e folclórico a uma das descobertas mais bonitas da série, revelando um talento genuíno para hospitalidade que ninguém, incluindo ele mesmo, sabia que existia. Natalie (Abby Elliott) irmã de Carmy, segura a razão em meio ao caos familiar em que ambos foram criados e protagoniza uma jornada de cura onde a mulher finalmente compreende sua própria mãe, depois que ela mesma se torna mãe.
Isso sem deixar de mencionar a própria Donna, a matriarca em questão (interpretada de forma MAGNÍFICA por Jamie Lee Curtis), cuja dor nunca teve tempo nem espaço para ser cuidada, e que encontra, ainda que tarde, a redenção que não conseguiu como mãe, no papel de avó carinhosa.
Já Tina (Liza Colón-Zayas) finalmente descobre sua vocação através de uma estrada de autoconhecimento e reconhecimento que traz lágrimas aos olhos. E Marcus (Lionel Boyce) vai do confeiteiro inseguro e disfuncional ao desabrochar de um talento puro e, quem diria, acaba sendo o primeiro chef premiado do restaurante.

Correção de rota?
As temporadas três e quatro dividiram opiniões: depois do choque da estreia e da consagração ainda maior da segunda temporada, a trama se perdeu em digressões, participações especiais generosas demais e uma vontade de expandir o universo que, em vez de aprofundá-lo, acabou se dispersando. Sinceramente foi como assistir alguém brilhante se afogar em mesquinharias e detalhes para não ter que encarar o problema principal.
A temporada final corrige essa rota com uma disciplina quase cirúrgica. Sete dos oito episódios se passam num único turno de trabalho, o primeiro depois que Carmy anuncia que está deixando não só o restaurante, mas as cozinhas para sempre. É um recorte de tempo real, sufocante, que devolve à série a tensão que a tornou inesquecível.
E é tecnicamente uma temporada diferente de tudo que veio antes: o Tio Jimmy (Oliver Platt), investidor que bancou a reforma do restaurante, e Computer (Brian Koppelman), o contador meticuloso que cuida dos números da operação, são responsáveis por um dos símbolos mais eficientes da série: um cronômetro literal, pendurado na parede da cozinha, contando o tempo e o dinheiro que restam antes que o restaurante feche as portas por falta de viabilidade financeira.
O tal cronômetro não é um mero detalhe decorativo. É a materialização exata da pressão que Carmy e equipe carregam dentro de si a série inteira, agora pendurada publicamente, “ticando” a cada segundo como um lembrete de que só talento e obsessão não pagam as contas.
Esse relógio é o que transforma a ameaça de perder o restaurante em algo concreto e visível, e não apenas em subtexto emocional, e é justamente esse prazo se esgotando, mencionado logo no início da temporada final, que empurra Carmy, Sydney e Richie para dentro do único turno de trabalho que ocupa quase toda a temporada, correndo contra um tempo que, dessa vez, não é mais metáfora.
Pela primeira vez a trilha sonora abandona as canções pop conhecidas que sempre embalaram os momentos mais emotivos, trocando-as por uma trilha eletrônica incidental assinada por Christian Lundberg e produzida por Hans Zimmer, que dá mais a sensação de um cronômetro marcando o tempo do que com uma playlist de nostalgia. Na fotografia, o diretor Andrew Wehde mantém a claustrofobia e as cores frias de sempre, mas encontra folgas visuais exatamente nos raros segundos em que os personagens conseguem respirar, como se a câmera também estivesse aprendendo, junto com Carmy, a soltar o ar e finalmente relaxar.
O gesto de Carmy ao entregar o restaurante para Sydney, Richie e Natalie na quarta temporada costuma ser lido como covardia por quem só entende sucesso como continuidade linear. Mas é justamente o contrário disso. Esse é o momento em que ele entende, finalmente, que ser um grande chef nunca foi paixão, foi meta que ele mesmo se impôs para ser aceito, amado, admirado por uma família e por mentores que só sabiam demonstrar afeto através de cobrança. Essa confusão entre vocação e validação foi o que o adoeceu e, por tabela, todo mundo ao redor, transformando a cozinha inteira num organismo ansioso, replicando sua própria paranóia e toxicidade.
Reconhecer isso e recalibrar a rota, disposto a não saber quem ele é sem aquele objetivo que definiu a vida inteira, exige um tipo de coragem que nossa cultura capitalista selvagem, focada em resultados, raramente celebra. É fácil admirar e romantizar a trajetória de quem luta obstinadamente por um sonho até o fim, o discurso motivacional sabe fazer isso de olhos fechados. Difícil mesmo é admirar quem tem coragem de desistir de um sonho que nunca foi verdadeiramente seu, e recomeçar do zero, aberto a aprender sobre si mesmo, sobre novas paixões, sobre caminhos que ainda nem se mostraram claros. Apenas fechar a porta atrás de si e seguir.
É sobre isso que essa última temporada de The Bear fala: sobre autoconhecimento, autocuidado e cuidado com aqueles que nos cercam. Não à toa a última cena é uma festa de aniversário infantil, simbolismo de um futuro incerto, que está desabrochando mas que pode e que todos desejam que seja,brilhante
Há também uma curiosidade que resume bem o cuidado obsessivo do showrunner com cada camada do roteiro: o próprio título carrega múltiplos significados dentro da trama. The Bear, apelido de Carmy derivado do sobrenome Berzatto, nome do time de futebol americano de Chicago, apelido carinhoso que a família usa entre si e, literalmente, um urso que aparece numa sequência de sonho no episódio piloto. Pequeno demais para ser notado na primeira vez, grande demais para ser apenas uma coincidência.

Vale registrar também a trajetória oscilante da série nos prêmios, porque diz muito sobre como a indústria trata obras que insistem em abordar temas desconfortáveis. A primeira temporada dominou todos os prêmios na categoria comédia, e a segunda quebrou recorde de vitórias numa única noite.
Depois veio o tropeço: à medida que crescia a discussão sobre se aquilo era mesmo comédia ou drama disfarçado de comédia para competir em uma categoria mais fraca, a série amargou uma queda abrupta de prestígio, chegando a sair de mãos vazias numa das cerimônias mais recentes que avaliaram a terceira e quarta temporadas. Como se o próprio mercado de premiações estivesse, reencenando a lição central da trama da série: quando a validação externa vira meta, o esgotamento chega antes do reconhecimento.
No fim, The Bear usa toda a intensidade, beleza, loucura, performance e pressão da alta gastronomia, para contar uma história muito mais simples e muito mais universal. A de alguém que precisa desmontar peça por peça a própria identidade para descobrir, do outro lado desse colapso necessário, quem se é DE VERDADE. E ele só descobre quando finalmente para de tentar provar alguma coisa para alguém.
Talvez seja exatamente por isso que a série termina como uma das narrativas mais honestas já feitas sobre saúde mental na televisão recente, disfarçada, do início ao fim, de uma simples história sobre um restaurante em Chicago.