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Novelão do Dragão entra na sua fase Avenida Brasil

A 3ª temporada de A Casa do Dragão se encerra no melhor clima “deu tudo errado nessa porra”, também conhecido como “lâmina no cu e gritaria”


Por THIAGO CARDIM


Lembro que, nas últimas semanas, me deparei com alguns amiguinhos empolgadíssimos com os recentes rumos da terceira temporada de A Casa do Dragão se perguntando, entre eles, quem cada um apoiaria – se o Time Preto (de Rhaenyra Targaryen) ou o Time Verde (Aegon II). Quando a pergunta veio pra mim, a resposta foi facílima: “mas e eu lá vou apoiar rei ou rainha, tá maluco? Monarquia, pra mim, é sinônimo de guilhotina, hahahaha. Eu quero mais é que todo mundo se foda e a porra toda pegue fogo”.

Pois ao final desta nova leva de episódios, confesso que não imaginava estar tão certo… e igualmente, tão satisfeito. Eu poderia até arriscar dizer que me senti um pouco como Ulf, o Branco, com sua Asaprata cuspindo fogo para todos os lados por igual, caso o cavaleiro de dragões pinguço não fosse igualmente um completo imbecil.

E quando eu digo “todos os lados”, olha, significa que que o nosso novelão com dragões agora definitivamente se dividiu em muito mais lados do que apenas “time preto” e “time verde”.

Novelão?

Sim, ué.

Pô, sejamos honestos – as cenas de batalha, com os dragões sobrevoando os exércitos e mandando dracarys na galera são sempre muito legais. Mas a grande graça d’A Casa do Dragão, de fato, são as intrigas. As fofocas. As discussões, o dedo na cara, a berração, as traições. A pegação de alcova. E até essa coisa estranhíssima da irmã que casa com o irmão, do filho que tem um crush pra lá de bizarro na mãe… e por aí vai. Tudo obviamente muito bem disfarçado de manipulações políticas em busca de poder. Isso tudo, claro, já era realidade desde a época de Game of Thrones. Mas aqui, a parada ganhou contornos ainda mais refinados pra quem gosta do babado.

Só que, se a segunda temporada d’A Casa do Dragão fez muita gente reclamar da série, comparada a uma bucólica e inócua novelinha das seis, na qual simplesmente não acontece nada episódio depois de episódio, definitivamente não dá pra dizer o mesmo DESTA temporada aqui, que acabou neste último domingo (9/8). Foi tanta treta se desenrolando, foi tanto “eita” atrás de “vixe”, que claramente A Casa do Dragão não apenas virou novelão das oito como aqueles bons mesmo, tipo Avenida Brasil.

INFERNOOOOOOOOOOOOO!

Aliás, vamos lá, a comparação com o fenômeno da nossa dramaturgia televisiva está longe de ser exagerada. Porque, nesta temporada 3, tal qual aconteceu em Avenida Brasil, esta linha fina hollywoodiana clássica de mocinhos e bandidos simplesmente se perdeu e todos, praticamente sem exceção, se tornaram um bando de arrombados. Uns um pouco mais, outros um tantinho menos… Mas, na média, belíssimos e genuínos arrombados.

E pra todos os gostos, né. Porque num canto estava lá Rhaenyra e sua trupe, finalmente tomando o trono de ferro em King’s Landing. Só que a turma do lado verde, definitivamente, se pulverizou em muitas frentes. Aemond foi parar naquele castelo mal-assombrado de Harrenhal, perdeu o dragão Vhagar e, enquanto era caçado pela suposta morte do irmão, se rendeu aos encantos da bruxona Alys Rivers, mudando completamente seus objetivos (pelo menos por enquanto). Aí, temos Aegon, ferido, queimado, tentando sobreviver às escondidas… até que reencontra seu dragão Sunfyre em versão zumbi e resolve respirar fundo em busca de vingança.

Pois que, diretamente das profundezas do mundo dos seres arrombados, surge o absolutamente odiável Lord Ormund Hightower, que se entrincheira em Tumbleton e desenha um plano envolvendo Daeron Targaryen, um QUARTO pretendente ao trono, uma versão júnior também da família dos platinados.

Sacou a complicação? Todo mundo querendo o seu pedaço do trono (e Daemon ali, na dele, esperando pintar uma guerra, qualquer que seja, pra chamar de sua).

Só que, no fim, deu tudo errado. Pra todo mundo. Sem exceção. No último episódio da temporada, todo e qualquer personagem que tenha arriscado fazer sequer um plano de ação a curto ou médio prazo, viu suas ideias irem simplesmente por água abaixo. A vida de todo mundo, em todas as frentes, ficou complicadíssima. Quem não morreu, tá até agora recalculando a rota.

Falando de Rhaenyra

Poisé, não dá pra gente deixar de falar da nossa protagonista, Rhaenyra, interpretada com cada vez mais força por Emma D’Arcy. Confusa com relação ao destino que aparentemente nem ela tinha certeza de que queria aceitar, a herdeira do Rei Viserys inicia a temporada carregando esperança na coroa que começa a ornar sua cabeça. O que Daemon pintava com cores de vingança, ela passou a ver com um olhar de esperança, de alguém que, querida e atenciosa, traria a liberdade para o nosso povo (e fica a referência aí pros fãs do canal Baú Explica).

Mas a realidade foi esfregada tal qual uma torta do Passa ou Repassa no meio da cara da nossa rainha e, com ela, vieram todas as contradições e boicotes, as dificuldades com o ouro, o questionamento do Septo e das entidades religiosas, o receio de uma população ainda assustada e com fome… Aos poucos, esta Rhaenyra que era Nina, querendo provar a que veio de forma sutil, meio que se arrependeu de sua própria escolha. Fragilizada, sem saber como proceder, chorou, gritou, se desesperou e até se entregou a um amor do qual vinha fugindo, nos braços de Mysaria.

Lutando contra a própria feminilidade, no entanto, contra um ser mulher que era motivo de dúvida para aqueles que acreditavam na tal profecia, Rhaenyra vai se deixando dominar pela raiva, pelo ódio, e assume uma postura quase Daemon, se agarrando a algo que não queria com unhas e dentes. Rhaenyra vira Carminha e, ao fazer um discurso para a população neste episódio derradeiro, pinta a si mesma com uma coloração absolutamente aterradora… e fascista, obviamente.

Repara na semiótica…

Uma virada na personagem bastante interessante, dá pra dizer, do tipo que vai colocar fogo (neste caso, creio, quase que literalmente) na quarta e última temporada da série, prevista para 2028.

Agora… isso significa que esta terceira temporada foi perfeita? Mas gente, é claro que não. Ela foi, definitivamente, repleta de altos e baixos – alguém me explica aí, por exemplo, a lógica de toda a trama envolvendo Helaena Targaryen, toda a pompa e circunstância dos sonhos premonitórios da diva deixando os espectadores cheios de teorias e caraminholas na cabeça… pra ela simplesmente se jogar da janela e sair da trama, levando com ela tudo que deveria significar alguma coisa de real e significativo.

Todavia, vamos lá, é óbvio que este é o momento em que surge a figura do sommelier de adaptação, o leitor fiel da obra do Martin e que já está pensando “ah, agora vão ter que cortar um monte de coisa pra caber na próxima temporada, que é a última, pra poder encerrar da mesma forma que os livros”… Mas então, deixa o tio te contar: até o Martin se afastou da série, justamente porque disse que ela estava caminhando pra um lado diferente do que ele imaginava. Pois se ele mesmo já desencanou, talvez fosse o momento de VOCÊ desencanar também.

Não da série, em si (quer dizer, se quiser também, super pode, escolha sua). Mas desencanar desta pentelhação de ultra fidelidade. Livro é livro, série é série, gibi é gibi, filme é filme. A gente fala aqui SEMPRE. Por mim, quanto mais dedo no cu e gritaria tiver nesta próxima temporada, já vai ser ótimo.

E, por favor, que não me matem *muito* os coitados dos dragões. Ainda que sejam uns bichinhos de CGI, tudo que eu quero é que eles possam viver em paz fazendo suas coisinhas de dragões sem este bando de aspirantes a políticos tentando decidir o que fazer com eles.

Importante reforçar que…

Não dava pra deixar de celebrar uma temporada na qual o ARROMBADO (assim mesmo, em caixa alta) do Cole se fodeu com uma flechada no meio da fuça, né? Junte isso à cena na qual o Ormund é atravessado no traseiro pela lâmina de um alucinado líder nortenho de nome Roderick “Roddy” Dustin, em seu melhor modo “protagonista de clipe do Amon Amarth”, e pronto, a série já teria valido demais a pena em 2026 pra mim.

Pequenas vitórias, minha gente. Pequenas vitórias.



Todos os episódios da terceira temporada d’A Casa do Dragão estão disponíveis no HBO Max.

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