Livro discute a Representatividade Negra nos Quadrinhos
Obra escrita pelo pesquisador, jornalista e fã de quadrinhos Toni Santos está na reta final de sua campanha de financiamento coletivo, tenta enriquecer a discussão sobre como a representatividade amplia horizontes.
Por THIAGO CARDIM
Tudo começou com um capítulo bem peculiar e, ao mesmo tempo, bastante comum na vida de todo jovem negro que vai se descobrindo um fã de cultura pop. Na época, plenos anos 1980, o designer, pesquisador, jornalista e fã de quadrinhos Toni Santos tinha lá seus seis anos de idade e já ficava vidrado vendo as aventuras dos super-heróis, originalmente na TV. “Quando era pequeno, eu não tinha total consciência de que estes personagens vinham dos quadrinhos, porque eles permeavam muita coisa”, explica ele, num papo exclusivo com o Gibizilla.
“Não me lembro exatamente qual o primeiro episódio [do desenho] dos Superamigos que assisti, porque eles já passavam muito antes de eu nascer, provavelmente. Só que eu me recordo distintamente do anúncio DESSA temporada, que é a Galactic Guardians, porque ela tinha uma animação visivelmente melhor e porque ela me apresentou o Cyborg”.
Ele conta que ver AQUELE personagem foi de fato muito impactante para a sua versão mirim. “Até então, todos os heróis destes desenhos eram homens, brancos, adultos. Eu tinha a impressão de que eles tinham idade de pai, não eram jovens como são hoje, tinham acima dos 35-40. E aí de repente tinha este jovem negro lá. O argumento também me chamou atenção – tanto é que, assistindo de novo recentemente, percebi que tinha as falas cravadas na mente. Deve ter me impactado ainda mais do que eu pensei”.

O pequeno Toni então acabou migrando da telinha pros gibis e, em meio justamente à “Crise nas Infinitas Terras“, se deparou novamente com o herói de aspecto robótico, só que noutro contexto. “Tem uma cena na qual o Tornado Vermelho, que eu não fazia ideia de quem era, tinha dado problema e tava indo pro satélite da Liga da Justiça, e tinha um grupo de cientistas reunidos ali pra consertar ele. E entre estes cientistas, estava o Cyborg. E os caras tavam conversando com ele como autoridade a respeito. Aquilo me chamou atenção de novo – porque não só aquele personagem tava ali, naquele gibi, como era visto e respeitado como autoridade, pela inteligência dele”.
Este depoimento se tornou, em 2015, um artigo do Toni pra antiga revista “Mundo dos Super-Heróis“, que era editada por Manoel de Souza – hoje, dono da Editora Heroica. E ficou ali, na cabeça do Manoel. Toni revela que, quando o editor publicou “O Império dos Gibis”, já tinha dito “olha, eu também quero fazer um livro sobre alguns personagens negros nos quadrinhos e seria muito bacana se você fosse o cara a fazer isso”. Aí eu falei, “pô, topo, super aceito”.
Mas entre a ideia e o surgimento do livro Representatividade Negra nos Quadrinhos, com suas 480 páginas e na reta final de seu projeto de financiamento coletivo, teve um longo hiato. Porque, em 2024, Toni se juntou a Manoel para inscrever o projeto no PNAB (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura), um edital do governo paulista, com o intuito de transformar o artigo em livro. Uma vez contemplado pelo governo paulista, o projeto recebeu uma grana permitiu dedicar tempo a esta pesquisa. E, olha, bota tempo nisso. E pesquisa também.
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Mergulhando no tema e definindo panorama
“A gente decidiu só iniciar quando houvesse de fato a concretitude do edital. Quando a verba foi liberada, começamos”, revela o escritor. “Isso dá, portanto, 1 ano e meio de produção. Foi uma pesquisa bem profunda, passei os primeiros meses correndo atrás, pesquisando, e uma conversa muito importante foi com o [o pesquisador] Nobu Chinen, que já escreveu um material extremamente importante sobre a representatividade negra nos quadrinhos no Brasil“. E completa: “Só depois que a gente tava seguro do panorama a abordar, é que comecei a escrever”.

A abordagem, no caso, passa pelos quadrinhos de aventura, as tiras de jornal, quadrinhos independentes… mas evidentemente, até tamanho do mercado, acaba falando também muito sobre os gibis de super-heróis. “O quadrinho de super-herói é discutido profundamente, mas a gente também toca e presta atenção em outros gêneros na Europa, na América Latina, na América Central…”.
A obra segue uma linha cronológica – e o começo do livro, na verdade, nem fala de quadrinhos, mas sim da representação do negro, do afrodescendente, no Ocidente, vindo lá desde a Grécia.
“O objetivo é mostrar que a visão preconceituosa não é natural, não é algo que sempre existiu. Essa questão da visão da supremacia branca, ela é relativamente recente na história humana. Sim, ela tem raízes mais antigas, mas se consolida nos últimos séculos. Não é padrão. Mas a consolidação vem junto justamente com a questão da produção cultural, da mídia de massa”.
E é aí que entram os quadrinhos…
Em “Representatividade Negra nos Quadrinhos”, Toni mostra que os quadrinhos, surgindo junto com o colonialismo, obviamente têm uma representação que não era acidental, mas sim proposital da parte dos autores. “Abordamos bastante o Tintim [cujo direcionamento racista a gente aprofunda neste texto aqui], abordamos algumas tiras que tinham autores negros e que eram forçados a esconder a sua origem para poder publicar… A gente aborda o começo dos quadrinhos de aventura e o impacto que eles tiveram, porque eles trouxeram todos aqueles estereótipos do nativo, canibal, etc, que precisava ser civilizado…”.
A partir de então, ele passa pela Era de Ouro dos super-heróis, pelos anos 1960 (que mostram a Era Marvel coincidindo com a luta pelos direitos civis nos EUA) e, claro, também pelo Brasil. “Falamos sobre Angelo Agostini e o Diabo Coxo [jornal humorístico ilustrado de 1864], contando com a participação do [advogado abolicionista] Luiz Gama, as publicações do Gibi, do Pasquim e segue até a modernidade”.
Em relação ao quadrinho nacional, a visão do livro também é panorâmica, falando sobre os primórdios, mostrando primeiro a influência colonial e depois a influência estadunidense. “O que a gente acaba apresentando no livro, de forma geral, é como a imagética racista dos EUA acabou influenciando boa parte dos quadrinhos do mundo nas primeiras décadas. Falando dos anos 50, anos 60, temos uma melhora com a adaptação de material literário, que trazia caracterizações mais complexas e realistas”.
Mais pra frente, Toni explica, temos as grandes figuras, celebridades negras chegando aos quadrinhos, Pelé, Trapalhões com o Mussum… “É claro, muitas delas ainda são representações problemáticas, ainda mais sob o ponto de vista contemporânea”. Só que os anos foram passando e, apesar dos pesares, criadores e personagens negros foram se tornando mais frequentes. “Eu ouso dizer que o Brasil deve ser um dos, se não O mercado com mais representatividade negra no mundo, à exceção dos mercados emergentes da África”.
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E como estamos hoje?
Toni deixa claro que, sim, a gente teve uma melhora mas, sim, ainda tem MUITO chão a ser percorrido. “A gente precisa divulgar estes quadrinhos, levar eles a mais pessoas, e claro, estimular uma produção o mais diversa possível”.

Mas, para o autor, é preciso admitir que temos um cenário de representatividade que era inimaginável no começo do século XX. “Grandes autores reconhecidos por público e crítica, como Jefferson Costa, Rafael Calça, Alex Mir, que tão aí produzindo e trazendo material com uma sinceridade e honestidade sobre a representação negra que simplesmente não existia quando essa representação era caricata e vinda de autores brancos que não davam a isso a profundidade necessária”.
Era inevitável que eu pedisse umas sugestões de leitura pro nosso mestre e, sim, o Toni fugiu da obviedade de indicar um Pantera Negra da vida. Pra começar, ele sugeriu os gibis de “Aya de Yopougon“, com roteiro de Marguerite Abouet e ilustrações por Clément Oubrerie, publicados pela L&PM aqui no Brasil. “É uma ótima representação de uma leva de autores franceses ou franco-belgas, mas que são descendentes da diáspora africana. É um trabalho bem legal, que começa muito leve, normalizando a juventude negra, e depois vai entrando em assuntos mais sérios, nos volumes seguintes”.
De material nacional, duas recomendações, começando por “Roseira, medalha, engenho e outras histórias“, do Jefferson Costa, um material muito intimista, que tem a mesma pegada estética das Graphic MSPs do Jeremias, mas traz muito da vivência familiar dele. “É muito tocante, é muito bacana”. E ele lembra também que saiu tem pouco tempo a adaptação pra quadrinhos de “Quarto de Despejo“, clássico da Carolina Maria de Jesus, com roteiro da Triscila Oliveira e arte da Preta Ilustra (Vanessa Ferreira). “Uma iniciativa que vale a pena, bem respeitosa, um encontro de autoras negras muito importante, que representa bem esta explosão de representatividade”.
Agora, vamos lá, um autor negro, lançando um livro chamado “Representatividade Negra nos Quadrinhos”, será que a tropa do “ah, não, agora é tudo lacração” já chegou pra encher o saco? “Sim, desde o momento que a gente anunciou nos perfis da editora”, ri ele. “Eu acho muito curioso, porque é um pessoal que se incomoda com a mera citação de qualquer assunto relacionado a raça, gênero… Eles precisam se examinar, entender por que esse assunto não pode ser sequer citado sem que eles se irritem, sem que abale a visão de mundo deles a ponto deles terem que protestar”.
Ele diz que, sim, gostaria de convidar justamente estas pessoas a lerem o livro, porque se é pra criticar, que seja com conhecimento de causa. “Mas a gente sabe que isso não vai acontecer, o que é uma pena. É uma pesquisa da qual me orgulho bastante e poderia acrescentar muito à visão de mundo destas pessoas, ampliar um pouco e permitir um diálogo mais saudável, ao invés de tampar os olhos e ouvidos e fingir que qualquer comentário a respeito é invenção e não a constatação de injustiças cometidas há séculos”.
Em tempo: corre lá pra apoiar “Representatividade Negra nos Quadrinhos” no Catarse.