A Natureza das Coisas: reflexão sobre destino e amadurecimento
1998, interior de São Paulo. Um acidente de carro, três jovens desaparecidos e um grande mistério. Este é o tema da 1a HQ de Israel Castilho, o oitavo lançamento do selo independente Dom Mordaz.
Por THIAGO CARDIM
O ano era 1988. Na cidade de Itararé, no interior de São Paulo, nascia Israel Castilho – que, com o passar dos anos, se formou em História e acabou pós-graduado em Arte e Design Gráfico. Atualmente atuando como professor em sua cidade natal, ele vinha se dedicando a trabalhos com colagem e música. Mas faltava algo. Faltava mergulhar de cabeça em uma de suas maiores paixões: os gibis. Isso acaba de ser corrigido com o recém-lançado A Natureza das Coisas, financiado coletivamente via Catarse e com lançamento pela Don Mordaz, editora de quadrinhos e literatura brasileira independente.
Na comparação com outros trabalhos artísticos, o quão mais complexo foi trabalhar com uma HQ de fato? Em entrevista exclusiva ao Gibizilla, Israel deixa claro que foi, de longe, o mais difícil. “Nada se compara. Com música, pensando novamente no campo da produção artística, dá para trabalhar de maneira mais intuitiva, divertida, e sempre tem mais pessoas envolvidas na mesma sala, trocando ideia e coisas do tipo. E quando você faz trabalhos de ilustração ou design, em um tempo relativamente curto o trabalho fica pronto e você pode partir pra outro”. Para ele, o processo de fazer HQs é bem longo e solitário, fazendo você se ausentar um pouco da realidade.
“Ainda mais quando é você quem escreve e desenha, como no meu caso. Afinal, você é o roteirista, o desenhista, o diretor de fotografia, o figurinista, o cenógrafo; é quem escolhe os enquadramentos, a paleta de cores, tudo. E se você falhar em uma dessas áreas, o produto final fica desequilibrado”.

A história da HQ “A Natureza das Coisas” se passa, vejam vocês, em 1988. E justamente em Itararé. Era verão, e um passeio entre amigos é interrompido por um acontecimento trágico que ecoa por décadas. Vinte e cinco anos depois, o protagonista Humberto retorna à cidade natal em busca de respostas sobre o desaparecimento dos amigos, cujos corpos jamais foram encontrados.
“A história tem sim alguns elementos de experiências pessoais. Itararé, por exemplo, está numa região ecoturística, e idas aos rios e cachoeiras em torno da cidade faz parte do nosso dia a dia. Eu mesmo fiz muito isso ao longo dos anos. Na história, é justamente esse costume que faz com que Daniel convença a irmã e os amigos a saírem com ele, culminando na encruzilhada fatal do destino de Humberto, o personagem principal”, explica o autor.
A Alice acorrentada
Israel revela ainda que também usou uma história que ouviu de um amigo há muito tempo sobre um acidente em que um carro, mesmo destruído, continuava tocando música no rádio. No acidente real, a música que continuava tocando era “We Die Young”, do Alice in Chains, o que deixava tudo mais mórbido. “Fiquei bem impressionado quando o ouvi contando isso. Essa cena ficou guardada no meu subconsciente e acabou se tornando o ponto chave do quadrinho, em torno do qual tudo se desenvolve. Apenas adicionei elementos mais dramáticos, como a queda da ponte e o sumiço dos jovens, e troquei a música ‘We Die Young’ por ‘Would?’, também do Alice in Chains, que contém uma letra perfeita para o subtexto da minha história”.
Fora esses elementos, ele incluiu alguns detalhes vindos de algumas lembranças pessoais. “Mas, no geral, busquei captar experiências mais coletivas, como aquela juventude dos anos 90, retratada na primeira parte da história, e a luta pela superação de traumas e erros do passado, que é uma experiência pela qual todos passam conforme vão crescendo”.
Mas fica uma curiosidade: escrever tendo como ambientação um lugar onde você passou a maior parte da sua vida é um desafio criativo mais fácil pela familiaridade ou mais difícil, justamente porque você precisa fazer com que a pessoa que lê e nunca visitou aquele lugar entre na trama igualmente? “Acredito que um pouco dos dois”, explica ele. “No geral tentei colocar coisas que as pessoas facilmente entenderiam como sendo características das cidades interioranas, e não somente de Itararé. Afinal, toda cidade pequena segue a mesma lógica: os julgamentos sobre quem você é ou o que faz, o ‘te conheço da época do colégio’, ‘você é filho de quem?’, essas coisas”. Mas os naturais da cidade, claro, reconhecerão alguns pequenos easter eggs. “Algumas piscadelas para quem é da cidade. Acho que os mais evidentes são a sacola do supermercado mais famoso daqui e a escola em que Humberto estudava à época do acidente”.
No entanto, falando sobre os locais da cidade representados na HQ, Israel diz que fez questão de não os desenhar de maneira realista e fiel. “Por exemplo, embora a ponte do acidente exista e pareça bem real na minha cabeça, a representei mais como um mix de impressões pessoais. Fiz isso com todos os cenários. Se você vier visitar a minha cidade, pode até encontrar lugares similares aos da HQ, mas nunca serão perfeitamente correspondentes com a realidade”. Isso acontece porque ele diz ter um problema muito grande em usar referências fotográficas. “Na verdade, nem uso. Então, por mais que a cidade retratada na história estivesse literalmente na minha frente, preferi representá-la de uma forma mais ideal, como me lembrava dela ou a imaginava”.
Por que demorou para chegar a este primeiro gibi?

O agora quadrinista conta que as HQs são sua paixão desde os 10 anos e, desde que os descobriu, nunca parou de desenhar nem de ler. “Mas sempre acabei me dedicando mais à ilustração e ao estudo do desenho. Acho que isso me segurou por todo esse tempo, pois sempre me via mais como um eterno estudante, achando que nunca estava realmente pronto pra começar. E nesse espaço de tempo, a faculdade e o trabalho formal me levaram pra outra direção”.
Além do mais, pensando em produção artística, ele se dedicou bastante nos últimos 12 anos à música e às bandas que formei. “Ali era onde eu encontrava uma vazão criativa muito legal compondo, criando conceitos, capas, cartazes, etc. E isso, junto com a docência, me satisfazia e esgotava ao mesmo tempo, me desencorajando da tarefa de produzir algo tão monumental como uma história em quadrinhos”.
Hoje, no entanto, ele enxerga esse período como um tempo de acúmulo necessário de bagagem, pois nunca deixou de desenhar e estudar, de coletar ideias, analisar quadrinhos, ler e absorver autores que gostava. “E muitos cadernos foram preenchidos ao longo dos anos com impressões, rascunhos de histórias e coisas do tipo”.
Além disso, ele se pega costumeiramente pensando em tudo que é necessário pra uma história em quadrinhos acontecer, como ficar o dia todo martelando ideias, sendo estimulado por gatilhos do mundo interior e exterior. “Tipo, muitas vezes você se vê na fila de uma padaria, no trabalho, no bar, seja lá onde for, criando e refazendo diálogos, falando sozinho, construindo cenas mentais, elaborando personagens e não vendo a hora de chegar em casa pra registrar tudo. É mais ou menos assim que o processo acontece. E não estou reclamando. Longe disso. No fundo é muito divertido e gratificante. Ver a sua obra impressa rodando por aí e ouvir os feedbacks é a melhor coisa do mundo!”.
Israel conta ainda que estudou alguns meses com ninguém menos do que Lourenço Mutarelli e, em uma das aulas, enquanto falava sobre esse processo árduo, ele soltou uma frase que abriu a mente do autor estreante: “O que você dá ao tempo, o tempo te dá de volta”.
“É tudo sobre com o que você vai gastar o seu tempo. No que você vai se dedicar. E eu descobri que o que eu quero mesmo é passar o meu tempo com a bunda grudada na cadeira, com dores nas costas, escrevendo e desenhando histórias em quadrinhos”, diz. “Agora que comecei, pretendo não parar mais”.
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