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Relembrando Sam Kieth e sua obra máxima: The Maxx

Cocriador de Sandman e dono de um traço indomável, artista marcou os anos 1990 com uma obra que misturava trauma, imaginação e identidade — e que ainda hoje desafia qualquer tentativa de rótulo

Por THIAGO CARDIM

A morte do quadrinista estadunidense Sam Kieth, no último dia 15 de março, aos 63 anos, encerra uma trajetória tão singular quanto difícil de encaixar em qualquer narrativa linear da história dos quadrinhos. Após uma longa batalha contra a Demência com Corpos de Lewy (condição frequentemente descrita como uma sobreposição entre Alzheimer e Parkinson), Kieth se despede deixando não apenas personagens e páginas memoráveis, mas uma espécie de linguagem própria, um modo de desenhar e contar histórias que sempre pareceu operar à margem do que se convencionou chamar de “mercado”.

Para muitos, a gente sabe, o primeiro contato com seu trabalho veio ainda no fim dos anos 1980, quando, ao lado de Neil Gaiman, ajudou a dar forma visual aos primeiros capítulos de Sandman. A estética onírica, desconcertante, por vezes quase instável, já estava ali: figuras alongadas, rostos que pareciam escorrer para além dos limites anatômicos convencionais, uma relação pouco ortodoxa com sombra e textura. Mas, se esse trabalho o colocou no radar, foi em sua produção autoral que Kieth encontrou espaço para expandir sem concessões aquilo que talvez fosse seu maior diferencial: a recusa em desenhar “corretamente” quando o correto não dava conta do que ele queria expressar.

Uma obra que atendia pelo nome de The Maxx.

Mas antes, um pouco sobre a trajetória do autor

Nascido em 1961, Kieth iniciou sua carreira profissional na Marvel Comics, onde rapidamente chamou atenção por sua abordagem incomum, especialmente em títulos ligados ao universo dos X-Men, como suas passagens por Wolverine e os trabalhos esporádicos com o Hulk (personagem, aliás, para o qual parecia de fato ter nascido, rs). Em um período em que o mercado ainda valorizava fortemente a clareza anatômica e a ação coreografada, seu traço parecia ir na direção oposta, evocando influências que passavam por Frank Frazetta e Bernie Wrightson, mas filtradas por uma sensibilidade quase expressionista, próxima do grafite e da distorção emocional. Sua passagem pela DC Comics consolidou essa reputação de artista “difícil” — não no sentido técnico, mas no sentido de alguém que nunca parecia disposto a se ajustar completamente às expectativas editoriais.

Ele escreveu e desenhou a minissérie em cinco edições Batman: Secrets, com o Coringa, e o encontro Batman/Lobo: Deadly Serious, em 2007, o que o levou a ser escolhido para desenhar Lobo: Highway to Hell, de 2009, escrito por Scott Ian, da banda Anthrax. Sua trajetória com o Morcegão passaria ainda por Arkham Asylum: Madness (2010) e Batman: Through the Looking Glass (2012), esta última registrando o primeiro encontro do herói com o Chapeleiro Maluco. Fora do circuito tradicional Marvel/DC, ele também criou títulos como Zero Girl e Four Women para a Wildstorm, e para a Oni Press, Ojo e My Inner Bimbo; desenhou uma das primeiras minisséries de Aliens para a Dark Horse Comics; e também desenhou Judge Dredd para a 2000AD e 30 Days of Night para a IDW.

A constante “tensão” entre sua arte absolutamente autoral e as exigências do mercado talvez explique, em parte, a trajetória errática — e, por vezes, silenciosa — de sua carreira. Kieth também se aventurou fora dos quadrinhos, dirigindo episódios de animação e explorando outras linguagens visuais, mas sempre retornando ao desenho como espaço de experimentação. Ainda assim, sua aposentadoria precoce, especialmente após o crossover Batman/The Maxx, levantou discussões que permanecem incômodas até hoje: a fragilidade das condições de trabalho na indústria, a ausência de suporte consistente para criadores e o impacto direto que isso tem na longevidade de artistas que, como ele, ajudaram a redefinir o próprio meio. Não é um caso isolado — basta lembrar de nomes como Peter David — mas é um caso que, pela potência de sua obra, se torna ainda mais evidente.

A repercussão de sua morte entre colegas reforça esse legado. O quadrinista Erik Larsen destacou publicamente a singularidade de Kieth como artista, alguém cujo estilo era imediatamente reconhecível em qualquer página, enquanto Jim Lee relembrou a importância de sua presença no início da Image Comics, em um momento em que a indústria buscava justamente romper com padrões estabelecidos (ou quase isso). Não se trata apenas de respeito póstumo, mas do reconhecimento de que Kieth ocupava um lugar raro: o de um criador que não apenas participava de tendências, mas frequentemente as desestabilizava.


Agora sim, vamos falar de The Maxx

É, no entanto, impossível falar de seu legado sem chegar à obra que melhor sintetiza tudo isso: The Maxx. Lançada em 1993 pela Image Comics, em pleno auge de uma década marcada por excessos visuais, violência estilizada e uma busca quase obsessiva por personagens “radicais”, a HQ de Kieth seguia por um caminho completamente diferente. À primeira vista, o protagonista — uma figura musculosa, de máscara roxa e comportamento errático — poderia ser confundido com mais um anti-herói daquele período. Mas essa impressão não dura muito.

Importante lembrar que, de alguma forma, The Maxx conversa com seu PRIMEIRO trabalho publicado, ainda aos 17 anos, na revista Comico – era uma história sobre um coelho assassino chamado Max, a Lebre… mais tarde revelado como a verdadeira identidade de The Maxx.

O grandalhão é uma entidade que transita entre dois mundos: o “real” e o chamado Outback, uma dimensão simbólica onde traumas, desejos e identidades fragmentadas ganham forma física. Sua relação com Julie Winters, assistente social que tenta ajudá-lo, é o eixo emocional da narrativa, mas também o ponto de partida para uma desconstrução contínua do que é realidade, do que é projeção e de como lidamos com experiências que não conseguimos elaborar racionalmente.

No nosso mundo, Maxx é um morador de rua que vive numa caixa; no Outback, ele é o poderoso protetor da Rainha Leopardo, que existe no mundo real como Julie, uma assistente social autônoma que frequentemente tira Maxx da cadeia. Ao longo da série, personagens como o estuprador serial Mr. Gone ampliam essa sensação de instabilidade, funcionando menos como vilões tradicionais e mais como manifestações de conflitos internos.

Exatamente: apesar do visual intenso, em especial do personagem principal, não se tratava necessariamente de um gibi de ação… embora, em alguns momentos, tivesse lá as suas lutas. Mas todas elas representavam uma batalha dentro de si mesmo.

O impacto de The Maxx nos anos 1990 não foi necessariamente medido em números, sendo impossível de comparar com um fenômeno como Spawn, por exemplo — embora a série de Kieth tenha alcançado reconhecimento considerável e até uma adaptação animada pela MTV, lembrada até hoje com carinho pela geração anos 1990 —, mas em linguagem. Em um momento em que grande parte dos quadrinhos mainstream apostava na repetição de fórmulas, Kieth entregava uma obra que misturava psicologia, surrealismo e uma abordagem visual que parecia desafiar o próprio leitor a desacelerar, a aceitar o desconforto, a abandonar a expectativa de linearidade. Era, de certa forma, um quadrinho sobre não entender completamente e sobre como isso também pode ser uma forma legítima de experiência.

“Minha proposta para Sam naquela época foi simples: faça o que quiser. Liberdade criativa total. Seja dono de tudo. Leve para onde quiser — ou para lugar nenhum”, explicou Jim Lee, numa mensagem emocionada em suas próprias redes sociais, a respeito da chegada do autor. “E Sam abraçou a ideia e lançou sua criação, The Maxx, através da nossa série de antologia Darker Image #1″. O resto é história.

Para Lee, Maxx não era apenas uma história em quadrinhos, mas sim algo cru, psicológico e completamente diferente de tudo o que existia na época. “Era o Sam ‘i antes do e’ puro. Até a forma como ele escrevia o nome era incomum. Acima de tudo, Sam era gentil, doce e profundamente modesto. Naquela época, antes da internet, a autopromoção e o hype eram essenciais para competir com as duas grandes editoras. Bem, ele conseguiu, mas à sua maneira. Um verdadeiro original”.

Talvez seja por isso que The Maxx resista tão bem ao tempo. Porque, ao contrário de tantas obras que envelhecem junto com suas referências, ele continua estranho, incômodo, aberto. Continua exigindo do leitor algo que nem sempre estamos dispostos a oferecer: atenção sem garantias. E, nesse sentido, funciona quase como um resumo da própria carreira de Sam Kieth, um artista que nunca pareceu interessado em facilitar o caminho, mas sim em expandi-lo.

De novembro de 2013 a setembro de 2016, a série original foi republicada pela IDW como The Maxx: Maxximized, com novas cores e scans aprimorados da arte original de Sam Kieth e Jim Sinclair.

Vale lembrar ainda que, desde 2020, havia um projeto em Hollywood de levar The Maxx para os cinemas, com o ator Channing Tatum capitaneando o projeto. “É um amor da minha infância”, disse ele, em comunicado oficial à época. “Quando eu ficava de castigo e não podia assistir TV, esse era o desenho animado do canal Oddities da MTV pelo qual eu arriscava tudo. Saía da cama escondido, ligava a TV e rezava para não ser pego. Mesmo agora, depois de tanto tempo, parece que ainda está à frente do seu tempo. (…) Plantaram na minha mente jovem ideias complexas que tiveram um profundo efeito em como eu via o mundo e os papéis que desempenhamos. Ideias que só compreendi intelectualmente muito tempo depois. Mal posso esperar para dar vida a isso e tentar levar para as gerações que sentem falta dessa obra”. No entanto, como você bem deve ter percebido, o filme nunca aconteceu de fato.

No fim das contas, a morte de Kieth não representa apenas a perda de um nome importante, mas o fechamento de uma trajetória que insistiu, do começo ao fim, em desafiar limites — estéticos, narrativos e industriais. E talvez a melhor forma de entender o que ele deixou não seja tentar encaixá-lo em categorias já existentes, mas aceitar que algumas obras, como The Maxx, existem justamente para lembrar que os quadrinhos podem ser muito mais estranhos, muito mais humanos e muito mais livres do que a gente costuma permitir.

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