Quadrinhos africanos no Brasil: pra romper eixo óbvio das HQs
Volume da Poptopia reúne duas obras de Angola e Cabo Verde publicadas originalmente pela editora A Seita e pelo projeto BDPalop — e mostra que a gente ainda lê pouca coisa fora do circuito tradicional
Por THIAGO CARDIM
Existe uma pergunta que a gente deveria fazer com mais frequência ao consumir cultura pop: por que a gente lê sempre as mesmas coisas? Os mesmos países, os mesmos autores, os mesmos imaginários. Por exemplo: além dos brasileiros, normalmente a se vê preso aos egressos dos Estados Unidos, com seus comics de heróis, ou então aos mangás japoneses. Quando muito, em especial nos últimos anos, temos acesso a algo da Argentina, da França, da Espanha e por aí vai, por conta de algumas editoras persistentes. Mas e o resto do mundo?
Não se trata exatamente de uma crítica ao que chega até nós, mas ao que fica pelo caminho, ao que não atravessa fronteiras, ao que não encontra espaço em um mercado que, mesmo quando se diz diverso, ainda orbita em torno de alguns polos muito bem estabelecidos. É nesse intervalo — entre o que circula e o que permanece invisível — que surge a nova iniciativa da Poptopia, que aposta em um movimento tão simples quanto necessário: ampliar repertório.
O projeto em questão (em campanha de financiamento coletivo no Catarse) materializa essa proposta em um volume especial que reúne duas HQs africanas inéditas no Brasil, Mafuta e a Melodia Esquecida e A Baía do Inferno, originalmente publicadas por meio de uma parceria entre a editora portuguesa A Seita e o projeto BDPalop. Mais do que uma coincidência geográfica ou linguística, essa origem compartilhada revela um ponto crucial: estamos falando de histórias produzidas em língua portuguesa, mas atravessadas por contextos culturais, históricos e simbólicos que raramente encontram eco no mercado brasileiro.

A edição chega em formato flip-flop, com 94 páginas, capa cartonada e dimensões compactas (14×21 cm), uma escolha que favorece tanto a circulação quanto o acesso, além de dialogar com tendências recentes de publicação mais ágil e direta.
Sobre as histórias
Em Mafuta e a Melodia Esquecida, a roteirista Cremilda Fula e o ilustrador Lopes José constroem uma narrativa que parte de um cenário de devastação para investigar memória e espiritualidade. O mundo foi submerso pelas lágrimas da divindade Nzambi, e o que resta da humanidade sobrevive no topo de árvores gigantes conhecidas como embondeiros (ou baobás), criando uma paisagem que combina imaginação especulativa com forte carga simbólica. No centro da história está Mafuta, uma jovem que não se contenta em apenas resistir às circunstâncias impostas, mas busca compreender o que se perdeu — e, sobretudo, o que ainda pode ser recuperado.
A presença do Ngoma, tambor sagrado que atravessa a narrativa como elemento de conexão entre o humano e o divino, reforça a dimensão sensorial da obra, que aposta na música não apenas como recurso narrativo, mas como linguagem de reconexão com ancestralidade e identidade. Trata-se de uma HQ que evita explicações excessivas e confia na potência de suas imagens e metáforas para construir significado, convidando o leitor a uma experiência menos guiada e mais imersiva.
Se Mafuta se ancora no mito e na fabulação, A Baía do Inferno segue por um caminho distinto ao se aproximar de um episódio histórico específico: a invasão do corsário francês Jacques Cassard a Cabo Verde, em 1712. A roteirista Edna Cardoso e o artista Heguinil Mendes optam, no entanto, por deslocar o ponto de vista tradicional dessas narrativas, afastando-se de qualquer tentativa de “heroificação” e voltando o olhar para aqueles que, na maior parte das vezes, permanecem à margem dos registros oficiais.
Ao acompanhar personagens comuns diante de uma violência estrutural e inevitável, a HQ propõe uma reflexão sobre o que significa resistir quando a derrota é praticamente certa. Nesse contexto, o heroísmo deixa de estar associado à vitória e passa a se manifestar na própria tentativa de preservar dignidade e existência em meio ao colapso, reposicionando o leitor diante de uma história que, embora documentada, raramente é contada sob essa perspectiva.
A decisão da Poptopia de publicar essas obras no Brasil não é apenas editorial, mas também simbólica. Segundo Daniel Neto, editor-chefe da casa, a proposta é funcionar como uma ponte entre o público brasileiro e produções que frequentemente permanecem fora do circuito comercial tradicional.

E essa ideia de ponte é particularmente significativa quando se considera que o mercado de quadrinhos no Brasil, apesar de avanços importantes em termos de diversidade, ainda se estrutura majoritariamente a partir de referências dos Estados Unidos, da Europa e do Japão, com poucas iniciativas consistentes voltadas à circulação de obras africanas. Nesse sentido, trazer histórias de Angola e Cabo Verde não significa apenas diversificar o catálogo, mas tensionar o próprio entendimento do que constitui o repertório da cultura pop consumida no país.
As obras que compõem o volume são fruto do trabalho da A Seita, responsável pela criação do concurso BDPalop, que seleciona e publica quadrinhos de países africanos de língua oficial portuguesa. Ao longo de suas edições, o projeto já reuniu dezenas de títulos, contribuindo para a formação de um acervo que evidencia a pluralidade de vozes e narrativas presentes nesses contextos. A chegada de parte desse material ao Brasil, por meio da parceria com a Poptopia, representa não apenas uma expansão de mercado, mas uma oportunidade concreta de circulação de histórias que dialogam com o idioma, mas desafiam o leitor a reconhecer suas diferenças.
O volume com Mafuta e a Melodia Esquecida e A Baía do Inferno está atualmente em campanha de financiamento coletivo com preço promocional durante o período e previsão de lançamento para abril.
Mais do que uma aquisição pontual, o apoio ao projeto se insere em uma lógica mais ampla de incentivo à diversidade editorial e à ampliação de repertório cultural. No fim das contas, a pergunta que abre este texto permanece ecoando: por que ainda lemos tão pouco fora do circuito tradicional? Talvez iniciativas como esta não respondam completamente à questão, mas certamente ajudam a deslocá-la — e, quem sabe, a transformar o próprio hábito de leitura em algo um pouco mais curioso, mais atento e, sobretudo, mais aberto ao mundo.
