Gerry Conway deixa um legado que ainda pulsa
Autor que atravessou Marvel e DC com naturalidade rara, Conway ajudou a redefinir o Homem-Aranha e o próprio jeito de contar histórias nos quadrinhos — e segue influenciando gerações.
Por THIAGO CARDIM
Há roteiristas que constroem personagens. E há aqueles que, em algum momento, entendem que personagens também são frágeis — e que histórias, para continuarem vivas, precisam correr riscos. Gerry Conway sempre pareceu pertencer ao segundo grupo. Sua morte aos 73 anos, anunciada recentemente, não encerra apenas uma carreira longa entre Marvel e DC. Fecha um ciclo de alguém que ajudou a empurrar os quadrinhos para um lugar mais instável, mais humano e, por isso mesmo, mais duradouro.
Nascido no Brooklyn, no dia 10 de setembro de 1952, este nova-iorquino de ascendência irlandesa entrou cedo no mercado, em uma época em que o acesso à indústria passava tanto por talento quanto por insistência. Fã de gibis desde cedo, teve até uma carta de fã publicada na edição de número 50 do Quarteto Fantástico. Mal imaginaria ele… Embora sua estreia profissional, aos 16 anos, tenha sido com uma história no gibi de mistério e fantasia “House of Secrets”, da DC Comics, rapidamente ele faria amizade com Roy Thomas, então editor-chefe da Marvel, sendo convidado a roteirizar algo para a Casa das Ideias em 1970.
Antes dos 20, iniciou os roteiros com histórias mais longas em “Astonishing Tales” #3, com uma aventura na qual Ka-Zar enfrentava Garokk, o Homem Petrificado. Um ano depois, ele então chegaria definitivamente ao universo dos super-heróis, quando ganhou uma chance com o Demolidor e, logo depois, com Homem de Ferro e Incrível Hulk. Seu início precoce não era apenas curiosidade biográfica: ajudou a moldar um roteirista que cresceu dentro do próprio meio, entendendo suas limitações e, mais importante, suas possibilidades.
Pai de muitas criaturas… e de um momento icônico
Escrevendo alguns títulos de terror na Marvel, como “Savage Tales”, Conway não apenas ajudou a criar o Homem-Coisa, como também foi responsável pela versão do Drácula que, durante anos, assombrou a editora – além de ser um dos responsáveis pelo surgimento do licantropo que habitava as páginas de “Werewolf by Night”. Também foi ele o responsável por transformar a coadjuvante Carol Danvers na super-heroína Miss Marvel, em 1977, numa edição que credita sua então esposa Carla Conway como alguém que contribuiu com “mais do que uma pequena ajuda e incentivo”.
Em 2018, na época do primeiro filme da personagem, Conway deu uma entrevista bem interessante pro site Polygon, aqui transcrita pelos queridos do site Quadrinheiros, na qual relatou o quanto achava frustrante ver coisas como o ComicsGate e a misoginia declarada entre uma fatia de fãs de gibis de heróis.
“No passado, quando os quadrinhos eram uma indústria do tipo clube de garotos, não havia qualquer resistência qualquer tentativa de criar personagens femininas. Ao contrário, isso era até bem-vindo, era percebido como uma divertida adição à mitologia”, explicou ele. “As pessoas adoravam personagens como Fênix e Tempestade e a Miss Marvel tornou-se bem popular. Não havia uma atitude do tipo nós-contra-eles. Ao menos, eu não notava isso, e para mim é isso que é tão idiota sobre a atual controvérsia. Não deveria nem haver controvérsia! No passado nós estávamos rompendo patamares com esse tipo de coisas, por mais desajeitado que fosse, e ninguém se opunha”.

Em sua hoje lendária passagem pelo gibi do Homem-Aranha, Conway também foi o cocriador do Justiceiro, que surgiu originalmente como um vilão em “The Amazing Spider-Man” #129, ali no mês de fevereiro de 1974. O mesmo Conway que, anos mais tarde, teve que explicar com todas as letras porque diabos era ERRADO policiais andarem por aí trajando a caveira de Frank Castle – situação que saiu da vida real para a atual temporada da série do Demolidor, por exemplo. “Oficiais da lei não deveriam abraçar o símbolo do Justiceiro”. E ainda completou: “Se um homem da lei, representando o nosso departamento de Justiça, o sistema, coloca o símbolo de um criminoso em seu carro, ele está dando uma declaração sobre o seu entendimento do que é a lei para ele”.
Além de Castle, no gibi do Aranha ele criou outros personagens icônicos como Lápide, Chacal e mesmo Ben Reilly, o clone do Teioso.
Foi na Marvel TAMBÉM que Conway assinou uma das decisões mais controversas (e fundamentais) da história dos super-heróis. Em 1973, nas páginas de “The Amazing Spider-Man”, escreveu a morte de Gwen Stacy. O impacto daquele momento ainda reverbera. Não apenas pelo choque, mas pelo que ele simbolizava: a quebra de uma promessa tácita de que tudo, no fim, ficaria bem. Conway não foi o primeiro a tensionar essa ideia, mas foi um dos que fez isso com consequências irreversíveis. A partir dali o Homem-Aranha deixou de ser apenas um herói jovem e passou a carregar luto, culpa e memória.
Mas importante reforçar uma curiosidade, que o Renan Martins Frade contou com maestria neste texto da nossa época do JUDÃO enquanto portal de conteúdo: aos poucos, Stan Lee foi deixando os roteiros dos gibis da Marvel. Eventualmente, ele largou o Homem-Aranha também e foi alçado ao posto de publisher da Marvel. Não demorou muito e ele foi viver na Califórnia, na tentativa de levar a Casa das Ideias para outras mídias. John Romita também foi deixando o Cabeça-de-Teia aos poucos, principalmente depois que foi eleito o novo diretor de arte da editora.
Assim, naquele momento, Gerry Conway foi se vendo sozinho na responsabilidade de escrever “The Amazing Spider-Man”. Pra fazer uma quebra e marcar a sua fase, Conway (que mal tinha 20 anos na época) resolveu matar um personagem importante. E essa personagem era a Tia May.
O roteirista então contou então a ideia para Romita, já incluindo o retorno de Norman Osborn como Duende Verde e o assassinato da velhinha. Porém, Romita declarou, anos depois, que “enquanto tivesse a Tia May por perto, Peter seria um garoto. Eu sugeri então que, se fosse pra matar alguém, que deveria ser Gwen ou Mary Jane. [Isso era] baseado num truque de Milton Caniff. Caniff costumava pegar uma personagem feminina importante de Terry e Os Piratas e matá-las em uma regularidade de quatro ou cinco anos”. Assim, de acordo com o Romita, seria uma morte que ficaria na cabeça dos leitores para sempre. Como ficou.
Esse movimento, de levar personagens a lugares desconfortáveis, atravessou boa parte de sua obra. Uma obra que passou ainda por um momento igualmente histórico, que este ano celebra nada menos do que 50 anos: Gerry Conway também foi o roteirista do crossover original entre o Superman e o Homem-Aranha, aquele mesmo com arte de seu parceiro Ross Andru e que trazia a dupla encarando uma trama mirabolante maquinada por Lex Luthor e Doutor Octopus.
“Na minha opinião, não havia uma maneira racional de justificarmos essa parceria”, brincou Conway durante uma entrevista em 2006, pro livro The Krypton Companion. “Quer dizer, em que universo, em que mundo isso aconteceria? Eu vi como uma oportunidade de contar uma história para os fãs, uma história divertida. Era uma chance de fazer as cenas que eu, como fã, gostaria de ver nesse universo de fantasia”.
Mas obviamente este não seria o único contato mais profundo do roteirista com a DC….
…pois é, enquanto isso, na Distinta Concorrência…
Na verdade, Conway escreveu o encontro entre os medalhões da Marvel e da DC justamente enquanto estava trabalhando na editora do Supinho. Ele tinha retornado pra DC em 1975, começando por títulos como “Hercules Unbound” #1, “Kong the Untamed” #3 e “Swamp Thing” #19. Foi nesta passagem que ele criou Jason Todd (o segundo Robin, que substituiria Dick Grayson, nosso glorioso Asa Noturna), além de Vixen, Poderosa, Crocodilo, Nevasca… e também ninguém menos do que o Nuclear (Firestorm), publicado pela primeira vez na revista Firestorm #1, em março de 1978.
O escritor teve, na verdade, dois períodos distintos de atuação na DC – antes e depois de assumir, por um período muitíssimo breve, o cargo de editor-chefe da Marvel no lugar de Marv Wolfman. Simplesmente não funcionou. Conway não se conectava com esta pegada mais corporativa/institucional e preferia se manter, de fato, escrevendo. Quando abandonou esta aventura executiva, ele retornou pra DC, o lugar no qual escreveu grandes destaques como Superman, Batman, Mulher Maravilha, Liga da Justiça e a Legião dos Super-Heróis, além de sucessos obscuros como Homens Metálicos e ter a chance de criar pequenas raridades que pouca gente ainda lembra, como o Esquadrão Atari (que a nossa Gabi aqui simplesmente AMA).

Por lá, Conway também deixou marcas importantes, ajudando a consolidar uma fase em que os heróis começavam a dialogar mais diretamente com questões sociais, políticas e identitárias. Não era uma ruptura total, mas uma inclinação clara: histórias que buscavam mais do que escapismo.
Talvez por isso sua trajetória nunca tenha sido definida por um único personagem. Conway circulou por diferentes títulos, mas parecia mais interessado nos espaços entre eles do que em qualquer ícone isolado. Sua contribuição não foi criar uma voz autoral gritante, mas ajustar o tom de universos inteiros.
E isso ajuda a entender seu impacto em gerações posteriores. Roteiristas como Kurt Busiek, Mark Waid e Brian Michael Bendis, cada um à sua maneira, herdaram essa ideia de que continuidade não é prisão — é ferramenta. Que personagens podem mudar, errar, perder. E que o leitor acompanha justamente por isso.
Conway para além dos quadrinhos
Além de gibis, ele escreveu dois livros de ficção científica, “The Midnight Dancers” e “Mindship” – e também foi responsável pelas tiras de Star Trek, ao longo dos anos 1980, baseada na série televisiva sessentista. Nesta época, ele também foi roteirista, ao lado de Roy Thomas, da animação “Fire and Ice” (1983), baseada nos personagens de Ralph Bakshi e Frank Frazetta, além de estar envolvido no argumento original que serviria de base pro filme “Conan – O Destruidor”, de 1984.
Já na TV, ele trabalhou nos roteiros de séries como “Hercules: The Legendary Journeys”, “Baywatch Nights”, “Pacific Blue”, “Law & Order”, “Law & Order: Criminal Intent” e até em episódios de “Batman: The Animated Series” (“Appointment in Crime Alley” e “Second Chance”).
Os últimos anos do mestre
Recentemente, Conway não estava afastado do mundo das HQs. Pelo contrário. Seguia escrevendo, participando de convenções, discutindo direitos autorais e, especialmente, o reconhecimento de criadores dentro da indústria. Tornou-se uma voz ativa em debates sobre propriedade intelectual, créditos e remuneração — um tema que, ironicamente, sempre rondou a história dos quadrinhos, mas raramente com a visibilidade necessária.
Ele retornou aos quadrinhos nos últimos anos, com “The Last Days of Animal Man”, “Justice League – The ’80s” e “Firestorm in Legends of Tomorrow”, para a DC. Além de retornar pro Homem-Aranga em “Amazing Spider-Man: Renew Your Vows” e, mais recentemente, na edição especial “What If…? Dark: Spider-Gwen”.
Sua morte gerou uma onda imediata de homenagens. Profissionais da indústria, leitores e artistas retomaram histórias, capas e momentos que ajudaram a formar seu repertório. Não há consenso sobre qual é sua “fase definitiva” — e talvez isso diga mais sobre sua carreira do que qualquer lista fechada. Conway nunca foi um autor de um só momento. Foi um roteirista de continuidade.
“Gerry Conway era um escritor talentoso. Ele era atencioso, profundamente sintonizado com o cerne emocional e moral da narrativa, e um defensor maravilhoso e eloquente dos quadrinhos e de seus criadores. Sua escrita inspirou todos nós na Marvel e continuará a inspirar gerações de escritores, leitores e fãs”, lembra Dan Buckley, presidente da Marvel Comics, numa nota oficial assinada por alguns dos mais importantes nomes da editora. “Do Homem-Aranha aos Vingadores, do Homem de Ferro à Capitã Marvel, Gerry Conway escreveu com maestria quase todos os personagens do Universo Marvel”, destacou o atual editor-chefe da Marvel, CB Cebulski.
O artista não reinventou os quadrinhos sozinho, nem buscou esse tipo de narrativa. Mas ajudou a deslocar o eixo. Tornou possível contar histórias onde a perda não é revertida, onde o passado pesa e onde seguir em frente é, muitas vezes, a única escolha.
E talvez seja por isso que seu trabalho continue pulsando. Não por nostalgia, mas porque ainda fala com um tipo específico de leitor: aquele que entende que, às vezes, crescer é aceitar que nem toda história volta ao início.
O autor foi diagnosticado, em 2022, com câncer de pâncreas – que anos depois entrou em remissão. Em 2025, ele esteve no Brasil, como convidado da CCXP. Conway era casado com Karen Britten, psicóloga especializado crianças autistas. Era pai de Cara Conway, filha de seu primeiro casamento com Carla Conway, e também de Rachel Conway, do segundo casamento. Atualmente, a família morava em San Fernando Valley, próximo da cidade de Los Angeles.