Wonder Man: mas quem é o tal do Magnum mesmo?
Criado nos anos 1960, membro recorrente dos Vingadores e figura-chave na órbita do Visão e da Feiticeira Escarlate, Simon Williams é um daqueles personagens que sempre esteve ali — e agora chega ao centro do palco
Por THIAGO CARDIM
Como já virou tradição a cada novo anúncio do MCU, Wonder Man também chegou cercado do barulho previsível sobre “lacração”, “agenda woke” e outras palavras-chave do bingo da má vontade nerdola. Desta vez, o alvo foi a escolha de Yahya Abdul-Mateen II para viver Simon Williams, como se a etnia do ator tivesse qualquer impacto real sobre o conceito do personagem. Spoiler: não tem.
O Magnum nunca foi definido por ser branco, negro, loiro, moreno ou qualquer outra coisa além de um sujeito quebrado tentando se encontrar num mundo maior do que ele. Reclamar disso diz muito menos sobre a série — e muito mais sobre quem insiste em confundir diversidade com ameaça. COMO DE COSTUME, NÃO É?
E sim, sim, estamos falando do mesmo personagem: Magnum é, pelo menos aqui no Brasil, o tal do Wonder Man.
Um pouquinho de história, é claro
O Magnum fez sua estreia em The Avengers #9 (outubro de 1964), criação de Stan Lee, Don Heck e Jack Kirby — e, como não poderia deixar de ser, aparentemente morreu já nessa primeira aparição. Desde o início, ele nasceu como uma figura ambígua: um vilão relutante que acaba encontrando redenção, uma marca que acompanharia o personagem por toda a sua trajetória.
Simon Williams é um ex-ator que acaba se tornando super-herói após ser energizado por energia iônica, o que lhe concede força, resistência e habilidades sobre-humanas. Filho do industrial Sanford Williams, Simon herdou a empresa da família, a Williams Innovations, mas viu tudo desmoronar quando os esquemas criminosos de seu irmão, Eric Williams (que se tornaria o vilão Ceifador), levaram a companhia à ruína financeira. Afundado em dívidas e envolvido em desvio de recursos, Simon se torna presa fácil para alguém como o Barão Heinrich Zemo.

É Zemo quem transforma Simon no Wonder Man, usando-o como uma peça infiltrada para destruir os Vingadores por dentro. O plano, no entanto, não sai como o esperado: ao perceber que foi apenas um peão, Simon se volta contra o vilão e se sacrifica para salvar a equipe. O processo que lhe concedeu poderes era instável e o preço foi alto: Magnum entra em coma.
Quatro anos depois, The Avengers #58 (1968) revisitou esses eventos para revelar que os Vingadores haviam salvo eletronicamente a mente de Simon Williams em um computador, mantendo-o em um estado de existência suspensa. O personagem só voltaria a aparecer de forma mais concreta em The Avengers #102 (1972), em uma participação breve, ainda em coma. A partir daí, a trajetória do Magnum vira um verdadeiro vai-e-volta existencial típico dos quadrinhos da Marvel. Seu corpo é reanimado por vilões diferentes ao longo dos anos — primeiro por Kang, o Conquistador, depois pelo Garra Negra e, por fim, pelo Laser Vivo.
Só após esse último episódio, em The Avengers Annual #6 (1976), Simon Williams finalmente recupera plenamente suas faculdades e passa a integrar os Vingadores de forma fixa a partir de The Avengers #160 (1977). É nesse período que se consolida sua amizade com o Fera (é, ele mesmo, dos X-Men), com os dois sendo retratados como parceiros inseparáveis e fãs da vida noturna — uma dinâmica que cairia no gosto dos leitores e se tornaria uma das mais carismáticas da série.
Com o passar dos anos, o Magnum se consolidou como uma presença constante nos times da Marvel. Ele foi um dos membros fundadores dos Vingadores da Costa Oeste, surgidos inicialmente em uma minissérie publicada entre 1984 e 1985, antes de se tornar um dos personagens centrais da longa fase regular da equipe. Após o fim do grupo, Simon integrou a Força Tarefa, uma tentativa dos Vingadores de se reorganizarem nos anos 1990 com uma abordagem mais estratégica e militarizada.
Quando essa formação também se fragmentou, Magnum retornou ao núcleo principal dos Vingadores no final dos anos 1990, participando da terceira fase da revista. Após o colapso da equipe em meados dos anos 2000, ele ainda faria parte de mais uma reformulação importante: os Poderosos Vingadores, grupo criado em 2007 e alinhado com o status quo da Marvel naquele período. Em comum, todas essas fases reforçam o papel de Simon Williams como um herói que nunca desaparece por completo: apenas muda de forma, de equipe e de função conforme o universo Marvel se reinventa.
Sobre Magnum, Visão e Feiticeira Escarlate…
Pois então: durante os anos em que o Magnum permaneceu em animação suspensa, o Ultron, aquele androide maligno criado por Hank Pym, roubou seus padrões mentais gravados para usá-los como base na criação do Visão. Isso obviamente não deve se repetir no MCU, já que nos cinemas o Ultron é criado por Tony Stark/Bruce Banner e os padrões mentais do Visão são construídos a partir da IA Jarvis, usada na armadura do Homem de Ferro… e inspirada no antigo mordomo de sua família.
De qualquer forma, nos quadrinhos, o que se cria é uma relação quase metafísica entre Magnum e Visão (que chegam inclusive a se entender como algo parecido com “irmãos”). E, claro, isso respinga na Feiticeira Escarlate, formando um dos triângulos mais estranhos, rocambolescos e dramáticos da Marvel. Pois é, como todo bom novelão com super-heróis, sim, Magnum e a Feiticeira Escarlate também chegaram a ter um envolvimento romântico em certo momento, levando a uma treta com o Visão (é óbvio). No fim, Magnum nunca foi o herói mais poderoso da sala, mas quase sempre foi o mais humano.
E quais são os poderes do Magnum mesmo?
– Força sobre-humana absurda
– Invulnerabilidade
– Capacidade de voar
– Corpo composto de energia iônica
– Envelhecimento extremamente lento
Em resumo: ele apanha, cai, morre… e volta. Repetidamente.
Mas me explica como o Wonder Man virou… Magnum?
Nos anos 1970 e 1980, as editoras brasileiras tinham liberdade (e criatividade) para adaptar nomes (basta lembrar do “Demônio Destemido” que, do mais absoluto nada, se tornou Demolidor… e vamos combinar que AINDA BEM). Wonder Man virou Magnum porque soava mais forte, mais “super-herói” e mais vendável para o público local. E convenhamos: Magnum é um nome muito anos 1980.
Pois é, o nome não veio do nada. O público brasileiro já estava acostumado com: Magnum, P.I., a série estrelada por Tom Selleck (conhecida por aqui como “Magnum – O Detetive do Havaí”). Além disso, sempre existiu por aqui o peso simbólico da palavra “magnum” como algo grande, definitivo, exagerado, especialmente por conta da arma de mesmo nome. Resultado: o nome colou. E ficou.
Além do mais… digamos que batizá-lo de “Homem-Maravilha” causaria uma confusão imediata com a Mulher-Maravilha, ícone absoluto da editora concorrente. Definitivamente, não era uma opção viável (e já tinha inclusive dado treta originalmente nos EUA, com ameaça de processo e tudo mais).

Magnum bateu na trave do MCU…
Durante anos, circularam rumores de que Simon Williams apareceria nos filmes dos Guardiões da Galáxia, interpretado por Nathan Fillion — inclusive com easter eggs espalhados por James Gunn (amigo pessoal de Nathan, lembrmos) no segundo filme, na forma de cartazes de filmes estrelados por ele colados nas paredes de uma cidade ameaçada por Ego, mas que acabaram caindo de vez na edição final da produção.
“Eu amo o personagem de Simon Williams/Magnum nos quadrinhos – um ator e super-herói que às vezes é bem idiota – e eu conseguiria ver Nathan claramente nesse papel (não porque ele é babaca, mas porque ele seria ótimo interpretando um)”, declarou o diretor em suas redes sociais pessoais. Não por acaso, ele inventou de colocar Nathan interpretando o arrombadíssimo lanterna verde Guy Gardner no filme do Superman… e deu MUITO certo.
Agora, a Marvel confirma de vez: Wonder Man estreia sua série solo no Disney+ em 27 de janeiro, finalmente trazendo o personagem para o centro do MCU.
A série Wonder Man promete uma abordagem um pouco diferente do padrão mais épico do MCU. A trama acompanha Simon Williams, um ator em decadência que acaba se envolvendo com o universo dos super-heróis de forma muito mais direta (e perigosa) do que imaginava: em Hollywood. Simon é ator e busca um papel na refilmagem de uma produção de super-heróis que ele amava na infância. Mas o tal filme, vejam vocês, estranhamente é dirigido por um recluso diretor de filmes de arte, que promete uma abordagem totalmente inesperada. Sua única regra? Ele não quer atores que tenham superpoderes de verdade. E adivinha só? Simon mantém os seus em segredo… Junte a isso a turma da agência Controle de Danos e, bingo, sinal de problemas.
Na época da estreia do filme do Quarteto Fantástico, quando convidou um batalhão de jornalistas para visitar o seu escritório e discutir o futuro do MCU, o zé do boné Kevin Feige deixou claro que não quer mais deixar suas séries ou filmes “na gaveta”, prontinhos porém esperando o momento certo de serem lançados. No caso de Wonder Man, a série brinca com estereótipos de Hollywood – estando pronta muito antes de sátiras como “A Franquia” (HBO Max) e “O Estúdio” (Apple TV).
O protagonista é vivido por Yahya Abdul-Mateen II, ator que já provou sobrar em personagens ligados a quadrinhos: foi o Doutor Manhattan na série Watchmen da HBO e o Arraia Negra nos filmes de Aquaman. O elenco ainda conta com Ben Kingsley, que retorna ao papel de Trevor Slattery, o falso Mandarim de Homem de Ferro 3, personagem que ganhou nova vida em Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis. A presença de Slattery reforça o tom metalinguístico da série, que brinca com fama, performance e identidade — temas que sempre acompanharam o Magnum nos quadrinhos.
Cronologicamente, Wonder Man deve se encaixar em um momento mais “baixo ruído” do atual MCU, longe das grandes ameaças cósmicas e mais próximo de histórias centradas em personagens, consequências e reconstrução de mundo pós-Ultimato. A série parece dialogar com produções como Mulher-Hulk e Falcão e o Soldado Invernal, explorando como é viver à sombra dos Vingadores em um universo onde heróis já são parte do cotidiano — e do entretenimento. Ao colocar Simon Williams entre Hollywood, superpoderes e crises de identidade, a Marvel sinaliza uma tentativa de resgatar personagens clássicos com novas camadas, apostando menos no espetáculo imediato e mais em narrativas que reflitam sobre o próprio legado do MCU.

5 histórias do Magnum que você precisa ler
1. The Avengers #9
A estreia (e “morte”) do Magnum, apresentado como vilão relutante antes de iniciar sua longa trajetória de culpa, sacrifício e redenção entre os Vingadores.
2. The Vision and the Scarlet Witch (1982)
Uma minissérie essencial para entender o elo emocional e psicológico entre Magnum, Visão e Feiticeira Escarlate — e como isso molda os três personagens.
3. Avengers West Coast
Aqui, Simon Williams deixa de ser coadjuvante e assume papel central, ajudando a definir o tom mais humano e cotidiano dos Vingadores da Costa Oeste.
4. Wonder Man (1991)
A fase solo que explora o conflito entre fama, identidade e heroísmo, mostrando Simon tentando conciliar sua vida de ator com os dilemas de ser um super-herói.
5. Avengers Disassembled
Não é uma história centrada nele, mas um arco fundamental para entender o impacto emocional e o legado do Magnum dentro da mitologia dos Vingadores.