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Excalibur: o primo estranho (e fascinante) dos X-Men

Misturando fantasia britânica, humor absurdo, ficção científica e trauma mutante, Excalibur sempre foi a equipe que parecia existir à margem da principal equipe mutante. Talvez por isso continue tão incrível.

Por THIAGO CARDIM

Existiu um momento curioso na história dos quadrinhos dos mutantes da Marvel Comics em que tudo parecia excessivamente sério. Os anos 1980 transformaram os X-Men em um fenômeno editorial, mas também consolidaram uma estética de sofrimento contínuo: perseguição, genocídio, paranoia política, futuros distópicos e crises existenciais em série. E faz sentido porque, bom, o contexto da época pedia isso.

Mas foi justamente nesse cenário carregado que surgiu Excalibur, talvez a equipe mutante mais esquisita, caótica e deliciosamente desalinhada já publicada pela editora. E olha que o universo mutante da Marvel é conhecido especialmente pela enorme quantidade de grupos derivados dos X-Men, que se multiplicam como Gremlins que recebem uma ducha d’água: X-Factor, Novos Mutantes, X-Force, X-Statix, X-Men Equipe Azul, X-Men Equipe Dourada… O que não faltam são equipes com X no nome, para todos os gostos, formas e tamanhos.

Mas talvez ESSE seja justamente o charme de Excalibur: nunca parecer completamente encaixado no resto da Marvel.

Agora, com a chegada de um volume brasileiro da linha Epic Collection dedicado a eles pela Panini Comics, muita gente provavelmente vai descobrir pela primeira vez um gibi que, apesar de nunca ter ocupado o mesmo pedestal comercial dos X-Men principais, construiu uma identidade própria tão forte que continua influenciando quadrinhos mutantes até hoje.

Criada em 1987 por Chris Claremont e Alan Davis, a equipe nasceu quase como consequência emocional de uma tragédia. Enquanto boa parte das revistas mergulhava ainda mais fundo na ideia de sobrevivência mutante, Claremont decidiu seguir por outro caminho: deslocar personagens traumatizados para um universo mais fantástico, mais britânico e mais surreal. O resultado foi Excalibur (que, caso você não se recorde, tem um X no nome mas é a alcunha da espada do Rei Arthur, que ele recebeu da Dama do Lago, enfim, mil coisas, mil trutas, mil tretas).

Um pouco de história

A história da equipe começa logo depois do Massacre de Mutantes, saga na qual os Carrascos, grupo de assassinos liderado pelo Sr. Sinistro, promove uma verdadeira chacina aos Morlocks – e a quem estivesse em seu caminho. Lince Negra (Kitty Pryde) e o Noturno se recuperavam de seus ferimentos na Ilha Muir, sob os cuidados da cientista Moira MacTaggert, devastados pela notícia da suposta morte de seus parceiros mutantes.

Os caminhos da dupla acabam se cruzando com os do Capitão Britânia (Brian Braddock, irmão da Psylocke) e de sua namorada, a transforma Meggan – para tentar ajudar uma quinta personagem: Rachel Summers, a Fênix, filha de Ciclope e Jean Grey vinda de uma realidade alternativa (é, a história da família Summers é bem complicada mesmo).

Fugindo do mundo de Mojo, a degenerada criatura extradimensional que adora criar reality shows envolvendo carnificina de seres superpoderosos (e muito antes da cultura pop virar completamente dependente de algoritmo e espetáculo permanente), Rachel acaba nas ruas de Londres sendo perseguida pelos Lobisomens Guerreiros, que a querem de volta à atração.

Mas o caso é que ela ainda é alvo da Technet, de Opal Luna Saturnyne, a Majestrix Omniversal que tem a missão de manter a coesão do Omniverso – e que enxerga no poder destrutivo da Fênix uma ameaça. Obviamente que Noturno, Kitty, Meggan e o Capitão Britânia vão ajudar a Rachel e, no fim das contas, resolvem formar um grupo com o objetivo de manter vivo o sonho de Charles Xavier. E que, vejam só, é rigorosamente a primeira formação dos X-Men surgida fora dos EUA.

Chris Claremont já era, naquele momento, provavelmente o roteirista mais importante da história dos mutantes. Foi ele quem transformou os X-Men de revista secundária em fenômeno global, desenvolvendo personagens como Wolverine, Tempestade, Kitty Pryde e Magneto com uma profundidade emocional raríssima para quadrinhos de super-heróis da época.

Embora o Capitão Britânia seja criação sua, publicada pela Marvel UK na década de 1970 e inicialmente descolada da cronologia americana da editora, Claremont foi bastante inteligente ao trazer para os roteiros de Excalibur uma série de elementos surgidos sob a batuta do roteirista posterior, um tal de Alan Moore. Foi da insana e non-sense passagem do escritor britânico que vieram o conceito do Omniverso, a presença de Saturnyne e a função de Brian como um campeão universal, apenas um de um time de diferentes versões de Capitães Britânia espalhados em muitas dimensões e criados pelo mago Merlyn para garantir a paz e a ordem.

Portanto, enquanto os X-Men clássicos operavam como metáfora política e social, Excalibur parecia muito mais interessado em brincar com dimensões paralelas, humor metalinguístico, viagens absurdas, sátira midiática e fantasia arturiana filtrada pela estética pop britânica dos anos 1980. Em muitos momentos, a revista parecia menos preocupada em “parecer importante” e mais interessada em explorar possibilidades narrativas estranhas.

Claremont é, desde sempre, brilhante no que diz respeito a construir interações entre integrantes, brincando com suas características particulares e, principalmente, retratá-los em situações cotidianas – desde o café trivial na cozinha que, de um papo comum entre Brian e Kurt, se torna uma avaliação sobre o papel do Capitão no mundo; até as sequências em que os cinco se mudam para a sua base de operações, um farol à beira do mar, carregando as caixas e definindo quem vai ficar com cada quarto…

Já Alan Davis trazia outro tipo de energia. Seu traço elegante, expressivo e incrivelmente fluido ajudava Excalibur a existir num território peculiar entre aventura clássica, humor visual e ficção científica psicodélica. Davis desenhava ação e personagens atléticos e plásticos como poucos — mas, principalmente, desenhava personalidade. Ao mesmo tempo em que seu traço é bastante físico, com cenas que são repletas de intensidade e agilidade, ele sabe ser caricatural quando preciso. Reparem nas expressões faciais, nas caretas, nos olhares e sorrisos.

Excalibur no Brasil

A presença do Excalibur nas nossas bancas, aliás, tem uma curiosidade: na década de 1990, enquanto a Editora Abril publicava quase tudo da Marvel por aqui, a Editora Globo conseguiu adquirir os direitos de alguns títulos e manteve, com regularidade, um gibi chamado Marvel Force. Apesar de trazer histórias de personagens como Motoqueiro Fantasma, Quarteto Futuro e Guardiões da Galáxia, a publicação tinha no Excalibur o seu carro-chefe – tentando aproveitar, obviamente, toda a popularidade dos mutantes naquela época.

Mas a brincadeira durou pouco e logo a Abril exigiu que Marvel Force fosse cancelado, sob o pretexto de que a cronologia Marvel era integrada e não suportaria duas editoras diferentes trabalhando ao mesmo tempo…

O Epic Collection brasileiro chega justamente cobrindo esse início fundamental da equipe, reunindo Captain Britain #1-2, Excalibur #1-11, a edição especial Special Edition & Mojo Mayhem, além de histórias publicadas em Marvel Comics Presents e Mighty World of Marvel.

São quase 500 páginas de um momento em que a Marvel ainda permitia que certas revistas fossem genuinamente estranhas. Reler essas histórias hoje produz um efeito curioso: muito do que parecia exagero cartunesco nos anos 1980 agora soa estranhamente profético.

Sem a obrigação de carregar o peso inteiro da franquia mutante nas costas, Excalibur pôde experimentar mais. E essa liberdade criativa ajuda a explicar por que tanta gente que descobre a equipe acaba se apaixonando por ela. Mas quanto ao presente da equipe, a resposta é… complicada. Como quase tudo nos quadrinhos da Marvel.

Com as saídas de Claremont e Davis, o Excalibur foi se tornando uma equipe genérica, sofrendo tardiamente daquela irritante síndrome de “precisamos ser fortões, musculosos, raivosos e armados até os dentes” que se tornou uma praga nos gibis de heróis dos anos 1990 (oi Rob Liefeld, olá Jim Lee, tô falando com vocês!) – e da qual, vejam vocês, o Excalibur inteligentemente fugiu.

Excalibur já acabou, voltou, mudou de formação, foi reinventada e incorporada a diferentes fases dos mutantes ao longo das décadas. A encarnação mais recente surgiu durante a era Krakoa, escrita por Tini Howard, aproximando ainda mais o grupo da magia, do misticismo e das conexões com outros mundos. Tinha Betsy Braddock virando a Capitã Britânia, tinha Jubileu, Gambit, Vampira… e até o APOCALIPSE (sim, sim, insira o seu WTF aqui).

Mas a verdade é que Excalibur hoje funciona mais como conceito do que como equipe fixa. Uma ideia de quadrinho mutante que existe à margem — menos preocupada com guerra e mais aberta ao estranho.

Porque em um mercado cada vez mais obcecado por coesão, cronologia e universos compartilhados perfeitamente organizados, Excalibur permanece lembrando que os quadrinhos também podem ser caóticos, engraçados, emocionais e profundamente esquisitos.

Às vezes tudo ao mesmo tempo. Todas as dimensões do Omniverso agradecem.

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