O futuro de Mafalda e o risco de transformar um ícone em franquia
Com a saída da histórica Ediciones de la Flor e a entrada da Penguin Random House, o destino da criação de Quino entra em nova fase, entre a preservação de um símbolo político latino-americano e a tentação de sua expansão comercial global.
Por THIAGO CARDIM
Existe algo quase inquietante em mexer em personagens que já se tornaram parte do imaginário coletivo de um continente inteiro. Principalmente quando essa personagem não é apenas uma figura de entretenimento, mas meio que uma espécie de consciência crítica em forma de tira de jornal.
Mafalda sempre foi isso: uma menina que, sentada em sua pequena escala doméstica, observava o mundo com uma lucidez desconfortável demais para caber em quadrinhos infantis. E talvez seja justamente por isso que qualquer movimento envolvendo seus direitos, sua circulação e sua preservação editorial carregue um tipo de tensão que vai muito além do mercado de HQs.
Porque não se trata apenas de publicação. Trata-se de controle de sentido.
Nos últimos anos, a cadeia de propriedade e gestão da personagem criada por Quino passou por mudanças importantes. Após a morte do autor em 2020, os direitos foram inicialmente herdados por sua sobrinha, Julieta Colombo. Com o falecimento dela em 2023, a responsabilidade legal passou para um grupo de cinco sobrinhos — um arranjo familiar que, na prática, transformou a gestão da obra em uma negociação constante entre preservação, legado e mercado. E sabemos MUITO BEM que esse tipo de transição raramente é neutro.
E no caso de Mafalda, a neutralidade talvez seja justamente o que está em jogo.
Durante décadas, a personagem foi publicada pela histórica Ediciones de la Flor, uma casa editorial que não apenas lançou Mafalda na Argentina, mas ajudou a consolidá-la como um fenômeno cultural latino-americano. O recente encerramento das atividades da editora, em meio a mudanças profundas no mercado editorial, na economia argentina (um abraço pros defensores do Milei…) e nas dinâmicas de publicação impressa, marcou o fim de um ciclo simbólico que durou mais de 50 anos. Pouco depois, veio outra virada significativa: desde agosto de 2025, as tiras passaram a ser publicadas pela Sudamericana, selo do conglomerado Penguin Random House.
E aqui, espero que o caríssimo leitor entenda, o debate começa a ganhar contornos mais amplos. Porque quando uma personagem como Mafalda sai de uma editora historicamente ligada à sua identidade cultural e passa a integrar um dos maiores grupos editoriais do mundo, a pergunta inevitável não é apenas “o que muda na distribuição”, mas “o que muda na forma como ela será lida daqui para frente”.

Mafalda nunca foi uma personagem neutra
Criada pelo cartunista argentino Quino — nome artístico de Joaquín Salvador Lavado Tejón — Mafalda surgiu em 1964, inicialmente como uma tira publicitária que nunca chegou a ser publicada, antes de ganhar vida própria nas páginas da revista Primera Plana em 1964 e, depois, no jornal El Mundo, onde realmente se consolidou.
Quino já trabalhava com quadrinhos desde o final dos anos 1950, produzindo humor gráfico marcado por ironia social e crítica política, mas foi com Mafalda que seu trabalho alcançou dimensão continental. As tiras foram publicadas regularmente até 1973, quando o autor decidiu encerrar a produção por não se sentir confortável com a repetição do formato e com o peso cada vez maior da personagem como símbolo político. Ainda assim, Mafalda seguiu circulando em coletâneas e se tornou um dos maiores ícones culturais da América Latina. Quino viria a falecer em 30 de setembro de 2020, em Mendoza, deixando um legado que extrapola o humor gráfico e se inscreve diretamente na história política e cultural do continente.
Lembremos, obviamente, que a Mafalda surge em um contexto político extremamente delicado na Argentina (uma palavra: DITADURA) e rapidamente se transforma em um espelho crítico da sociedade latino-americana. Ao lado de personagens como Susanita, Manolito, Felipe, Miguelito e Libertad, a menina de cabelos pretos constrói um universo infantil que funciona, na prática, como um comentário contínuo sobre guerra, autoritarismo, desigualdade social e hipocrisia adulta.
A famosa aversão à sopa, por exemplo, nunca foi apenas uma piada doméstica. Era, como já foi amplamente interpretado por estudiosos e leitores, uma metáfora aberta à recusa de imposições autoritárias, numa leitura que dialoga diretamente com o contexto político das ditaduras militares na América Latina (incluindo este simpático país de dimensões continentais no qual moramos).
Nesse sentido, Mafalda sempre esteve mais próxima de um editorial político em forma de quadrinhos do que de uma tira cômica tradicional. E é exatamente aí que ela se diferencia profundamente de personagens como Mônica, criada por Mauricio de Sousa, por mais que a Gail Simone sempre confunda as duas (momento piada interna do mundinho dos gibis).
Enquanto a personagem brasileira se consolidou dentro de um ecossistema fortemente voltado para licenciamento, produtos, franquias e expansão multimídia – com presença massiva em embalagens, campanhas publicitárias e parques temáticos – Mafalda sempre foi tratada com um tipo de contenção quase filosófica. Não porque não houvesse potencial comercial, mas porque sua força simbólica dependia justamente de não ser absorvida completamente pela lógica publicitária.

Essa diferença nunca foi apenas estética. É editorial, política e cultural.
E o próprio Quino, notadamente um progressista, sempre teve consciência disso, vamos lá.
Em vida, o autor chegou a se posicionar publicamente contra usos da personagem em movimentações políticas que distorciam seu sentido original — como no caso de uma campanha antiaborto na Argentina, em que sua imagem foi associada a uma mensagem contrária ao posicionamento frequentemente atribuído à personagem. O próprio criador deixou claro que Mafalda não poderia ser reduzida a uma ferramenta ideológica de terceiros, especialmente quando isso contrariava a complexidade crítica que sempre marcou sua obra.
Agora, no entanto, o cenário muda de novo e não apenas por questões editoriais.
Há também expectativas mais amplas em torno da expansão global da personagem. O grupo de herdeiros teria interesse em ampliar a presença internacional de Mafalda, explorando novos mercados e formatos de distribuição. Isso inclui desde novas edições em países onde a personagem ainda tinha circulação limitada até adaptações audiovisuais mais ambiciosas.
Um exemplo importante é o projeto de animação em desenvolvimento para a Netflix, comandado pelo cineasta Juan José Campanella, vencedor do Oscar por O Segredo de Seus Olhos. A produção, que deve chegar em algum momento de 2027, promete ser uma nova porta de entrada para o público global — mas também levanta inevitavelmente a questão de como traduzir uma personagem tão profundamente enraizada no contexto político argentino para o formato de entretenimento internacional.
Ao mesmo tempo, movimentos editoriais recentes também apontam para uma expansão de presença em mercados centrais. Em 2025, Mafalda foi publicada pela primeira vez nos Estados Unidos pela editora Elsewhere Editions, em uma série de volumes que pretende apresentar a personagem a um novo público leitor.
Vale reforçar que, no Brasil, a circulação da obra já é relativamente consolidada, dividida entre diferentes editoras, com destaque para a Martins Fontes e a WMF Martins Fontes, responsáveis por coletâneas e edições que mantêm a personagem viva no mercado nacional.
Mas a pergunta central permanece: o que acontece quando uma personagem essencialmente crítica, nascida de um contexto político específico e preservada durante décadas por uma gestão editorial cuidadosa, entra definitivamente no circuito das grandes corporações culturais globais?

A resposta não é simples.
Existe, por um lado, a possibilidade de ampliação de alcance, de acesso e de preservação digital em larga escala. Mafalda pode chegar a leitores que jamais tiveram contato com quadrinhos latino-americanos, o que por si só já representa um movimento importante de internacionalização cultural. Mas existe também o risco inverso: o da diluição simbólica. Personagens como Mafalda não sobrevivem apenas de presença. Sobrevivem de contexto. E contexto é justamente aquilo que tende a se perder quando obras entram em ciclos intensos de adaptação, licenciamento e expansão multimídia.
Diferente de personagens concebidos desde o início para operar como franquia, Mafalda carrega uma contradição fundamental: ela questiona o mundo adulto ao mesmo tempo em que precisa existir dentro dele para continuar circulando. E talvez seja exatamente por isso que seu futuro desperte tanto interesse… e alguma preocupação.
Porque, no fim das contas, não estamos falando apenas de tiras em quadrinhos. Estamos falando de uma menina que, há mais de meio século, insiste em perguntar por que o mundo é como é. E essa pergunta, quando bem preservada, costuma ser mais valiosa do que qualquer expansão de mercado.
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