Pelos poderes da galhofa, eu tenho um baita pipocão!
“Mestres do Universo” entrega exatamente o que os trailers vinham prometendo – um mundo colorido e cheio de personagens que não se levam a sério, trazendo nostalgia pros quarentões e diversão sem compromisso pra molecada. Não tá bom? 😀
Por THIAGO CARDIM
Na noite desta quarta-feira (3), como resultado de algumas pré-estreias que tão rolando pelo país, vi rolando pela timeline das redes alguns comentários prévios a respeito de Mestres do Universo, a nova versão cinematográfica live-action de He-Man e sua turma – mas um deles serviu como um EXCELENTE resumo para a minha opinião sobre o filme. O querido Matheus Esperon encapsulou tudo numa única frase certeira: “É o Dungeons & Dragons de 2026”. BINGO.
Tal qual aconteceu com a divertidíssima versão para as telonas do nosso amado (e um tanto controverso) jogo de RPG, Mestres do Universo acerta no alvo ao 1) entender no âmago do que se trata o material original, ao invés de tentar fazer uma versão séria, sombria e atualizada do desenho animado e, portanto… 2) abraçar de vez a galhofa, sem medo de ser feliz, construindo uma Etérnia colorida, exagerada, espalhafatosa, cheia de excessos e com personagens que ficam o tempo todo rindo de si mesmos.
Fiquem calmos, senhoras e senhores: diferente do que muita gente se preocupava, o diretor Travis Knight usa a passagem de Adam (Nicholas Galitzine) pela Terra apenas como um trampolim. Depois de Etérnia ser dominada pelo Esqueleto (Jared Leto, mas calma que já vamos falar sobre isso), o rei e a rainha conseguem, com a ajuda da Feiticeira (Morena Baccarin), salvar o garoto (e a espada do poder) a tempo – e ele acaba sendo criado desde a infância neste lugar sem graça, repleto de poluição e boletos.
Mas essa é uma sacada inteligente porque, vejam vocês, ela serve como ponto de partida para uma nova geração que não conhece Etérnia e seus habitantes como nós, quarentões que viam o desenho do He-Man no Xou da Xuxa enquanto tomávamos Toddyinho e comíamos bolacha recheada sentados no tapete da sala de casa. Então, conforme Adam vai redescobrindo seu planeta natal, a audiência mais jovem vai sendo apresentada a ele sob os olhos do protagonista.
Protagonista este, aliás, que foi uma escolha de ouro. Galitzine é um homem lindo e forte, mas que carrega no humor as suas tintas mais brilhantes. O protagonista que ele entrega é um guerreiro em começo de carreira, um tanto vacilante e abestalhado, que não sabe usar a força que tem, que traz um discurso quase coach de RH meio estapafúrdio para o meio de uma terra de raios laser e magia… e que, inicialmente, carrega consigo uma imagem bastante complicada sobre o que é ser “homem”, do que é ser forte e corajoso, daquele tipo que vai sendo desmontada (ainda bem!) ao longo da história.
Tanto o diretor quanto o ator, aliás, entendem nitidamente que o grande poder do He-Man está, no fim, no Príncipe Adam. No seu coração e não no seu bíceps sarado ou no seu abdome trincado. A dualidade aqui faz toda a diferença. Dizer mais que isso seria entregar a conclusão da história, que está longe de ser brilhante ou surpreendente, mas é fofa e amarradinha o bastante pra você querer curtir sem que alguém a estrague. 😉

Ou seja… você já imagina o quanto os red pills que tanto esperavam ver neste He-Man uma versão ainda mais obtusa do fortíssimo e veiúdo Dolph Lundgren no Mestres do Universo de 1987, quase um guerreiro másculo egresso das letras do Manowar, devem ficar putos da vida (levando em consideração, claro, que isso significa que eles NUNCA viram o desenho, né, hahahahahahaha).
Eu confesso, aliás, que pensar nisso me fez rir EM DOBRO ao longo da projeção.
Porque, sim, exatamente como acontecia no desenho animado original, o humor aqui é uma presença constante. Temos alguns momentos mais, digamos, tensos, como a relação conturbada entre Adam e seu pai, o Rei Randor (James Purefoy), e sua conclusão emocional; e também o quanto Duncan (Idris Elba), o nosso eterno Mentor, desaba em sua postura de herói ao longo dos anos depois de uma derrota diante do Mandíbula e, na entrega à bebida, acaba complicando sua relação com a filha Teela (Camila Mendes).
Mas não ache você que algum destes pontos é desenhado, digamos, com a profundidade de um tratado psicológico. Este é um filme do He-Man e, como tal, tudo se resolve em algum momento com um sorriso no rosto.
O resultado final é uma farofada muitíssimo bem temperada, um pipocão não no sentido épico e grandioso, aquela produção de fantasia repleta de extras em batalhas epopeicas, mas sim uma aventura gostosa, leve e descontraída, sem grandes pretensões, que facilmente preencheria muito bem as suas horas nos tempos áureos duma Sessão da Tarde (cujo conceito, já discutimos algumas vezes, meio que se perdeu para os xóvens nos últimos anos, mas nem é este o ponto).
Mestres do Universo tá mais pra Willow – Na Terra da Magia do que pra Senhor dos Anéis. E não sei quanto a vocês, mas eu acho isso uma ÓTIMA notícia. 😀
É um filme para os fãs?
Depende. Sim, o visual dos personagens é definitivamente pensado com os bonequinhos em mente, diferente da versão quase BDSM do final dos anos 1980. Então, quem era de fato fanático vai dar aquela pirada com o Mandíbula, com o Homem-Fera, com o Mekaneck, o Aríete e o Fisto, isso só pra citar alguns.Sim, temos um bocado de easter eggs ao longo do filme, que os espectadores mais assíduos e atentos com certeza vão pescar, do tipo que não são essenciais para a trama, mas que obviamente foram colocados ali como um afago especial.
Mesmo as três cenas pós-créditos, que são tranquilamente fáceis de adivinhar quais são, caso você conheça de fato um tantinho da história (e da dinâmica) do He-Man, acabam funcionando como presentes pro adulto que se permite ser um pouco criança ao longo das mais de duas horas de projeção (mas que passam voando).
Mas o filme, digamos, não fica apenas e tão somente focado nisso, como uma muleta nostálgica. E essa é a graça da coisa. Porque ele brinca, em alguns momentos de forma delicada e em outros com um total de zero sutileza, com alguns dos memes mais reconhecidos a usar a cara do He-Man e seus amiguinhos multicoloridos nos últimos anos. E aí ele também se conecta com uma molecada mais jovem (spoiler: vi isso acontecer em tempo real na sessão em que estive, com pais que levaram filhos crianças/adolescentes).
Para mim, fã inveterado de música, Mestres do Universo entrega também uma degustação interessante. Porque é facilmente reconhecível o trabalho de guitarras de ninguém menos do que Brian May, o lorde das seis cordas do Queen, na trilha sonora incidental do filme (aqueles acordes são uma assinatura que dá pra ouvir de longe). Porque as músicas da trilha são escolhidas a dedo, de What’s Up, do 4-Non Blondes (numa cena genial), à utilização vibrante de Princes of The Universe, do Queen, uma das minhas canções favoritas do quarteto britânico.
E porque temos direito até a uma canção inédita dos ingleses do The Darkness nos créditos finais, numa pegada glam rock oitentista deliciosamente escandalosa.
Faltou só um metal espadinha daqueles BEEEEEEEEEEEEM grudentos aqui e ali mas, tudo bem, tá perdoado, seu He-Man. Por enquanto.

E tem, é claro, o Esqueleto.
Pois é, fiz questão de guardar um parágrafo especial pra falar DELE. O vilão do filme. E que, ao longo de toda a minha infância, sempre foi o meu antagonista favorito desta seara de produções oitentistas – superando inclusive o Vingador, de Caverna do Dragão. Porque confesso que, apesar de ter curtido MUITO o visual, fiquei com um medinho da performance do Jared Leto (bom ator, porém ser humano insuportável) carregar demais no lado mais sombrio e malvadão.
Mas, ao ler TUDO que escrevi sobre o filme até aqui, você já imagina que não aconteceu nada disso. UFA.
O Esqueleto, aliás, é a cereja do bolo de Mestres do Universo. Ele é mau apenas e tão somente por ser mau. Porque sim e pronto. Sem tentar construir uma justificativa num passado de sofrimento ou nada do tipo. Mau e é isso. Mas um mau absolutamente ridículo. Ele tem todos os trejeitos do Esqueleto do desenho animado, o vilão que consegue ser assustador e, no minuto seguinte, histriônico e imbecil. O vilão com a risada exagerada, que usa e abusa de adjetivos esquisitos de maneira pouco usual. O vilão cujos capangas não o entendem muito bem e ficam em dúvida se riem junto ou se ajoelham em subserviência.
E quando o Esqueleto começa a falar do corpo do He-Man, de suas coxas torneadas, bicho… É de ROLAR de rir.
E fica aqui o meu conselho, que acho que muita gente deve achar estranho, mas… VEJAM O ESQUELETO NA VERSÃO DUBLADA. Porque, apesar do Leto ter acertado na mosca com os gestos e movimentos do caveiroso, a voz ainda ficou um tanto gutural demais, talvez por conta de uma mão pesada na pós-produção. Mas na versão em português, Luiz Carlos Persy assume a voz que outrora foi do nosso saudoso Isaac Bardavid e dá um show. Sério. A voz fina e estridente, a risadinha maquiavélica e caricata, é tudo simplesmente brilhante. Coisa de gênio.
Sim, sim, Mestres do Universo é mesmo o Dungeons & Dragons de 2026. A gente só fica aqui é esperando que ele tenha um destino muito melhor nas bilheterias e possa, quem sabe, se tornar uma franquia. Ou no mínimo ganhar uma continuação tão divertida quanto. A gente merece.
E que Travis Knight finalmente encontre uma forma de colocar o Aquático e o Stratos no filme. Por favor.
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Fabian Fontoura
Cardim, eu estava acompanhando as notícias e trailers desse filme com um misto de ansiedade e receio, mas confesso que fiquei aliviado ao ler sua crítica. Obrigado! Claro que agora a ansiedade venceu!! Forte abraço!!