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Há 40 anos, seguimos perguntando quem vigia os vigilantes

Quatro décadas depois, a obra de Alan Moore e Dave Gibbons segue atualíssima, influenciando o retrato dos heróis uniformizados para o bem… e para o mal. Fomos buscar as opiniões de alguns especialistas sobre o tema.


Por THIAGO CARDIM

Há anos, uma frase virou padrão toda vez que se fala em Watchmen, a obra-prima de Alan Moore e Dave Gibbons que vira do avesso o arquétipo dos vigilantes uniformizados: “a história que mudou o jeito de contar histórias de super-heróis”. Sim, a declaração faz total sentido. Mas para ambos os lados. Porque mostrou que, sim, dá pra ser mais profundo ao narrar tramas estreladas por bonecos… mas também se tornou uma espécie de template para histórias do tipo, que necessariamente passaram a ter obrigatoriamente um tom sombrio para serem levadas “a sério” e consideradas “adultas”.

Uma benção e uma maldição, no fim.

No ano em que Watchmen completa quatro décadas, convidamos amigos especialistas em quadrinhos para falarem um pouco mais a respeito do impacto que a série teve sobre eles quando leram pela primeira vez e igualmente sobre o quanto ela ainda permanece sendo ao mesmo tempo relevante e também uma espécie livro de regras nos dias de hoje.



“Watchmen, como as principais obras de Alan Moore, foi uma experiência pessoal muito impactante, tanto visual quanto narrativamente. Mais do que uma história de super-heróis, Moore e Gibbons constroem uma obra quase megalomaníaca, que critica aspectos fundamentais da modernidade com precisão cirúrgica, desconstruindo o arquétipo do herói clássico e questionando os papéis da vigilância, do poder e da moralidade.

A série também introduziu ao mainstream abordagens e linguagens antes restritas aos quadrinhos alternativos, trazendo uma maturidade temática raramente vista no mercado comercial da época. Do ponto de vista artístico, acho que Dave Gibbons inovou a linguagem ao adotar uma grade incomum de nove quadros por página em quase toda a obra, criando uma simetria e uma geometria poderosas, quase obsessiva-compulsiva, e quando esse modelo é quebrado, o impacto narrativo é imediato e devastador.

Para mim, é um clássico absoluto dos quadrinhos que, mesmo quarenta anos após seu lançamento, continua, em tempos de ICE, inteligência artificial, hipervigilância e red pills, infelizmente mais atual do que nunca”

GABRIELA FRANCO, editora do GIBIZILLA



“Demorei para ler Watchmen completa. Quando saiu pela primeira vez no Brasil, o formato minissérie não cabia no meu bolso. Li a HQ completa quase 10 anos depois, quando ganhei um ‘encalhernado’ caindo aos pedaços. O atraso ou a má condição da edição não diminuíram o impacto, ainda que já estivesse acompanhando os desdobramentos no mercado (anti-heróis, violência, ‘realismo’) há tempos.

Foi até bom demorar mais para ler, pois era muito moleque quando da publicação original. Com uma mente mais madura, foi mais fácil entender as nuances e enxergar como Watchmen mudou o jogo, para o bem e para o mal, já que muitos autores tentaram pegar a onda sem realmente compreender a maxissérie.

Os anos se passaram e hoje, enxergando como jornalista e pesquisador da área, Watchmen se prova ainda mais importante e impactante. Junto de outras obras lançadas no mágico ano de 1986, ela moldou um mundo mais cínico, mas não menos criativo. Embora os anos 1990 pareçam ter refletido mais a influência negativa de Watchmen, o que veio depois fortaleceu o lado bom, com temas mais sérios sendo bem explorados no universo dos supers. Os personagens psicologicamente perturbados de Tom King, por exemplo, são praticamente herdeiros desse legado.

Enfim, Watchmen precisa ser relida de tempos em tempos, afinal, nós mudamos constantemente e enxergamos as coisas diferente. E pensar que mais novo achava chatas as partes do Cargueiro Negro…”

LEONARDO VICENTE, o Buddy do FALA, ANIMAL



“Muita gente da minha idade entendeu o que é desconstrução a partir de Watchmen.

Essa ideia de pegar um gênero, um tropo, e reverter algum elemento dele – o ponto de vista, a ética dos personagens, a intenção do autor – sempre existiu. Se algum dia alguém quis criar um herói – clássico mesmo – e depois outro alguém quis fazer dessa imagem uma imagem falha e quebrada, já dá pra chamar isso de desconstrução. O Alan Moore e o Dave Gibbons só pensaram em fazer isso com o Batman e o Super-Homem.

Isso é feito usando personagens grosseiramente humanos, cheios de desejos, ressentimento e orgulho. E mais do que só a psique humana e o mundo dos super-heróis, dentro da ‘historinha de hominho moralmente questionável’, o século 20 é desconstruído. Moore e Gibbons desmontam o mundo ocidental, ao qual nós, brasileiros pós-moderninhos, assistimos de camarote se desenvolver como filhote da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria. Dado que Alan Moore é um feiticeiro licenciado, a obra consegue ser instrumental para entender os anos 80, os anos 90 e até mesmo os anos 2000, mesmo tendo sido criada na época em que Osama Bin Laden ainda era aliado do ‘lado de cá’.

Veja que há discussões sobre política e religião (‘Eu disse que Deus é americano’) e até mesmo protofascistas redpill.

A História, podemos ver, é um relógio. Ela é circular. Os braços do relógio sempre encontram o 1 depois do 12. Encarando de longe, dá pra reconhecer o tempo como uma forma inteira, passado, presente e futuro, dentro de um ciclo que vai se repetir novamente.

Não que isso deixe menos assustadora a proximidade que os ponteiros teimam em ter da meia-noite”.

SILAS CHOSEN, editor da KAIJU

“Primeira vez que eu li Watchmen foi em 1999. Coloquei as mãos naquela edição com capa cartão publicada pela Abril e tinha duas certezas: eu já tinha lido aquilo e eu não tinha lido nada parecido.

Minha ‘experiência’ de leitor de gibi já tinha ultrapassado os dois dígitos, mas eu era uma criança na época do lançamento original (1989), mas era impossível crescer naquele mundo das HQs sem ler a respeito do Alan Moore ter escrito a HQ definitiva e saber tudo sobre ela. 

Em 1989 eu não estava preparado para Watchmen e em 1999 eu talvez também não estivesse. Nas outras tantas vezes que voltei praquelas 12 edições com o pequeno reloginho no cantinho chegando mais e mais perto da meia-noite, o que eu descobri era que eu sempre estive certo: Watchmen é a obra definitiva sobre super-heróis.

Dave Gibbons faz eles parecerem mais reais, sem os exageros e extravagâncias da DC e da Marvel. Mas Moore contava uma história que poderia estar acontecendo com aqueles caras fantasiados se tivessem ‘nascido’ no nosso mundo.

Rorschach será sempre o perturbado herói urbano incompreendido e meio fascista, o Comediante totalmente fascista. Senhor Manhattan será sempre um Deus tendo que lidar com sua crise existencial e seu amor mundano pela Espectral. Ozymandias é o vilão perfeito e o Coruja aquele cara meio perdido no meio desse Olimpo, um coadjuvante que entende seu papel.

Ainda não acabei de desvendar Watchmen e terei outras leituras para isso. Talvez em um próximo relato desses eu tenha mais material.  Talvez eu ainda não esteja preparado. Maldito Moore!”

VINICIUS VIEIRA, editor do CINEMAQUI



“Eu tive a experiência de ler Watchmen do jeito ‘certo’ – edição pós edição, devagarinho, saboreando capítulo a capítulo, descobrindo cada desdobramento sem ser metralhado por spoilers ou vídeos explicativos no YouTube. Como sempre fui grande apreciador dos vilões, era meio óbvio que o antagonista Ozymandias me cativasse de imediato, mais do que qualquer outro personagem, com sua expressão angelical que jamais entrega os seus planos e um estratagema final que, até hoje, muita gente defende que não dá muito pra discordar…

Virei fã do Moore de imediato mas, com o passar dos anos, conforme fui devorando outras de suas obras, muitas delas subiram no pódio pra mim, do Monstro do Pântano a V de Vingança, sem esquecer o brilhantismo de Miracleman. No entanto, sempre tive chances de reler a obra, agora no formatão encadernado, conforme os anos passaram. Veio o indefectível filme de Zack Snyder? Reli. Vieram os quadrinhos da série Antes de Watchmen? Reli. Veio a excelente série de TV de Damon Lindelof? Reli outra vez. E sempre gostando cada vez mais.

Tudo porque, embora outrora tivesse na minha mente adolescente que aquela era uma história de super-heróis que ensinava a contar histórias de super-heróis de fato maduras e adultas, conforme os anos se desenrolavam, entendi que o buraco era mais embaixo e passei a entender que aquela sequer era uma história sobre super-heróis. O ‘super’ é meio que pano de fundo. É uma trama sobre pessoas. Sobre pessoas por baixo de máscaras. Sobre seres humanos. Sobre embates políticos. Sobre extremistas. Sobre seres humanos que se tornam celebridades. Sobre seres humanos que entendem a si mesmo como deuses… ainda que alguns meio que o sejam mesmo.

Watchmen permanece atual porque, como eu mesmo disse no passado, sai a Guerra Fria de outrora, a ameaça nuclear entre EUA e Rússia, entram os racistas, neonazistas e fascistas de agora. É impressionante como a trama sobre vigilantes uniformizados de Moore ressoa atual com nosso mundo de redes sociais, de influenciadores, de bilionários homicidas… E é impressionante como tem gente que AINDA entende o recado todo ao contrário”

THIAGO CARDIM, editor do GIBIZILLA



Watchmen chegou relativamente tarde na minha experiência como leitor, mas o impacto foi imediato, especialmente no quarto capítulo focado no Doutor Manhattan, intitulado Watchmaker. A genialidade desse trecho reside em sua estrutura narrativa única, que consegue transferir para quem lê a percepção de simultaneidade temporal experimentada pelo personagem. Além disso, o título carrega um jogo de palavras intraduzível para o português: a palavra evoca tanto o ‘relojoeiro’ (a profissão do pai de Jon Osterman) quanto o ‘fabricante de relógios/vigias’ (watchmaker), conversando diretamente com o título da obra (Watchmen, vigilantes).

Watchmen está longe de ser uma história de super-heróis convencional; na verdade, trata-se de uma narrativa com super-heróis, utilizada pelo roteirista Alan Moore como uma ferramenta de crítica ao próprio gênero. Ao desconstruir o arquétipo dos vigilantes mascarados (expondo-os como figuras psicologicamente instáveis, politicamente perigosas e moralmente ambíguas), Moore questionou a própria lógica ingênua do gênero. Ironicamente, a crítica acabou moldando o futuro: o tom sombrio, violento e pessimista foi massivamente copiado e assimilado pelo mercado. Essa abordagem moldou a estética das décadas seguintes e foi um dos marcos inaugurais da chamada Era de Ferro dos quadrinhos de super-herói, um período marcado pelo cinismo onde a complexidade psicológica proposta por Moore foi frequentemente reduzida a apenas violência explícita”.

BRUNO ANDREOTTI, editor do QUADRINHEIROS



“Ler Watchmen pela primeira vez foi tipo tomar um soco na cara e descobrir que você gosta da dor e de ver seu sangue escorrendo dos lábios. Não era um quadrinho, era um tratado filosófico. Rorschach, Comediante, Dr. Manhattan não eram heróis, eram espelhos sujos da nossa alma e da hipocrisia. Moore e Gibbons me ensinaram que justiça cega é piada, poder absoluto só cansa, e o único herói que presta é o que morre ou desiste. Nunca mais li nada do mesmo jeito.

Mas Watchmen também fez mal aos quadrinhos. Provou que o sombrio e cínico podia ser genial, e virou camisa de força. Durante anos, editoras e roteiristas copiaram a fórmula sem alma. O realista deixou de ser exceção, virou desculpa pra qualquer coisa sombria e seus excessos serem chamados de maduros. Só que também gerou uma contracorrente linda. Enquanto uns copiavam o cinismo, Jeff Smith com Bone mostrou que uma história simples e sem vergonha de ser infantil podia ser profunda. Simonson provou que o épico pode ser lúdico e brilhante. Mark Waid, em O Reino do Amanhã, abraçou a escuridão mas com coração, escrevendo sobre redenção, não desespero.

Hoje, amo e odeio Watchmen. Watchmen foi o fim de uma era e o início de muitas outras. Me faz abraçar e rejeitar seus muitos “filhos”: uns com o mesmo DNA, outros só parecidos, e aqueles raros, bem raros, que herdaram pedaços da verdadeira alma e entendem sua mãe, mesmo que as vezes eles mesmo se revoltem contra ela…”

PHILLYP LEROY, editor do HATERZASSO



“Quando eu li Watchmen pela primeira vez foi uma coisa tão contagiante, daquelas que você não consegue respirar enquanto você está entendendo cada cena, as mudanças de quadro ali, elas são simplesmente espetaculares… Eu acho a arte fenomenal, mas o que agarra ali é quando você começa a ler aquele texto do Moore, é tudo muito bem escrito, não à toa que o bruxo é maravilhoso, rs…

A gente se apaixona mesmo, quando você começa a ler, ele vai te entretendo, você não quer largar, e você começa a ver distribuição da arte e você começa a ver aqueles closes de página e você vai entendendo aqueles oito quadros… Sabe, é Dave Gibbons arrasando!

É isso: você não consegue largar. Então, eu lembro que eu fui lendo e lendo, me apaixonei pelo Rorschach conforme fui lendo aqueles entre textos, aquilo é fundamental pra quem nunca leu, aquilo tem que ser lido, deixar a preguiça de lado e aprender a ler coisa boa.

Aquilo é muito maravilhoso e ao mesmo tempo é apaixonante porque é um soco no estômago, mas é um soco bem dado, o Alan Moore sabe muito bem o que ele está fazendo, ele conduz aquilo de uma forma simplesmente bárbara.

Eu lembro que minha cara caiu total e completamente naquele A Terrível Simetria, quando você chega na metade do quadrinho, a simetria entre as cenas, a quantidade de quadros, tudo muda e tem um motivo… Acho uma experiência muito incrível ler a obra completa, eu já reli em diversas fases da vida: quando a gente avança na idade, você relê aquilo de outra maneira e enxerga coisas que você nunca tinha visto. Então você se atenta a outras coisas e tem hora que dá vontade de ser o Dr. Manhattan e sentar um pouquinho na Lua, longe de tudo, respirar, olhar de fora…

Pena que a gente não é ele, né?”

CAROL PIMENTEL, do STUDIO PATINHAS



“Existem obras que mudam junto com o leitor, e para mim Watchmen sempre foi assim. Li pela primeira vez nas 12 edições publicadas pela Abril e, naquela época, o impacto vinha principalmente da violência, da estrutura narrativa e da sensação de estar lendo algo muito diferente dos quadrinhos de super-heróis tradicionais.

Anos depois, reli a obra na edição definitiva e percebi que Watchmen era muito mais do que uma desconstrução dos heróis. A HQ falava sobre poder, paranoia, política, medo e sobre como as pessoas são profundamente contraditórias. A história parecia mais amarga e mais real conforme eu acumulava experiências de vida.

Recentemente, revisitei a obra na edição DC de Bolso e, curiosamente, foi minha leitura favorita. Existe algo no formato compacto que torna a experiência mais íntima e confortável. Para mim, acabou se tornando a edição definitiva de Watchmen.

Hoje vejo Watchmen como uma HQ que ganha novos significados à medida que amadurecemos e desenvolvemos o inevitável cinismo que vem com a vida adulta. Quanto mais entendemos o mundo, mais entendemos Watchmen.

Também gosto bastante da adaptação dirigida por Zack Snyder. Mesmo com um final diferente da HQ, considero um filme muito competente, visualmente marcante e com uma trilha sonora excelente.

Poucas obras conseguem permanecer relevantes depois de tantas releituras. Watchmen não apenas permanece: ela cresce. Por isso é o clássico que é”

RICARDO SEELIG, da COLLECTORS QUADRINHOS



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