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As camadas de metalinguagem involuntária em Coyote vs ACME

Mais do que um filme dentro do filme, a história desta produção “maldita” transforma imediatamente a Warner numa ACME da vida real


Por THIAGO CARDIM


A história por trás da produção do filme Coyote vs ACME vem sendo contada sem parar ao longo dos últimos dias, conforme a estreia oficial se aproximava: Ian Frazier escreveu, em 1990, um artigo humorístico pra revista The New Yorker chamado Coyote v. Acme, no qual Wile E. Coyote contrata um advogado pra processar a Corporação ACME por lhe vender repetidamente produtos defeituosos.

A Scott Rudin Productions comprou os direitos do artigo pra transformar em filme em 1998, mas não teve permissão oficial da Warner. Os direitos então foram revertidos ao dono em 2006 – e pouco depois, em 2015, James Gunn em pessoa foi lá oferecer o projeto pra Warner. Bingo. Conseguiu. Entre idas e vindas de roteiristas, depois que o filme que mistura live-action e animação foi oficialmente anunciado em 2018, acabou que Gunn ajudou a escrever a história (junto com Samy Burch e Jeremy Slater). Tudo certo, tudo caminhando, filmagens rolaram em 2022…

Mas eis que, então, o filme – previsto pra ser lançado em 2023 – foi ENGAVETADO.

E gente, apesar de casos como este e como o do filme da Batgirl terem ganhado visibilidade pela fama dos personagens, é importante reforçar que este é um expediente absolutamente comum não apenas na Warner, mas em uma série de outros estúdios. Eles financiam tudo, depois assistem à versão final, acham que não ficou bom e decidem simplesmente não lançar. Ponto final. O filme vira, como aconteceu com Coyote vs ACME, uma linha numa planilha de Excel e se torna abatimento fiscal no final do ano.

Neste caso, no entanto, a repercussão pública foi muito ruim, já que se tratava de uma trama com uma franquia de personagens que mexem com os brios nostálgicos de diferentes gerações de fãs. Então, a Warner deu dois passos atrás, reverteu a decisão e liberou os produtores pra negociar a película com quem quisessem no mercado. No fim do dia, quem topou desembolsar US$ 50 milhões pelo filme foi a pequena distribuidora independente Ketchup Entertainment. E o resto, bom, é o que estamos vendo nos cinemas agora.

No caso, com Coyote vs ACME arrecadando US$ 15,4 milhões em seu primeiro fim de semana de bilheteria nos Estados Unidos, ficando atrás APENAS do blockbuster Homem-Aranha: Um Novo Dia.

Talvez a Warner não tenha tomado a melhor decisão do mundo ao decidir engavetar o filme, não?

¯ \ _ (ツ) _ / ¯

Quando a ACME se torna… a Warner

Antes de qualquer coisa, é importante que se diga que, apesar de misturar humanos e personagens de desenhos animados, Coyote vs ACME não é (e claramente nem ambiciona ser) Uma Cilada para Roger Rabbit. E tampouco Space Jam. A história é claramente outra e, graças aos céus, está longe de ser um mero exercício de apelo à nostalgia. Porque, tá bom, o título pode girar em torno do Coyote mas, claro, numa história envolvendo os Looney Tunes, é meio que de se esperar que o restante da trupe brilhe da mesma forma.

Então… não. E AINDA BEM.

Pernalonga, Patolino, Gaguinho, Hortelino, Taz, Piu-Piu, Frajola… todos eles são apenas e tão somente meros coadjuvantes. Porque, sim, este é um filme sobre o Coyote. Um personagem cuja história sempre foi absolutamente simples: ele elabora os planos mais bizarros e mirabolantes pra poder enfim jantar o Papa-Léguas, sua suprema obsessão de vida. E é isso. Acabou aí. Mas a grande graça de Coyote vs ACME é ajudar a dar um tanto mais de camadas não só a este Coyote, uma criatura que não fala mas cujos olhos esbugalhados são expressivos até dizer chega, só que também à sua relação com o pássaro superveloz. Quando a gente entende o ponto, numa das melhores cenas do filme, tudo se amarra de um jeito que chega a ser surpreendemente emocionante apesar dos risos inevitáveis.   

Além disso, a interação entre humanos e cartoons não é o tema central da história. Eles já vivem juntos na cidade de Albuquerque, no Novo México, e pronto, não há qualquer necessidade de explicação adicional a este respeito, criar algum tipo de origem pregressa ou algo do tipo. Nops. Aceite você o conceito e sigamos em frente.

Este é sim um filme de tribunal, um pequeno Davi peludo contra um imenso conglomerado Golias corporativo. Mas também É SIM parte desenho animado. Portanto, a comédia física e pastelão tem seu espaço na história, com saltos exagerados, pulos inacreditáveis, trombadas espetaculares e, em se tratando do Coyote, um sem número de explosões que deixam embasbacados tanto humanos quanto os antropomórficos seres animados.

Só que o humor cheio de cores e bigornas não apaga, mas assim, nem de longe, a conexão com a vida real que Coyote vs ACME consegue trazer desde o seu primeiríssimo minuto. Porque, afinal, é praticamente impossível não se identificar e não torcer pelo Coyote, a criatura que traz a sua infinita teimosia e insistência em seguir tentando, tentando, tentando e tentando MAIS UMA VEZ (mesmo que a sensação seja a de mais um fracasso iminente) para os tribunais, acompanhado por um advogado preguiçoso que, até aquele momento, se contentava em fazer pequenos acordos simples de resolver para seus clientes animados.

Ele é só uma criatura que mora numa caverna lá no meio do deserto, um sujeito simples, de gostos mais simples ainda, ainda que seja uma espécie de gênio incompreendido. E sim, ele quer os seus direitos diante de uma gigantesca empresa multimilionária, sem se satisfazer com migalhas, e que pouco a pouco vai fazendo a tal companhia se sentir incomodada por este pentelho e resolve pisoteá-lo com cada vez mais violência… ainda que isso só ajude a abrir as suas portas e revelar, inadvertidamente, seus obscuros segredos.

Dizer que é um filme “anticapitalista” é, de fato, um baita dum exagero diante de uma história estrelada por criaturas que são vendidas em qualquer esquina como bichos de pelúcia, camisetas, canecas, mochilas, bonés, lancheiras e por aí vai. Mas ver a persistência do Coyote contra a ACME, algo tão grande quanto as suas repetidas tentativas de capturar o Papa-Léguas, faz qualquer pessoa comum, o simples assalariado CLT que gastou mais do que gostaria num par de ingressos e num saco de pipocas, se ver um tanto Coyote.

Um Coyote que, ora ora, está enfrentando aqui a própria Warner. Porque, sejamos justos, a ironia é claríssima. A ACME é, no fim, a empresa que faz um monte de produtos para a classe dos desenhos animados… e a gente descobre, em certo momento, que ela tá é cagando e andando pros desenhos. E isso inclui, vejam vocês, não só o líder de seu milionário batalhão de advogados, vivido por John Cena, mas também o CEO da empresa… no caso, o Frangolino, que TAMBÉM é um desenho animado!

Há quem diga, até, que o enorme galo de terno é uma alusão claríssima a David Zaslav, o atual diretor executivo e presidente da Warner Bros. Discovery, que se pavoneia por aí enquanto toma as decisões mais estúpidas possíveis enquanto seu séquito de seguidores aplaude e pede bis.

A empresa que vivia PARA e PELOS desenhos, pois então, se transforma em sua maior inimiga. E eis que o barulho de um bando de pessoas os faz voltar atrás em uma das tais decisões estúpidas de seu corpo de diretores. E os pequenos resolvem enfrentá-los – representados por um escritório de advocacia cujo nome é Avery, Jones & Maltese. No caso, os sobrenomes de três subestimados veteranos do mundo da animação: o mestre cartunista Tex Avery (criador do Pernalonga e do Patolino), o animador e diretor Chuck Jones (criador do Coyote e do Papa-Léguas) e o ator/roteirista Michael Maltese.

Isso aí é mais do que metalinguagem. É meio que um soco na cara, direto e reto.

Mas, filosofia e luta de classes à parte, no fim Coyote vs ACME é um filme leve, gostoso e divertido, uma pequena carta de amor pra quem ama animação clássica e um bálsamo gostosinho pra quem ainda insiste em seguir correndo atrás e insistindo nos seus sonhos, mesmo com todas as tortas que o capitalismo insiste em nos enfiar na cara.

Só por isso, já vale demais a pena.




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