Tudo o que a Capricho não te contou
Refletindo sobre suas memórias de adolescente, a jornalista Sophie Gilbert decidiu escrever “Garota Sobre Garota: Como a Cultura Pop colocou uma geração de mulheres contra si mesma”.
Por GABRIELA FRANCO
Quem foi jovem no Brasil no final dos anos 1990 se lembra de tudo. Aos domingos, as mulheres de biquíni se esfregavam em homens famosos na Banheira do Gugu à procura de sabonetes. Tiazinha e Feiticeira, de máscara e preferencialmente caladas, eram as mulheres mais desejadas do país. Nas festas de escola, crianças de oito anos desciam na boquinha da garrafa enquanto os adultos aplaudiam – e Xuxa chamava uma cantora pra entoar “Don’t wanna a short dick man” numa manhã qualquer.
Ninguém acusava tudo aquilo de nada. Era só a TV aberta – afinal, poucos de nós tínhamos aquela tal de TV a cabo e o streaming era um mero sonho – e era o que invadia nossas vidas, todos os dias.
Apesar de britânica, a jornalista Sophie Gilbert também tem aquelas lembranças que são tipicamente dela. E foi justamente refletindo sobre elas que decidiu escrever Garota Sobre Garota: Como a Cultura Pop colocou uma geração de mulheres contra si mesma.

A crítica da revista americana The Atlantic, finalista do Pulitzer de crítica em 2022 e vencedora do National Magazine Award em 2024, crescida no Reino Unido, tinha 16 anos em 1999. E relata que três imagens resumiam o que significava ser menina naquele fim de milênio: Britney Spears de sutiã na capa da Rolling Stone, deitada numa cama cor-de-rosa e abraçada a um Teletubbie.
O corpo nu da apresentadora infantil britânica Gail Porter projetado, em 18 metros de altura, na fachada do Parlamento britânico, SEM SEU CONSENTIMENTO, para promover uma revista masculina. E o filme Beleza Americana, sobre um homem de meia-idade obcecado pela amiga adolescente da filha, indicando a decadência do homem médio estadunidense e levando o Oscar de melhor filme daquele ano.
A lição que a jovem Gilbert tirou disso tudo foi simples na época: o único poder que uma mulher podia ter era o sexual, e ele durava enquanto durasse sua juventude. O Brasil tem contextos diferentes, mas nessa época, digamos que a tendência era essa por aqui também (ou talvez ainda seja…).
Quando tudo é GIRL POWER…
Garota sobre garota é o esforço da autora para entender como uma geração inteira aprendeu essa lição tão bem. Ela passa pela música, pelo cinema, pelos reality shows, pelas revistas, pelos tabloides e pela moda para mostrar como o pós-feminismo dos anos 1990 transformou uma luta coletiva de décadas anteriores em escolhas individuais e depois em produto. “Empoderamento” virou a palavra que vendia tudo: sexo casual, consumo sem culpa, feminilidade exagerada. De fio-dental à lipoaspiração, era tudo GIRL POWER!
Segundo a análise de Gilbert, o fio condutor que atravessava todas essas áreas era a pornografia e o male-gaze, aquilo que parecia apelativo ao olhar masculino. A exploração sexual do corpo da mulher deixou de ser um segmento e passou a ser a gramática de toda uma cultura de massa. O título do livro, ela conta, começou como piada, mas conforme a pesquisa avançava, foi perdendo a graça e acabou virando uma dura constatação.
Os melhores (piores, no caso) momentos do livro estão nos casos concretos, e dois deles são de gelar o sangue. O primeiro, e talvez o mais forte, seja o do programa The Swan, reality da Fox exibido em 2004. O programa selecionava mulheres profundamente infelizes com a própria aparência, afastava-as dos filhos por meses e as submetia a uma batelada de procedimentos estéticos: implantes, lipo, rinoplastia, lentes nos dentes, emagrecimento, tudo. Glow up geral, como dizem hoje.
Durante todo esse tempo elas ficavam sem se olhar no espelho, para que a revelação final rendesse reações impactantes o suficiente para segurar a audiência na TV. Algumas saíam do programa tão diferentes que os próprios filhos não as reconheciam. Depois de tudo isso, elas ainda disputavam um concurso de beleza em que a maioria era considerada insuficientemente bela pelos jurados. O Brasil aparece neste trecho, inclusive. O formato, conta Gilbert, nasceu para o público latino, que é fã de um bisturi, e coloca o país entre os campeões mundiais de cirurgia plástica, um lugar onde a beleza é tratada quase como um direito, ligado a emprego, ascensão social e felicidade. E, completa a autora, à branquitude.
O outro episódio pode parecer mais sutil, mas não menos cruel e vale a pena ser citado. Gilbert revê a cena do filme adolescente American Pie em que o personagem Jim (Jason Biggs) transmite pela webcam a aluna de intercâmbio Nadia (Shannon Elizabeth) se despindo no quarto dele, sem que ela saiba, obviamente. Um erro no endereço de e-mail faz o vídeo chegar a toda a escola.

A família que a hospedava manda Nadia embora, e ela some do filme. Jim nem leva bronca, porque, em tese, o próprio vexame já bastaria como castigo. Mas é óbvio que não, já que ele fica com fama de “conquistador” e a menina de “vulgar”. A autora faz um paralelo entre essa cena e o caso da atriz Pamela Anderson.
Em 1995, um prestador de serviços demitido por Pamela e seu então marido, Tommy Lee (baterista da banda Mötley Crüe), invadiu a casa do casal em Malibu e roubou um cofre. Dentro dele havia um vídeo sexual caseiro dos dois em sua lua de mel. O homem, pra se vingar, copiou o conteúdo e resolveu lucrar com ele. A fita circulou primeiro em cópias piratas de VHS. Dois anos depois, em 97, chegou à internet, que ainda engatinhava, e se tornou um dos primeiros vídeos virais da história, antes mesmo de existir a palavra “viral”.
Desgastado por anos de processos, o casal acabou assinando um acordo que, segundo eles, limitava a exibição à internet. A coisa foi tão grande que a fita foi parar na sessão de filmes pornô de locadoras do mundo inteiro. Estima-se que o vídeo tenha rendido mais de 100 milhões de dólares. Pamela diz que não recebeu um centavo e que nunca o assistiu.
O livro lembra o argumento usado contra Pamela Anderson na Justiça: como já tinha posado para a Playboy, ela não podia se colocar no papel de “vítima”. “Foi assim”, comenta Gilbert, “que uma das mulheres mais famosas do mundo perdeu o direito a ter uma vida sexual privada”. Criou-se ali a lógica que, anos depois, ganharia o nome de revenge porn. Se uma mulher já havia mostrado o seu corpo uma vez, qualquer um se sentia no direito de exibi-lo de novo, em qualquer lugar, para qualquer um. O Brasil conhece bem esse roteiro: foi preciso que fotos íntimas da atriz Carolina Dieckmann vazassem, em 2012, para que o país ganhasse uma lei contra a invasão de dispositivos eletrônicos.
Quando analisa esses casos concretos, o livro é afiado e às vezes brilhante. O problema está no caminho entre um caso e outro.
Pois é, tem um “mas”…
Para quem atravessou os anos 1990 e 2000 já adulta, como eu, boa parte é uma recapitulação do que a gente viu ao vivo: Paris Hilton gastando dinheiro, Britney raspando a cabeça, Sex and the City, as Kardashians, etc.
A autora organiza tudo em ordem cronológica, numa espécie de linha do tempo e com cuidado, mas nem sempre acrescenta alguma coisa às lembranças e isso pode acabar tornando a experiência entediante.
Às vezes, a leitura parece a de um álbum de fotos comentado, e a tese de fundo, que é válida e importante, quando repetida capítulo após capítulo, perde força. É possível que leitoras mais novas, que conhecem essa época apenas pelo TikTok e pela estética Y2K, recebam o livro como uma revelação. Para quem viveu a coisa, fica cansativo.
A edição brasileira piora bastante esse cansaço. A tradução é travada: as frases seguem a ordem sintática do inglês e não soam como português, e em vários momentos dá para “enxergar” o original por baixo do texto. O resultado é um português correto, mas que não flui. Falta ritmo e sobra estrutura estrangeira, e o leitor precisa reorganizar mentalmente frases que deveriam chegar prontas. Num ensaio que depende tanto do tom, do sarcasmo e de frases de efeito (e a prosa de Gilbert no original é ágil e cheia de ironia), isso custa caro. Em vários trechos a gente percebe que está lendo uma boa crítica cultural sem conseguir aproveitá-la.

Mas o que o livro tem a dizer sobre o feminismo de hoje? A análise de Gilbert é que o progresso das mulheres não anda em linha reta. Ela recorre a Susan Faludi, autora de Backlash, para lembrar que o ódio ao feminismo funciona como uma infecção crônica: some por um tempo e volta sempre que as mulheres parecem estar avançando demais.
O #MeToo foi seguido pela derrubada do direito ao aborto nos Estados Unidos. Hillary Clinton e Kamala Harris perderam para um ex-apresentador de reality show (que segue fazendo estrago). Entre os homens americanos de 18 a 29 anos, houve uma virada expressiva à direita desde 2020, embalada por podcasters, streamers e influenciadores que dizem que as tradwives são direito divino para homens ALFA.
Para Gilbert, nada disso foi ao acaso. A cultura pop costuma antecipar o lugar que as mulheres vão ocupar na vida real, e por décadas ensinou que mulher poderosa era a que procurava sabonete na banheira do Gugu; que se fosse para ser triste, era melhor ser triste em Paris ou seminua numa capa de revista. A mensagem continua a mesma de 25 anos atrás, escreve a autora: poder é sexo, e sexo é poder. O detalhe é que esse poder nunca foi real.
Logo na introdução, Gilbert cita um estudo de 2013 segundo o qual, quanto mais uma mulher se enxerga como objeto, menos disposta ela fica a se engajar em ativismo e em lutas por justiça social. Uma geração que aprendeu a se olhar no espelho o tempo todo, teve pouco tempo para olhar à sua volta.
A saída que Gilbert propõe é resignificar o que significa poder para uma mulher. Ela termina otimista: as meninas de hoje, que assistem às tradwives e às influenciadoras de skincare de 12 anos, têm uma linguagem e um ceticismo que a geração dela nem sonhava ter. Por aqui, quem viu o #MeuPrimeiroAssédio e a Primavera Feminista em 2015 sabe que ela pode ter razão.
Só que quem viveu os anos 2000 também aprendeu a desconfiar de finais felizes. Garota sobre garota é um documento necessário, embora menos surpreendente do que promete, e merecia uma tradução à altura.
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