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VisionQuest e a redenção (?) da Era de Ultron

Quatro episódios depois, a série que conclui a trilogia WandaVision não apenas encerra um ciclo para estes personagens, como dá uma nova chance para outros… incluindo um certo vilão robótico


Por THIAGO CARDIM


Eu nunca escondi de absolutamente NINGUÉM o quanto eu detesto Vingadores: Era de Ultron. Sim, sim, o verbo é “detestar” mesmo, minha gente. Sempre que alguém me pedia pra montar um ranking dos filmes dos MCU, a produção de 2015, a segunda dirigida por Joss Whedon, tinha (e, sejamos honestos, AINDA TEM) lugar cativo no último lugar da minha lista. Sim, sim, isso mesmo. Bem depois dos primeiros filmes do Thor, do Quantumania e daquele HORROROSO Multiverso da Loucura.

E a grande pena disso tudo é justamente o fato de que estamos falando de um filme cujo antagonista é um dos vilões mais interessantes dos Vingadores, o fascista cibernético Ultron, interpretado pelo sempre ótimo James Spader. Quando eu digo “pena”, é porque este Ultron do filme tem até uma boa dose da teatralidade exagerada que se espera de um vilão de gibi… mas não passa muito disso. Não é de fato ameaçador, maquiavélico, calculista. Falta muito pra ser o que muito poderia. E, vamos combinar, aquele visual com a boquinha, é feioso DEMAIS.

Portanto, é de fato um alento ver como o Ultron de James Spader, ainda que bem mais com seu visual quase Karl Marx, esteja roubando a cena em VisionQuest, nova série do MCU para o Disney+ e que, de alguma forma, encerra a ótima trilogia familiar formada por WandaVision e Agatha Desde Sempre. Já vimos os quatro primeiros episódios da série e já dá pra dizer que é um dos lançamentos mais interessante da Casa das Ideias nos últimos anos, incluindo telinhas e telonas.

E sim, muito de seu sucesso se deve a um Ultron quase sedutor, manipulador, que pode parecer divertido em dado momento, familiar, meio que um paizão em quem se pode confiar… mas que, na hora certa, escancara os dentes e mostra as garras de fato.


Numa série estrelada por IAs, o foco é a humanidade

O Visão Branco (Paul Bettany), criado a partir dos destroços do Visão original para tentar deter a manipulação mágica de Wanda na pequena cidade de Westview, vive escondido, tentando entender um quinhão das memórias de seu antecessor, que insistem em povoar a sua mente. Uma mente que, aliás, ele divide (numa casa virtual, feita de pixels, mas que lembra BASTANTE a residência suburbana da Família Visão na HQ de Tom King) com outras inteligências artificiais criadas por Tony Stark ao longo destes muitos anos de MCU: Jarvis, Sexta-Feira (Friday), Edith, Dum-E e U… Além, obviamente, de seu “pai”, Ultron, em tese mantido encarcerado no porão. A ameaça criada por Tony Stark e Bruce Banner e partir da qual a dupla de cientistas geniais criou o próprio Visão.

A ameaça que, aqui, então, tem reais contornos de ameaça – especialmente quando se aproxima, sorrateira, e tenta fazer este “novo” Visão entender um pouco mais não apenas sobre a humanidade com a qual o sintozóide se vê obrigado a lidar, mas também os traços de humanidade que o Visão de rosto vermelho passou a manifestar de maneira tão surpreendente. O quanto a própria magia de Wanda (cuja mente analítica e ultracientífica deste Visão tem uma enorme dificuldade de entender) teria relação com isso? Ou o quanto isso é, de fato, reflexo das consciências humanas nas quais ele e suas irmãs-IAs foram baseados?

E o quanto este Visão mais robótico está preparado para lidar com o fato de que, de alguma forma, ele tem um filho (na verdade, são dois, mas vamos uma coisa de cada vez)? Porque, sim, entre a caçada do igualmente problemático mercenário Paladino, que trabalha para um cliente misterioso, e a aparição de uma outra (no feminino mesmo) sintozóide em sua vida, Visão vai se deparar com um garoto de nome Thomas (Ruaridh Mollica) também lidando com seus próprios problemas de memórias surgidas do nada e assombrando a sua mente.


Duas pequenas correções na mitologia robótica do MCU

VisionQuest ainda carrega consigo uma importante missão, daquelas típicas de um bom gibi de hominho: um retcon. Ou dois. Ou algo próximo disso. Porque, vejam só, descobrimos que a tecnologia das IAs do Tony veio de uma OUTRA empresa adquirida pelas Indústrias Stark – e que vai ter um papel central de uma das subtramas da nova série.

Além disso, nós TAMBÉM descobrimos que a tecnologia de desenvolvimento dos sintozóides partiu de um homem conhecido como Phineas Horton, que criou um primeiro homem-artificial batizado de J.I.M., uma espécie de antepassado do Visão cujo mal funcionamento fez com que ele se consumisse em chamas. Se você lê HQs da Marvel desde priscas eras, deve ter sacado que este J.I.M. se trata de Jim Hammond, ninguém menos do que o androide conhecido como o Tocha Humana original (apesar do nome, nenhuma relação com o integrante do Quarteto Fantástico).

Ou seja, da mesma forma que tanto WandaVision quanto Agatha… e mesmo Multiverso da Loucura, de alguma forma ajudaram a construir um pouco mais do lado “místico” do MCU, da mesma forma que os Guardiões da Galáxia fizeram com a faceta cósmica deste universo expandido, digamos que VisionQuest ajuda a dar mais camadas ao mundinho “científico” do estúdio, abrindo ainda mais as portas para uma série de personagens obscuros que porventura eles resolvam transformar em versões live-action – duas palavras pra jogar pro universo: HOMEM-MÁQUINA.

(eu poderia dizer ainda que, com o Doutor Destino dando as caras no MCU em dezembro, faz sentido termos tanto o lado científico quanto o lado místico devidamente apresentados para o público, mas aí seria pensar que Kevin Feige, nosso Zé do Boné, tem realmente as coisas planejadas a longo prazo… o que nem sempre é uma verdade, hahahaha)


Por fim…

…acho que VisionQuest é uma série que, sim, encerra bem uma história que começou a ser contada lá atrás e, sim, se conecta bem ao MCU de maneira mais ampla. Beleza. Mas ela acerta PRA MIM principalmente por, pelo menos até agora, funcionar como uma história que poderia tranquilamente ser vista por si mesma, começo-meio-fim. Sem muletas.

Porque TUDO que você precisa saber, está ali. Tudo que é necessário ter como informação adicional está ali contido e apresentado de maneira rápida e resumida. Eles fazem um flashback rapidinho e tá tudo certo, seguimos o baile. Como deveria ser SEMPRE. Como eu sempre fiz questão de defender neste rolê aí de universos expandidos.

Essa é uma história sobre pessoas, do jeitinho que eu gosto. Do jeito que sempre acho que tem que ser quando falamos a respeito de superseres – mais do que lutinhas com efeitos especiais (que, tá bom, existem, são legais, mas peralá), a ideia aqui é mostrar quem está por trás dos uniformes e capas. Sobre os sentimentos que existem e fazem o mundo valer a pena quando a gente tira da frente toda a racionalidade, quando a gente começa a ouvir e deixar falar a voz do coração (isso é letra de música, hein?).  

No subtexto de uma série sobre IAs tentando entender a humanidade, está a compreensão de que a humanidade, mesmo com seus muitos defeitos, mesmo imperfeita, é muito mais interessante do que um monte de máquinas entregando códigos em linha de produção. E na análise das imprecisas pinceladas de um quadro, ainda que de maneira perturbada, parece que o Ultron é justamente aquele que vai fazer o Visão Branco sacar como o coração do Visão Vermelho começou a bater.

(só este parágrafo já torna VisionQuest pelo menos 200% mais interessante do que Era de Ultron, mas tudo bem)

Eu ainda acho, para ser completamente honesto, que VisionQuest vai ser ENFIM o momento que entenderemos, agora no MCU, que até um androide pode chorar.


Lembrando que…

VisionQuest tem novos episódios no Disney+ todas as terças-feiras, a partir das 22h.

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