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Os 85 anos do Espírito que Anda

A criação máxima de Lee Falk, aquele que é considerado o primeiro super-herói uniformizado da história dos gibis, tem um legado que até hoje atravessa gerações!

Por THIAGO CARDIM

“Juro que dedicarei toda a minha vida à tarefa de destruir a pirataria, a ganância, a crueldade e a injustiça. E meus filhos e os filhos de meus filhos me perpetuarão”
— Juramento da Caveira

Quando vamos falar de super-heróis nos gibis, historicamente somos levados a pensar que tudo começou entre os anos de 1938 e 1939, quando surgiram respectivamente o Superman e o Batman, grandes paizões dos uniformes colantes e multicoloridos. Mas calma, minha gente. Porque a luta contra as forças do mal surgiu dois anos antes, quando um defensor da verdade e da justiça teve sua primeira tira de jornal publicada, lá em 17 de fevereiro de 1936. Nesta quarta (17), portanto, ele completou belíssimos 85 anos. Estamos falando do Fantasma, o Espírito que Anda.

Criação do quadrinista americano Lee Falk, o Fantasma foi na verdade o seu segundo sucesso. Antes mesmo dos gibis serem estas revistinhas às quais estamos acostumados, os personagens eram mesmo consumidos por crianças e adolescentes nos jornais – e no começo do século XX, com a com a criação dos chamados syndicates, empresas que licenciavam este material em nome dos artistas, as tiras se popularizaram ainda mais, com títulos de sucesso sendo publicados em diversos jornais pelos EUA. Falk já tinha acertado na mosca com o mágico Mandrake, produto da King Features Syndicate, a maior delas. Mas foi quando ele tornou realidade um pouco de sua obsessão pelo Zorro, é que nasceria o Fantasma.

Tal qual o Batman, ele não tinha superpoderes. Na verdade, ele dependia apenas de sua força, seu treinamento, de sua inteligência… e do mito da imortalidade, claro, que ajudava a apavorar os criminosos. Além de usar o uniforme coladinho antes do egresso de Krypton ou mesmo do Morcegão de Gotham City, o Fantasma também foi o primeiro a usar aquela máscara sem pupilas visíveis, que também se tornaria sinônimo dos supers.

No livro Superhero : The Secret Origin of a Genre, o historiador especializado em quadrinhos Peter Coogan descreve o Fantasma como sendo uma espécie de “figura de transição”, porque carrega uma mistura de características dos chamados heróis pulp, como o Sombra e Doc Savage, com pitadas dos defensores brancos das selvas como o Tarzan, mas já antecipando o que a gente veria na chamada Era de Ouro alguns anos depois. No mesmo ano de seu surgimento, a Whitman Publishing Company publicou a primeira adaptação do personagem, na forma de um pulp ilustrado. As tiras só se tornaram coloridas, no entanto, em 1939, nos jornais dominicais, quando o sucesso colocou o Fantasma pra socar nazistas (como deve ser, aliás). Nos anos 1940, as aventuras anteriores do personagem nas tiras passaram a ser compiladas em gibis mensais, publicados inicialmente pela Ace Comics.

Vale lembrar que tanto as tiras P&B quanto as coloridas aos domingos continuam a ser publicadas ATÉ HOJE, em 2021, vejam vocês. A King Features revelou, lá por volta de 1966, que as aventuras do Fantasma foram publicadas em 583 jornais ao redor do mundo – sendo lidas, no pico de popularidade, por cerca de 100 milhões de pessoas todos os dias. UAU.

Quando o personagem completou 70 anos, lá no meu antigo site A ARCA, eu escrevi um texto com 10 razões pelas quais você deveria dar uma chance ao herói, já que você é do tipo que gosta tanto de Marvel ou DC. Então, reproduzo estes motivos abaixo, ainda mais porque eles ajudam a contar um pouco mais da história.

1) Lee Falk
Quando começou a carreira nos quadrinhos, Falk (falecido em 1999) era apenas um estudante. Aos 25 anos, em 1936, começou a publicação de Os Piratas Singh (The Singh Brotherhood), história publicada em tiras diárias nos jornais americanos e que seria concluída meses depois, em novembro – sendo que o próprio Fantasma, personagem principal, demoraria pelo menos cinco tiras para dar as caras. Ali, já seria apresentada inclusive esta organização criminosa centenária que se tornaria sua arqui-inimiga.

Pois se Brian Michael Bendis escrevendo Homem-Aranha Ultimate por cerca de 150 números é um marco para você, o que dizer de Falk – que cuidou sozinho dos roteiros de sua criação por 60 anos ininterruptos? E com com muita qualidade: boas doses de linguagem cinematográfica, mistério, aventura, tramas intrincadas e até um tantinho de política internacional. Nas primeiras duas semanas, Falk escreveu e desenhou, mas depois a arte foi assumida por Ray Moore, seu parceiro inseparável.

2) A Mitologia
Nada de pais assassinados na saída do cinema. No caso do Fantasma, o buraco é mais embaixo – embora, vejam só, sua ideia INICIAL fosse curiosamente que o Fantasma fosse na verdade o alter-ego do milionário playboy Jimmy Wells. No entanto, antes mesmo do herói aparecer naquela história original, ele veio com a trama que se tornou clássica.

Tudo começou com o navegador inglês Christopher Standish, que esteve ao lado de Cristóvão Colombo na descoberta da América. Em uma de suas navegações, cruzou o Cabo da Boa Esperança ao lado do filho, o jovem Kit (apelido de Christopher), e acabou indo parar no tal Golfo de Bengala (Bangalla no original, Bangal na primeira história). Lá, a embarcação foi cruelmente atacada por piratas, que trucidaram toda a população – mas, graças ao ataque de um tufão, Kit foi o único que permaneceu vivo em uma simplória jangada.

Dias depois, o sujeito aportou em uma praia e foi recebido pelos pigmeus Bandar. Como era a primeira vez que eles viam um homem branco, Kit foi recebido como uma espécie de estranha divindade. Mas tudo que ele tinha em seu coração era o desejo de vingança – que aumentaria quando o corpo decomposto do pai surgiu na mesma praia. Depois da cremação, Kit pegou o crânio de seu progenitor e, diante de uma fogueira, prestou pela primeira vez o Juramento da Caveira. Surgia então a linhagem do Fantasma.

Christopher Standish se tornou Kit Walker, que se tornaria mais tarde o nome de todos os seus descendentes destinados a envergar o manto roxo do herói. A mitologia local acredita que o Fantasma ainda é o mesmo desde que surgiu, dotado de poderes sobrenaturais vindos da natureza. Nada disso. Na verdade, o Fantasma que estrela as histórias desde a década de 1930 é o 21º da família.

Nas décadas seguintes, Falk se aprofundou nas origens deste 21º Kit – estabelecendo, por exemplo, que ele foi aos 12 anos estudar nos EUA, no Missouri, terra de sua mãe. Lá ele aprendeu diversos esportes, conhecendo o futuro amor de sua vida (Diana Palmer) e tudo mais, mas teve que voltar assim que soube que o pai estava morrendo. O manto do Fantasma o esperava.

3) A Família
Antes do nosso 21º paladino da justiça, seus antepassados foram membros proeminentes da história. O 3º, por exemplo, se casou com a sobrinha de William Shakespeare e, vejam só, chegou a atuar na primeira montagem de “Romeu e Julieta”. Já o 9º foi mais longe e trocou alianças com uma princesa da Mongólia, enquanto o 13º se envolveu com uma irmã do corsário Jean Lafitte. Por último, temos o 16º, que subiu no cavalo e foi caubói no Velho Oeste, além de conhecer pessoalmente o próprio Mark Twain.

4) O Anel
Anel do Lanterna Verde? Para com isso. No caso do Fantasma, ele usa dois anéis. O primeiro e mais conhecido está na mão direita – é aquele em forma de caveira que marca permanentemente qualquer malfeitor que leve um soco do nosso intrépido herói. Já o da mão esquerda é o chamado “anel do bem”, cujo símbolo dos sabres cruzados quer dizer proteção – e aqueles que têm um destes estarão para sempre protegidos sob o olhar atento do vingador mascarado. Importante reforçar ainda que o Fantasma usa um par de pistolas M1911, calibre 45, mas jamais para ferir seus inimigos. Na real, as armas são apenas para ajudar a desarmar seus oponentes.

5) A Mocinha
Uma coisa muito legal é moça é que Diana estava longe de ser a típica donzela em perigo, uma mulher inteligente, corajosa e sem papas na língua. Sabe atirar, sabe andar a cavalo, sabe lutar e sabe até pilotar um avião! Herdeira de uma fortuna, preferiu correr o mundo em busca de aventuras como uma bem-sucedida exploradora. Combateu espiões nazistas, foi enfermeira na África e terminou a carreira na ONU, lutando contra a atuação de ditadores em todo pequeno país fictício que a imaginação de Falk pudesse criar. É bem verdade que Walker só se casaria com ela depois de 40 anos. E sem a simpatia da sogra. Mas tudo bem.

6) Os Coadjuvantes
Todo bom super-herói tem um elenco de coadjuvantes de responsa. No caso do Fantasma, ele conta principalmente com a ajuda de Guran, o líder dos Bandar, seu melhor amigo e principal ajuda quando o assunto são “ervas medicinais”. Sempre que precisa saber de alguma coisa, o Fantasma recorre à sabedoria do velho ancião Mozz. Ele também tem seu próprio sidekick, o menino Rex King, um órfão criado pelos indígenas e que nosso galante justiceiro adotaria anos depois. E quem precisa do Krypto quando tem um lobo selvagem que atende pelo nome de Capeto e um cavalo branco chamado Herói?

7) O Quartel-General
A morada do Fantasma é, obviamente, a Caverna da Caveira. Além de uma enorme biblioteca com os registros de todas as aventuras de seus antecessores, Kit Walker também tem, conforme manda a tradição, acesso a uma enorme cripta na qual pode conversar com os espíritos de seus 20 ancestrais, descobrindo novas experiências dos outros que também foram o Fantasma em tempos passados. Não te lembra um pouco a mitologia criada por Stan Lee pro Pantera Negra? Bem…

8) As adaptações

Aqui, eu vou ser cara de pau e “roubar” um pedaço do artigo que o chapa Renan Martins Frade escreveu lá pro JUDÃO.com.br, quando o personagem fez seus 80 aninhos. Porque ele relembrou que, em 1943, o personagem fez sua estreia na tela grande, por meio de um daqueles seriados P&B lançados pela Columbia. A produção, que teve 15 episódios lançados nos cinemas, fugia bastante da fonte original, inclusive dando um novo nome (Geoffrey Prescott) para o protagonista.

Já em 1961 surgiu uma nova oportunidade live-action para o herói, agora na TV. Naquele ano foi produzido um piloto de uma série que teria Roger Creed no papel principal, mas o orçamento era extremamente apertado e nenhuma emissora se interessou pelo resultado final.

Maaaaaaaaaaaaaaaaaaas lá em 1986, pudemos ver a participação do Fantasma no desenho animado Defensores da Terra, ao lado de outros personagens clássicos como Flash Gordon e o mágico Mandrake. No entanto, se tratava de uma versão futurista do Fantasma, um herdeiro do clássico 21º Espírito Que Anda – e que, por sinal, já tinha uma herdeira, a rebelde filhota adolescente Jedda. O mais bizarro, no entanto, era o fato de que este Fantasma não era um ser-humano comum – mas sim um sujeito que invocava as forças dos animais, ao melhor estilão Bravestarr, além de envergar um anel que podia atirar laser nos inimigos (!).

O sucesso da série fez com que a Marvel convocasse ninguém menos que o Stan Lee para escrever uma minissérie em quadrinhos com os Defensores da Terra, publicada em 1987. Pouco depois, em 1988, o Fantasma foi licenciado para a DC Comics, que publicou uma minissérie e uma HQ mensal entre 1988 e 1990. Sim, o Fantasma é um dos poucos personagens que pode falar que já passou pelas DUAS grandes editoras de quadrinhos dos EUA.

Aí, em 1994, vale a ressalva, surgiu a interessante série animada O Fantasma em 2040, exibida no Brasil no canal a cabo Multishow e, mais tarde, nos horários infantis matinais da Rede Globo. Criado por Peter Cheung (também criador de Aeon Flux), o desenho carregava o traço elegante e tipicamente europeu do artista, além de tramas bem elaboradas e focadas em um público mais adulto. Em um futuro altamente tecnológico, com robôs para todos os lados, implantes cibernéticos e a total depredação da natureza, eis que surge um novo Kit Walker, bisneto daquele que conhecemos, para assumir o uniforme do eterno defensor de Bengala.

9) O Filme
Nos dias de hoje, todo bom super-herói das HQs também tem a sua adaptação cinematográfica. E o Fantasma teve a sua, dois anos depois do desenho animado futurista. Quem me conhece, sabe que já falei sobre isso em outras ocasiões, mas é fato: Lee Falk gostou do filme. E eu também. Os fãs mais tradicionalistas não. No entanto, é impossível negar que todos os principais elementos clássicos estão ali, incluindo os vilões Xander Drax (Treat Williams, da série “Everwood”) e Kabai Sengh (Cary-Hiroyuki Tagawa, o Shang Tsung do primeiro “Mortal Kombat”). O proposta do uniforme com algumas texturas tribais é beeeeeeeem legal, assim como a movimentação um tanto sinuosa, como um tigre em plena caça, de Billy Zane enquanto mascarado. No final das contas, é bem mais fiel e respeitoso à mítica do personagem do que coisas como Elektra, por exemplo.

Mas o roteiro simplista e o fato dos super-heróis não serem, na época, os queridinhos de Hollywood e do público fizeram o filme naufragar. Com um orçamento de US$ 45 milhões, o filme arrecadou apenas US$ 17,3 milhões nos EUA.

Prometo que vamos evitar falar muito sobre 2009, quando o canal Syfy lançou a minissérie The Phantom, composta por dois episódios de 90 minutos e com um protagonista usando um uniforme modernoso. A ideia era que a minissérie funcionasse como piloto de uma nova série de TV, estrelada pelo 22º Fantasma, mas não deu certo e o projeto foi pro limbo em seguida. Pra quem teve a chance de ver, a expressão AINDA BEM ecoa pelas paredes da Caverna.

10) O Uniforme Multicolorido
E que super-herói mascarado não tem o seu, hã? No caso do Fantasma, ele é roxo. Pelo menos originalmente, em território americano. Afinal, quando suas aventuras começaram, o sujeito (e todo o restante de seu universo) era impresso em preto e branco. Quando o herói começou a ser publicado no Brasil, ainda em 1936, publicado pelo suplemento A Gazetinha,do paulistano A Gazeta, a impressão era preta e vermelha. Bingo: foi só o personagem ganhar cores que a roupitcha do Fantasma em terras tupiniquins ficou vermelha, assim como na França, na Itália e na Espanha. Já na Austrália, onde faz um sucesso tremendo até hoje (com revista quinzenal e tudo), o Fantasma começou com um uniforme VERDE.

Tá bom – então ONDE posso ler o Fantasma?

Bom, assim, as tiras você pode ler aqui, se te interessar. Mas se você é, como eu, da tribo dos que amam um gibi impresso, a Mythos anda lançando por estas bandas diversos encadernados, como ESTE aqui com as histórias sob o traço de Jim Aparo, ESTE aqui com uma história inédita escrita por Peter David ou ESTE aqui, o primeiro de uma série chamada “Crônicas do Fantasma”. O que não falta é opção. 😉

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Comments
  • Tiago PECZENYJ

    Eu lembro de uma história que o Fantasma atira pra matar (e mata, sem aviso) em um policial da selva corrupto. Não lembro o número mas foi na última série de histórias classicas da editora Saber. Acho que o uso da pistola para não matar dependia do humor do sr Falk

    18 de fevereiro de 2021
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