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De Pernambuco para o mundo, o terror folclórico da Roberta Cirne

Autora traz terror, sexo e morte na adaptação pros quadrinhos do primeiro romance gótico de horror do Nordeste, escrito em 1871 por Carneiro Vilela

Por THIAGO CARDIM

Quem conhece o trabalho da pesquisadora, roteirista e desenhista Roberta Cirne sabe que ela tem uma predileção especial por histórias de assombrações, casos escabrosos, crimes reais e afins. Estes são, aliás, os pilares de seu projeto pessoal, o Sombras do Recife, que abrange produções de contos e quadrinhos sobre os mistérios que se escondem nas madrugadas da capital pernambucana.

Mas tudo isso começou, na verdade, com desenhos de bonequinhas de papel. Depois de aprender a ler muito cedo, antes dos cinco anos, justamente lendo gibis, ela se aproximou de uma tia por parte de pai, a Alba, que fazia as criaturinhas recortadas pra pequena Roberta brincar. “Com o tempo, eu mesma comecei a desenhar minhas próprias bonequinhas, e descobri sozinha, por observação, como projetar em perspectiva, usando distâncias de objetos. Mas foi esta minha tia, que admirei por toda a vida, que me mostrou os primeiros passos nas artes”, conta ela, em entrevista exclusiva pro Gibizilla.

Os pais deram o maior apoio, com livros, papéis pra desenho e aquelas caixas de lápis de 48 cores da Faber-Castell. A jovem artista colecionava Luluzinha, Bolinha, amava a saga da Família Pato de Carl Barks… E fazia seus próprios gibis, claro. Criou uma HQ sobre uma boneca que ganhava vida, quadrinizava filmes que gostava… E, como todo bom artista, entrava em crise. “Desenhar era ‘bonitinho’ quando criança, mas se tornava um hobby pouco rentável, segundo meus pais, para ter quando adulta”, explica. “Tentei seguir o caminho da advocacia, mas terminei abandonando o curso de Direito na UFPE pelo de artes plásticas (meu pai quase teve um treco, hehe)”. Fazer quadrinhos virou algo meio sofrido, por amor mesmo. “Fazia vários bicos e estágios na faculdade, principalmente porque casei e engravidei em seguida. Nosso núcleo familiar se formou neste redemoinho”.

Das muitas tentativas, veio finalmente um coletivo de quadrinhos, a partir do qual saiu o álbum Passos Perdidos, História Desenhada, em 2006 – que lhes rendeu o prêmio HQMIX 2007 de maior contribuição para os quadrinhos nacionais. Viram então outros álbuns, projetos culturais custeados pelo MinC (Ministério da Cultura) e FUNDARPE (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco), que davam algum dinheiro…mas ela queria mais. Enquanto se sustentava como arte educadora e dava aulas, Roberta pensava que queria ser dona de seu próprio projeto. “Queria algo que me representasse mais”. 

Depois de abandonar as HQs em 2010, para cuidar dos pais, ela acabou repensando muita coisa. No fim, a quadrinista só voltaria ao meio em 2015, produzindo pouco num primeiro momento e depois aumentando a produtividade. Começaram as colaborações, os trabalhos para editoras. Vieram dois prêmios HQMIX pela participação nas duas coletâneas Gibi de Menininha.  “Atualmente, não mais leciono. Posso me manter, e me dedico 100% aos quadrinhos. São os meus quadrinhos, feitos exatamente do jeito que sempre quis. A internet teve este poder em minha carreira”, conta. E foi neste contexto que surgiu O Esqueleto.

Uma obra nascida do acaso

Roberta, na real, já vinha estudando o Recife desde 1998. Suas histórias, seus amores, seus poetas. E também seus fantasmas. Mas quando sua prima, que tinha comprado dois livros de uma obra que teve tiragem limitadíssima via Editora Universitária da UFPE, em 2015, resolveu lhe dar um de presente, a história deu mais uma volta.

Tratava-se de uma obra obscura, quase esquecida, do autor Carneiro Vilela. Estamos falando de um escritor e jornalista, responsável pelo renomado (e sangrento) romance A Emparedada da Rua Nova, escrito em folhetins entre 1909 e 1912. Uma obra que, aliás, Roberta teve a chance de quadrinizar na revista Sombras do Recife Vol. 1. Apaixonada pelo estilo literário do autor, Roberta acabou empolgada pela chance de dar mais visibilidade a um trabalho que jamais teve uma reverberação relevante.

“Só isso aguçou minha curiosidade e vontade de lançá-lo ao mundo”, admite a quadrinista. Além disso, estamos falando daquele que é oficialmente o segundo livro escrito no Brasil com temática de terror gótico – antes dele, apenas Noites na Taverna, de Álvares de Azevedo, no ano de 1855. Mas O Esqueleto foi o primeiro no Nordeste com o tema, escrito em 1871 e publicado pela primeira vez no jornal America Ilustrada, publicado pelo próprio autor. Portanto, o aniversário de 150 anos da obra é ESTE ano!

“Me sinto feliz em poder representá-lo, um autor que admiro e que tenho a honra de apresentar de novo ao Brasil”, orgulha-se ela, que financiou o projeto com sucesso no Catarse.

Tá bom, mas do que se trata O Esqueleto?

Tamos falando de uma história de terror e decadência, que nos leva de uma tradicional e honrada família de altos valores morais até a depravação das ruas boêmias da cidade de Olinda, no tempo em que ali funcionava a Faculdade de Direito de Pernambuco. Em meio a tudo isso, enquanto o terror se revela aos poucos, conhecemos o romance entre os personagens Felipe e Lívia – além das provas que o verdadeiro amor passa em frente às tentações do mundo, entre estudantes devassos e libertinos.

“Eu já sou acostumada com pesquisa”, revela Roberta. “Gosto de HQs de época – e literatura também. Já tinha uma pesquisa prévia, como para tudo o que faço. O mais difícil é fazer a peneira, para diferenciar a roupa de diversas décadas. Tento ser o mais fiel possível, nesse quesito”.

Afinal, tudo bem que ela é de lá. Mas por que toda esta fascinação por Recife? O que faz da cidade, como a própria Roberta diz, uma das mais assombradas do Brasil? “A própria cidade. Em cada bairro, cada rua, existe uma história de assombração. Já consegui reunir material para três livros de assombrações e dois sobre crimes históricos, que lançarei pouco a pouco, pois preciso de incentivo de projetos, o que é bastante complicado, em tempos de pandemia. Mas a própria Recife se torna o personagem principal de tudo, e nem faz força para isso”.

No entanto, a autora, responsável pelo roteiro e pela arte, deixa claro que a trama não é hermética e distante para quem mora fora de Recife. “Porque o autor era muito cosmopolita, então o texto é rebuscado, mas universal. Ele recebe bastante influência de como os escritores da época montavam as tramas, e ele mesmo morou um tempo no Rio de Janeiro, o que deu a ele uma visão melhor do Brasil”, diz. “A obra dele, extensa em títulos, apenas resta às bibliotecas antigas, pois não foram reeditadas infelizmente nos tempos atuais. Uma pena”.

E mesmo os leitores do eixo Rio-São Paulo, que outrora eram bastante refratários à tramas ambientadas fora de seus próprios umbigos, costumam abraçar bem estas sombras de Recife.

“Em todos os eventos que vou em São Paulo (Bienal do Livro, CCXP, Horror Expo), sou sempre abordada com curiosidade. Algo que foge da caixa do mesmo assunto – e eu mesma fujo da minha caixa. Sair de Recife foi a melhor coisa para meu trabalho. No Catarse, tive mais apoiadores de São Paulo e Rio do que de Pernambuco”.

No fim, é isso mesmo que Roberta quer: levar a cultura de Pernambuco para qualquer lugar do Brasil. “Porque exaltar o que me é mais caro ao coração leva a minha verdade – e o que é de verdade nunca deixa de ser aceito”.

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