Jornalismo de cultura pop com um jeitinho brasileiro.

Quando o isolamento vira inspiração criativa

Descrita pela autora Helô D’Angelo como uma “grande fofoca”, a divertida webcomic sobre a quarentena de um prédio especial como qualquer outro vai ganhar versão impressa

Por THIAGO CARDIM

Ao começar o papo com a ilustradora e quadrinista Helô D’Angelo, aqui de São Paulo, uma coisa me chama a atenção de imediato – o fato dela dizer que é formada em jornalismo mas não trabalha na área. Mas ora, ora, ora, e como não? Embora a definição oficial da nossa tão maltratada arte do jornalismo seja “buscar, investigar, redigir e transmitir notícias”, nunca me esqueço de um ex-professor da faculdade que sempre dizia que um bom jornalista é, antes de tudo, um bom contador de histórias. Só que, ao contrário de um escritor ficcional, ele sabe identificar, apurar e contar boas histórias da vida real.  

Portanto, tá bom, a Helô não trabalha num jornal, numa revista, não é “repórter” de carteira assinada. Mas já fez muito jornalismo em quadrinhos – talvez você se lembre, por exemplo, da reportagem em forma de HQ “Quatro Marias”, que inclusive foi o trabalho de conclusão de curso dela na faculdade Cásper Líbero, contando as histórias de quatro mulheres anônimas, em contextos diferentes no Brasil, mas que têm algo em comum: decidiram abortar. Mesmo seu trabalho mais recente, o delicioso “Dora e a Gata”, tem muito de vida real, de gente como a gente, de relacionamentos que a gente bem conhece na nossa vida…

Justamente por isso, aliás, acredito que o mais novo trabalho da autora, a série Isolamento, é também um baita exercício de jornalismo, de uma forma ou de outra, mesmo com toda a questão do humor envolvida. Tirinha em série que ela tem publicado no Instagram desde o começo da pandemia, agora o projeto foi financiado com sucesso via Catarse para se tornar um gibi impresso de 200 páginas. “Basicamente é uma grande fofoca, porque eu conto a vida dos meus vizinhos”, diz Helô, em papo exclusivo com o Gibizilla. “Eu brinco dizendo que são pessoas reais ali representadas, mas na verdade são misturas de pessoas que eu ouço, da minha janela”.

Os segredos por trás do Isolamento

Tudo começou quando a Helô, ela mesma, pessoa física, se mudou bem no começo desta quarentena sem fim. “Acho que duas ou três semanas antes de começar o isolamento de fato e a pandemia pegar mesmo no Brasil”. Então, o apê novo fica no topo de uma elevação, um morrinho. Pois aí a janela dela virou basicamente o topo de uma arena. “E lá de baixo, dos outros prédios, da rua, eu ouço tudo que as pessoas falam. Tudo mesmo. Isso me irritava profundamente no começo, eu gosto muito de silêncio, calma, e as pessoas falam muito alto”.

No começo, a visão privilegiada da quadrinista pra este microcosmo, esta verdadeira sopa de Brasil devidamente temperada com fuxicos, não era exatamente a situação mais agradável do mundo pra ela. “Eu moro com uma amiga minha que também é ilustradora, e a gente tinha uma das vizinhas sobre qual a gente acabou descobrindo tudo da vida dela, porque ela falava absurdamente alto. Ela falava o nome dela, as pessoas conversavam entre si, era cantoria de madrugada, era festa, enfim. Eu comecei a ficar com muita raiva desta situação”.

E foi a partir desta raiva, desta sensação de impotência, que ela começou a fazer umas tirinhas, nestes moldes, pra desabafar, misturando ficção com vida real. A ideia era nem fazer algo que desse muito trabalho, mas acabou que a repercussão foi muito boa. “Daí não tinha mais jeito”, explica ela. “Comecei a seriar, fiz 24 episódios, agora é isso, cabô. Mas as pessoas começaram a pedir ‘não, eu preciso saber o que aconteceu com fulano, com ciclano…’. Aí fui fazer uma segunda temporada, que também foi o maior sucesso”.

Com o velho soturno e grande elenco

“Isolamento” gira em torno de um prédio fictício, com 12 apartamentos, e em cada um deles tá rolando uma história. O visual do prédio, em si, foi inclusive inspirado em um imóvel dos arredores da casa da Helô. “Ali realmente mora uma mulher que é uma cantora, que às vezes canta e eu coloco na HQ”. O gibi tem um casal que o cara é eleitor de Bolsonaro e a mulher é de esquerda. Tem uma blogueira que está sendo cancelada. Tem um pai com a sua filha pequena. “Enfim, cada um com seus dramas e eventualmente eles vão se relacionando. Alguém de uma janela flerta com alguém de outra…”.

Tem personagens que são inspirados em pessoas do próprio prédio dela, por exemplo, o rapaz que vive com a avó. “Aí tem o velho bolsominion, e a figura dele é inspirada num cara do prédio da frente e que eu já vi várias vezes e batizei de ‘velho soturno’. Mas a personalidade dele é de um cara que mora no meu prédio mesmo e que reclamou das minhas plantas, que fica xingando quando tem panelaço”, conta.

No fim, a artista foi misturando estas histórias reais com umas histórias de amigos, que contam dos seus próprios vizinhos. “Quis fazer algo que seja realista, mas ao mesmo tempo cheio de afeto, que seja engraçado”.

Mas com o tanto que tem de vida real nestas histórias, será que os vizinhos não se reconhecem nestas tiras? Helô acredita que não, pelo menos não que alguém tenha vindo falar diretamente com ela, mas lembra de um caso que aconteceu com a dona de um restaurante perto da sua casa. “Um dia fui lá, estava com a camiseta de Isolamento que fiz com a El Cabriton, fui comprar uns caldos de galinha que ela vende pra você cozinhar em casa”. A quadrinista do lado de fora, a moça lá dentro pegando os produtos pra entregar e solta um “nossa, esta camiseta, eu já vi este quadrinho”. Então a Helô soltou um “pois é, eu que faço”. E ela pirou, “não acredito que o prédio é aqui perto!”.

Isolamento é REALMENTE toda digital!

Quando a gente fala em quarentena, claro, já pensa imediatamente em usar app de serviços de delivery, no crescimento do streaming ou nas intermináveis reuniões (ou quem sabe festas) via Zoom, Google Meet, Teams… A gente cada vez mais digital. E o que acabou sendo totalmente digital foi justamente ESTA história em quadrinhos em específico sobre a quarentena.

“Eu fiz esta mudança por uma razão muito específica”, explica Helô. “Recebi uma mesa digitalizadora, um display que eles chamam, e comecei a fazer digital. Tenho muita preguiça de desenhar com os tablets que você não pode desenhar olhando pro mesmo lugar, tem que olhar pra tela, e você desenha como se fosse um mouse, olhando pra tela do computador. Me sinto muito incomodada com isso, nunca tinha conseguido desenvolver esta parte mais digital”.

Com o novo equipamento, a quadrinista começou a se apaixonar pelo processo, agora que conseguia desenhar como se estivesse olhando pro papel, para o que a sua mão está de fato fazendo. “E isso corta digamos que 60% do processo chato de ter que desenhar à mão, ter que esperar secar, se errar alguma coisa ter que fazer tudo de novo, aí escanear, tratar a imagem no computador… Tudo isso você corta, então dá uma agilidade pro trabalho. E abre espaço para experimentação, porque antes eu usava aquarela e isso é muito caro. Foi uma forma de me libertar um pouco e experimentar coisas novas”.

Mas se Isolamento é REALMENTE toda digital… por que agora vai ser impressa?

A Helô explica que, no começo, nem pensava nisso porque achava que iam ser uma, duas ou três tirinhas. Mas quando começou a seriar mesmo, logo pensou: “cara, o maior trabalhão pra fazer isso e as pessoas esquecerem. Vou imprimir”.

Ela diz que, por mais que a internet seja incrível pra espalhar o trabalho dos quadrinistas independentes, pra fazer chegar no máximo de pessoas possível, as coisas são muito rápidas e daqui uma semana estas mesmas pessoas já esquecem o que você postou hoje. E ela entende que “Isolamento” serve muito como um registro histórico do momento que a gente tá passando AGORA. “Não podemos esquecer isso de jeito nenhum. Eu gostaria que esta HQ ficasse como registro. Nem que fosse um registro mais suave, mais tranquilo. Mas que fosse uma coisa que você olhasse na sua estante e lembrasse. Que ficasse marcado. E o livro é uma boa forma de fazer esta marcação de tempo”.

E ela não tem qualquer preocupação sobre um possível desencontro narrativo que possa acontecer, já que originalmente as histórias foram produzidas para consumo em um meio digital e agora vão parar nas páginas de um formato “livro”, sendo folheadas em sequência. “Como o gibi tem este conceito da fofoca, você está observando um prédio, não tem tanto problema se as coisas se desencontrarem, se eu não passar 100% do que aconteceu, se não fizer tanto sentido. Porque fofoca é assim mesmo, né. Você pega uma coisa que acha que entendeu de um jeito, mas talvez não seja exatamente aquilo. Então não tem tanto problema”.

O que ela adianta, no entanto, é que alguns textos vão acompanhar as tirinhas, para dar um pouco mais de contexto. “Na tirinha sobre o panelaço, quero falar sobre os primeiros panelaços, os motivos… Ou explicando algumas situações. Por exemplo, uma das tirinhas é uma festa de São João, e isso teve mesmo, eu quero contar isso num texto”. Ela reforça que acredita que este é um livro simples do ponto de vista estrutural. “Não tô preocupada em seguir uma narrativa assim, muito quadrada. Vou precisar fazer uma boa revisão, o nome de um personagem que eu dizia que era um, aí esqueço e coloco outro. Preciso rever estas coisinhas”.

Para encerrar… será que ELES apareceram?

É, eles, você sabe. Numa HQ sobre quarentena, isolamento, pandemia. Era o lugar certinho para os NEGACIONISTAS brotarem aos montes.

Mas… olha só, não aconteceu. AINDA BEM.

“Não sei por qual motivo, mas não tive que lidar muito com estas pessoas nesta tirinha específica”, confessa Helô. “Não sei se porque as pessoas cansaram de me criticar e eu não dar atenção, não sei se bloqueei todos. Minha teoria é que, como eu só conto a história das pessoas, eu não faço uma coisa tão incisiva quanto uma charge, acho que as pessoas entendem que não tô querendo mandar na vida delas, impor uma opinião”.

Além disso, ela sentiu em “Isolamento” que surgiram muitas pessoas comentando coisas que mostram amadurecimento. Não algo do tipo “votei no Bolsonaro e sua tirinha me fez não querer votar mais”, nada disso. Mas percebendo a gravidade da situação. “Teve uma menina que se arrependeu do voto, reconhecia e tudo. Tenho recebido umas coisas mais positivas. Mas se tiver algum hate, vou lidar da mesma forma que sempre lido, que é pedindo pra ela continuar pra eu ter mais visualizações e mais engajamento”.

Aí tá certo. <3  

Post a Comment