Jornalismo de cultura pop com um jeitinho brasileiro.

As Mulheres de Mare of Easttown

“Depois de um tempo, você aprende a conviver com o inaceitável”

Por GABRIELA FRANCO

A última grande série da HBO, Mare of Easttown, que estreou em abril deste ano, foi, para os espectadores ávidos por entretenimento nessa pandemia sem fim, uma grata surpresa. Conforme bem disse o Thiago aqui, a série vai muito além do suspense policial que encabeça uma cadeia de subtramas secundárias, porém não menos importantes, na pequena cidade da Filadélfia. 

Mare of Easttown é, na verdade, uma saga de mulheres que defendem  mulheres.

Liderada pela incrível Kate Winslet, a trama gira em torno de um mistério de assassinato, mas conforme as camadas se desfazem, percebemos que o crime é apenas incidental. 

Praticamente todo o ecossistema de Easttown é definido por traumas geracionais, luto, maternidade e amizade. Os homens até fazem parte da ação enquanto o enredo se desenrola, tomam decisões egoístas e irresponsáveis cujas consequências afetam as mulheres, mas também vemos adolescentes se tornando mães e depois sendo abandonadas, vemos idosas sendo desacreditadas e invisibilizadas, vemos mulheres negras sendo negligenciadas, vemos mulheres doentes sendo esquecidas, vemos Mare totalmente exausta e sobrecarregada e vemos todas elas, sem exceção, sendo CULPADAS. 

Quanto aos homens, quando confrontados com escolhas impossíveis, é a comunidade de mulheres fortes que os sustenta, física, mental e moralmente, mantendo Easttown de pé.

Logo na primeira cena vemos Mary-Ann (ou Mare, como é conhecida a sargento-detetive da sonolenta cidade) atender a um chamado em seu celular particular e não o da delegacia, vindo de uma senhora idosa reclamando que um estranho está perambulando pelo jardim de sua casa. Mare não se importa muito com sutilezas, é focada em fazer seu trabalho e em fazê-lo bem. Mas o que o programa nos mostra é um comportamento que raramente vemos em detetives na cultura pop – empatia.

Mare está disposta a OUVIR

A personagem escuta atentamente o depoimento frenético da idosa que se ocupa em detalhar minuciosamente os acontecimentos da noite anterior. Mesmo com sono em uma manhã gélida, mesmo sacando que aquela situação é abusiva – afinal, a senhora poderia ter ligado para a delegacia e não para seu telefone pessoal – ela escuta. 

Mare entende a dificuldade de um colega de equipe que desmaia ao ver sangue.

Mare se aproxima de cada pessoa em Easttown com compaixão, porque ela mesma está lutando contra uma dor, no âmbito pessoal, que parece não ter fim.

Através de Mare, temos a sensação de que  Easttown é um lugar opressor  – um lugar que força as pessoas a desistirem de tudo,  mas ao mesmo tempo possui uma rede de apoio firmada na união dessas mulheres que nos dá uma certa esperança para continuar.

Kate Winslet construiu Mare com todo o cuidado. Chamou a atenção da mídia por não usar maquiagem, por estar até “acima do peso” – para os padrões tóxicos e irreais do audiovisual estadunidense, é bom frisar – por usar um figurino total e completamente despojado e não permitir que edições fossem feitas em seu corpo na pós-produção.

“Quero minha pancinha e todas as minhas rugas exatamente no mesmo lugar”, ela teria dito aos produtores na edição das cenas, segundo a revista Variety.  Ela se esmerou em retratar uma mulher de 40+, com um trabalho estressante e crucial para a comunidade e que carrega uma ferida aberta e sangrando, enquanto ajuda a curar as dores dos que estão à sua volta. 

O diretor, Craig Zobel, também soltou notas referentes ao visual da personagem. “Mare é durona e não precisa usar maquiagem, não tem tempo para essas coisas”. Pelo jeito, ele não entendeu nada. Ainda bem que Kate estava ali para defender sua personagem. Mulheres podem ter diferentes noções de beleza e vaidade, mas quando uma mulher abre mão de cuidar de si, seja do jeito que for, é porque ela está quebrada demais para tentar juntar seus cacos. Uma mulher pode ser durona e vulnerável ao mesmo tempo. Durona porque a vida te força a isso. Vulnerável porque somos humanas. E adivinhem só: é assim mesmo que somos.

Todas em uma ao mesmo tempo agora

Infelizmente temos poucos exemplos de produções culturais que fazem questão de mostrar personagens mulheres com tamanha multiplicidade e consistência. Mas Mare of Easttown faz isso muito bem.

Ao longo de sete episódios notáveis, Mare foi forçada a mergulhar fundo em si mesma e avaliar todos os seus relacionamentos.

Impulsionada para a terapia (SIM, UMA SÉRIE QUE VALORIZA A PRÁTICA DA TERAPIA! ), ela sai da casca e finalmente revela como se sente e o quanto precisa se curar. Mare briga com sua mãe (vivida por Jean Smart, que é outra PÉROLA na série e em qualquer coisa que se preze a fazer) mas aos poucos também cria espaço para compreender que ela não pôde lhe dar a  infância que ansiava.

Ela tenta equilibrar sua relação com a filha adolescente Siobhan (interpretada por Angourie Rice – e vale ressaltar que durante toda a série recebi mensagens de WhatsApp de amigas espantadas com o fato de ela ser A CARA DA MINHA FILHA) e com a parceira de seu filho Kevin, Carrie (Socie Bacon), que luta contra adicção, além de estender a mão para a melhor amiga Lori (Julianne Nicholson, incrível também) quando toda a sua família se desintegra. 

O coração da série pertence às mães e filhas, com a mãe de Mare liderando magistralmente. Interpretada com perfeição por Jean Smart, é Helen que atua como cola naquela família. Ela cuida de seu bisneto Andrew, não hesita em dar  broncas hilárias em Mare mas se preocupa em deixar claro que está sempre do seu lado. Ao longo da trama, as semelhanças entre elas vão ficando mais aparentes e dão ao público uma espécie de conforto no fato de ambas perceberem que certas coisas não podem ser “consertadas”; elas precisam ser tratadas.

Junto com Mare e sua mãe, sua filha e suas amigas, rimos, choramos, sentimos raiva, tristeza, dor e acalentamos todos esses relacionamentos entre mulheres  que se revelam em toda sua beleza e complexidade ao longo dos episódios.

Mare of Easttown é tão surpreendente que você pensa que é um suspense policial. Mas não é. É sobre como mulheres sustentam a si e a esse mundo inteirinho, do ventre à cova. 

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