Jornalismo de cultura pop com um jeitinho brasileiro.

Mare of Easttown: a melhor série de um ano que nem acabou

Kate Winstlet está absolutamente incrível nesta produção imperdível da HBO, uma grata surpresa entrelaçando tramas incomuns sobre pessoas tão comuns quanto eu e você

Por THIAGO CARDIM

Ó, antes de qualquer coisa, deixa eu avisar aqui: isso aqui não é uma resenha. Se era isso que você estava esperando, esquece. Talvez seja quase como uma crônica, não sei bem. Vamos ver até o final.

O fato é que a Gabi, minha esposa, disse que uma amiga tinha indicado esta série aí, uma tal de Mare of Easttown, sobre a qual nunca sequer tinha ouvido falar. A HBO já tinha exibido três episódios, íamos pegar o bonde andando, mas estávamos lá meio órfãos de algo interessante pra ver (leia-se: “passei 30 min navegando pelo Netflix e não encontrei nada que me agrade”), então topamos o desafio. Afinal, sempre é legal experimentar algo novo. Regra da casa.

E aí que, no final do primeiro episódio, já estava apaixonado. Fácil assim.

Gozado que muita gente me enxerga, no papel deste bom leitor de quadrinhos, como um alguém fanático por séries e filmes da Marvel, da DC, sei lá. E só. Porra, ledo engano. Bem pelo contrário, aliás. Assim como leio MUITO gibi que não é de super-herói (um pulo na nossa área de HQs aqui do site vai te mostrar isso), também consumo MUITA cultura pop, filmes, livros, séries, longe de espectros costumeiramente associados à figura do “nerd”, como fantasia, ficção científica e afins.

Aliás, um pequeno parêntese aqui. Não é todo mundo que acompanha a minha trajetória de jornalista do mundinho da cultura pop que sabe do meu lado escritor. Ou, pelo menos, de escritor wannabe. Já mandei meus contos por aí, tô na segunda versão do meu livro que prometi pra mim mesmo que AGORA VAI e inclusive comecei a sondar coleguinhas artistas para uma parceria que possa resultar no meu primeiro gibi. Mas NUNCA escrevi nada relacionado a supers. Zero. Ou mesmo no espaço sideral. Ou quiçá numa masmorra com dragões e magos. Nada disso.  

Meu lance sempre foi GENTE. Gente comum. Vida urbana, vida suburbana, vida simples. Relacionamentos, encontros e desencontros, família, loucuras que saem do ralo da pia e pegam a gente de surpresa entre a casa e o trabalho. Se eu tivesse que escrever um gibi, por exemplo, gostaria que fosse algo como um Estranhos no Paraíso. E se eu tivesse que escrever uma série, amaria que fosse algo como Mare of Easttown.

Pois sim, eu queria ter escrito Mare of Easttown.

Por mais que muita gente insista em descrevê-la assim, eu discordo de quem chama Mare of Easttown de uma série “policial”. Sim, a Mare do título, vivida brilhantemente por uma Kate Winslet ao mesmo tempo despida de glamour mas com uma dose cavalar de carisma, é uma policial. E sim, temos um crime em torno do qual a trama começa a girar – e que se torna “crimes”, assim mesmo, no plural. A narrativa sobre estas mortes te leva a crer, em dado momento, que tem algo de serial killer no meio, mas é melhor não se deixar enganar. Porque que a grande graça da série não é esta. Nem de longe.

O segredo de Mare of Easttown está na cidade, nas ruas, nestes subúrbios da Filadélfia que, em certo ponto, lembram qualquer rua, qualquer cidade, aqui ou acolá. Aliás, me corrijo aqui. O segredo de Mare of Easttown, seu grande protagonista, é a COMUNIDADE.

A série está cheia de pequenos núcleos, quase como aqueles novelões que estamos acostumados a assistir na telinha da Globo. Pais, mães, avós, irmãos, filhos e filhas, com seus dramas, suas comédias, suas tensões particulares. Tem drogas, tem traições, tem bebida, tem gravidez na adolescência, tem sofrimentos da velhice, tem amizades partidas, tem traumas da adolescência nunca superados. E como em toda pequena comunidade, todo mundo parece que realmente se conhece. O que significa que, aos poucos, a gente vai vendo determinadas histórias se revelando, se entrelaçando, descobrindo que este personagem e aquele, que aparentemente estavam caminhando totalmente separados em suas respectivas subtramas, se encontram, se relacionam, sofrem juntos, gargalham juntos.

E a cada personagem que entrava sob os holofotes, eu ia amando descobrir, me encantar, até mesmo odiar (e isso aconteceu bastante). A gente chorava, ficava tenso e gargalhava logo na sequência. Vi muito de mim em cada um dos personagens, um tantinho aqui, outro ali. Vi muito de gente que conheço, histórias que vi, vivi, vivenciei. Vi muito daqueles segredos que toda família tradicional insiste em esconder nas portas de cima do guarda-roupas do quartinho dos fundos.

A coisa que me pega SEMPRE, por falar nisso, é o diacho de uma boa história. Pode ter uma arte meio merda, pode ter umas interpretações meio cagadas, pode ter uma arte de capa um tanto escrota. Mas a história, se for boa, me pega pelos calcanhares. E Mare of Easttown tem várias. Muito interessantes, vivas, verdadeiras. E sem precisar de superpoderes, viagens no tempo, invasões alienígenas, agentes secretos ou piratas.

Sabe onde mais Mare of Easttown acerta? No tom leve e natural com o qual retrata a garota lésbica, a mulher com câncer e a lindinha da menina com Síndrome de Down, por exemplo. Estão todas ali. Sem estereótipos imbecis. Sem babaquice. Como merecem e deveriam estar. Como estão ao nosso redor, na vida.

Ao final desta primeira temporada (será que vai ter uma segunda?), eu tava querendo mais, mais, muito mais. Querendo ver. Querendo ser. Querendo escrever.

Quando eu digo que queria ter escrito Mare of Easttown, só pra reforçar, talvez eu esteja fazendo o maior elogio de todos. Sem exagero. Amei WandaVision, amei Falcão e o Soldado Invernal, tô amando a série do Loki. Mas queria ter escrito Mare of Easttown. E ver esta série me deu uma vontade desgraçada de escrever DE NOVO.

É sobre isso. <3

Em tempo (1) – Jean Smart, maravilhosa. Que mulher monumental. Como mãe da Mare, ela rouba a cena sempre que aparece. E incorpora uma personagem que é DIAMETRALMENTE diferente de sua heroína aposentada de Watchmen. Ela é foda. Fiquem de olho em tudo que esta mulher faz.

Em tempo (2) Mare of Easttown tá disponível integralmente na HBO. Acessa teu aplicativo aí ou… bom, dá seus pulos. Não sou eu que vou te ensinar como a internet funciona, hahahaha. <3

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