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Rocketeer e os trinta anos de um clássico subestimado

Um dos filmes inspirados em gibis favoritos deste site que você lê neste momento nunca foi, de fato, um grande sucesso de bilheteria no lançamento… Mas ganhou um belo séquito de apreciadores de sua aura pulp ao longo dos anos. Merecida, aliás.

Por THIAGO CARDIM

Pelo menos na última década, toda vez que a gente tira da manga a carta “adaptação de HQ pro cinema”, é inevitável que as pessoas pensem em super-heróis. E, mais especificamente, nos super-heróis da Marvel ou da DC. Tá, eu sei, você sabe, a parada é uma indústria, um rolo compressor de bilhões de dólares. Mas ao longo da história da Sétima Arte, o que não faltaram foram justamente OUTROS exemplares da Nona Arte indo parar nas telonas. E que passaram longe da Casa das Ideias ou da Distinta Concorrência.

Pô, teve Príncipe Valente ainda nos anos 1950. Na década de 1960, rolaram Modesty Blaise, Diabolik, Barbarella. Pula pros ‘80s, caraca, tome Popeye, Flash Gordon, Tex, Brenda Starr… E na década seguinte, bom, aí rolaram Tartarugas Ninja, Dick Tracy, O Sombra, Lucky Luke, O Sombra, Timecop, O Corvo… E, sim, Rocketeer. Do qual pouca gente se lembra. O que é bastante injusto, aliás. Mas calma que eu já chego lá.

O que eu vou te dizer, apenas para início de conversa, é que esta semana, no dia 21 de junho, completamos exatos 30 FUCKING ANOS da estreia do filme do Rocketeer. Diretamente do agora longínquo ano de 1991, quando este que vos escreve tinha apenas 12 anos. Muito antes MESMO de alguém sequer SONHAR com uma versão cinematográfica do Homem de Ferro.

Tá, tá, pera lá. QUEM?

Estamos falando de um personagem que surgiu originalmente em 1982, como uma história secundária nas edições 2 e 3 de Starslayer, publicação de Mike Grell na Pacific Comics. O herói relutante foi criado pelo ilustrador Dave Stevens, falecido em 2008. A ideia do sujeito foi aproveitar justamente seu estilo de arte numa pegada pin-up e desenvolver uma série da mais pura aventura inspirada na ficção pulp lá dos anos 1930.

Aqui cabe um parêntese – “pulp” virou o nome que descrevia uma série de revistas de ficção bem baratinhas que se tornaram famosas entre o começo dos anos 1900 e continuaram em atividade até por volta da década de 1950. O termo fazia referência à madeira de “baixa qualidade” da qual vinha o papel no qual estas publicações eram publicadas. E, lembremos, estas publicações com histórias exageradas, rocambolescas, heroicas e detetivescas, também eram consideradas “literatura barata”. Só que nelas é que surgiram heróis como Flash Gordon, Doc Savage, O Sombra…

Stevens então fez a sua própria trama para homenagear esta época, a respeito do azarado piloto Cliff Secord, que encontra uma misteriosa mochila com um foguete a jato. E usando um capacete aerodinâmico e bastante estiloso como parte de um dos uniformes mais legais dos gibis, ele sai voando por aí, combatendo o crime (ainda que de um jeito um tanto complicado) e dando bicuda em nazista. Mas, como você deve ter entendido, sem quaisquer superpoderes.

Além da literatura pulp, ficou claro que Stevens também quis homenagear um personagem de nome Rocket Man, com um uniforme similar, estrela dos chamados serials (antepassados dos nossos atuais seriados, cujos episódios em preto e branco eram exibidos nos cinemas) que a Republic Pictures produziu entre os anos de 1949 e 1953.

Inspirado por caras como Will Eisner, Frank Frazetta e Wally Wood, Stevens foi um dos primeiros e mais persistentes representantes do movimento dos quadrinhos independentes. Seu Rocketeer, por exemplo, teve um histórico de publicação bastante errático, passando por editoras como Eclipse Comics e IDW Publishing. No entanto, até o momento de sua morte, o artista manteve total controle sobre sua obra. Era ele quem decidiu seus rumos.

Um dos maiores orgulhos da trajetória do quadrinista, no entanto, foi o que aconteceu com Bettie, a namorada de Cliff nos gibis. Porque qualquer um que prestar um mínimo de atenção vai sacar (e o autor JAMAIS escondeu isso) que ela tinha o visual claramente inspirado na modelo Bettie Page, famosa por seus trabalhos como pin-up nos anos 1950. Dando rosto a ela quase três décadas depois, o artista ajudou a renovar o interesse pela carreira da verdadeira Bettie – que ele viria a descobrir que estava viva e morando perto dele, inclusive. Então ele fez questão de procurá-la e ambos se tornaram amigos. No fim, o quadrinista até deu uma força para que a ex-modelo conseguisse compensação financeira de tantas e tantas fontes que usavam sua imagem e suas fotos sem lhe pagar um único centavo.

Tá, tá, já entendi. Agora fala DO FILME.

Bom, como Stevens era dono de sua própria obra, tal qual Stan Lee em sua cruzada pra levar os personagens da Marvel pros cinemas, ele mesmo preparou o caminho para a adaptação cinematográfica do seu herói. Um ano depois de Rocketeer chegar aos gibis, o roteirista já começou a negociar os direitos – Steve Miner (Warlock – O Demônio) chegou a comprar os direitos em 1983, mas sua primeira versão ficou muito distante do conceito original e aí tudo voltou pras mãos do criador.

Dois anos depois, Stevens então chegou num acordo com os roteiristas Danny Bilson e Paul De Meo, que não só queriam manter o clima de homenagem aos serials mas chegaram inclusive a pensar em lançar a rodar a parada em preto e branco. Foram quase três anos até que eles que foram cair, ironia suprema, nas mãos da Disney (é, ela mesma, a dona da Marvel de hoje em dia), que viu naquela produção um bom potencial de merchandising. É, eles já estavam de olho é nos bonequinhos mesmo.

Tentaram trazer a trama para os dias atuais (no caso, os anos 1980, lembremos), mas Bilson e De Meo brigaram até conseguir manter a história no passado, usando uma argumentação fortíssima: se Indiana Jones funcionou, minha gente? Deu certo. Mesmo assim, entre muitas idas e vindas, infindáveis revisões de roteiro depois, a dupla chegou a ser demitida e recontratada três vezes. Eram as chamadas “diferenças criativas” com o estúdio – o que colocou o projeto no chamado “development hell”.

O inferno só seria desatado e o filme só sairia mesmo da gaveta em 1991. Para a cadeira de cineasta, o time fechou com o ótimo Joe Johnston, de quem os marvetes devem se lembrar como o diretor do primeiro filme do Capitão América, já na era Marvel Studios.

O cara teve que lutar para ter o relativamente desconhecido Billy Campbell no papel principal, já que a Disney queria um rosto famoso como protagonista. Kevin Costner e Matthew Modine foram considerados, Dennis Quaid, Kurt Russell, Bill Paxton e Emilio Estevez fizeram testes, Johnny Depp era o favorito dos engravatados. Vincent D’Onofrio inclusive chegou a dizer “não” para o trabalho. No fim, o diretor convenceu todo mundo de sua decisão – e Campbell devorou os gibis originais, livros de aviação e até passou um tempão ouvindo canções dos anos 1940 para se adaptar. O homem chegou até a lutar contra seu próprio medo de voar, vejam vocês.

Johnston também encarou a resistência do CEO da casa do Mickey Mouse na época, Michael Eisner, que queria porque queria que o diacho do capacete do Rocketeer fosse comum, redondinho, como os dos astronautas da NASA. Esta batalha, pelo menos, ele ganhou.

Com trilha de James Horner, efeitos especiais da Industrial Light & Magic e supervisão de animação de Wes Takahashi (o cara por trás dos efeitos da trilogia De Volta para o Futuro), The Rocketeer custou belos US$ 35 milhões – com direito até, também como Stan Lee, a uma aparição especial do próprio Stevens como o piloto de testes alemão que morre durante um teste da versão dos nazistas para a mochila-foguete.

Mas o ponto é que o filme acabou arrecadando modestos US$ 46 milhões em sua trajetória, o que não chega a ser uma tragédia completa, um fracasso retumbante. Mas para uma aposta como aquela, naquele momento, por mais que grande parte das críticas fosse mais positiva do que negativa, foi pouco.

O estúdio se frustrou, Stevens se frustrou (segundo ele, o material de divulgação da Disney, numa pegada art déco, era lindo mas não deixava claro do que se tratava o filme) e planos para eventuais sequências e uma sonhada trilogia acabaram abandonados.

Nem tudo nesta vida, no entanto, se resume à bilheteria, né.

Pois não mesmo. Porque, apesar dos pesares, o resultado final é DELICIOSO e acabou sendo redescoberto por outras gerações de fãs conforme o filme chegou no mercado de home video.

 Sob a batuta de Joe Johnston, um autêntico aprendiz de Spielberg, The Rocketeer entrega exatamente o que promete, sem exageros, sem megalomania, com graça, carisma e senso de humor – numa narrativa, aliás, bem mais “contida”, bem menos Marvel e mais Indiana Jones MESMO (considere que o diretor trabalhou nos efeitos especiais de Os Caçadores da Arca Perdida). Ou, se você parar pra pensar, mais próxima dos live-actions com cara de sessão de filme matutino pra toda a família que a Disney sempre fez (se ela acertava sempre, aí é outra história).

O Cliff é um sujeito bonitão mas com a vida toda bagunçada. Tá longe do estereótipo de galã. Mesmo que, de alguma forma, ele se meta numa trama que envolve a Hollywood da era de ouro, na Los Angeles lá de 1938, por mais que seja caçado pelos nazistas, pela máfia, pelo FBI, tudo que ele quer é viver quieto. Sossegado. Um camarada de vida simples, que só se importa em voar e ficar com a sua garota no final. Mas claro que todo mundo tem planos pra usar aquele protótipo voador para outras coisas.

Nas páginas de Stevens, o criador dos foguetes de Rocketeer é o personagem Doc Savage, outro clássico herói dos livros pulp da década de 1930. No entanto, na transposição para cinema, a Condé Nast, que tinha os direitos autorais de Savage, não liberou sua utilização. Então, a Disney recorreu ao personagem de Howard Hughes – sim, o magnata da aviação da vida real, aquele mesmo retratado no filme O Aviador, aqui vivido pelo ator Terry O’Quinn (o Locke da série Lost).

Entre as muitas desajeitadas tentativas de Cliff para controlar o foguete em suas costas, aliás, destaque para os ótimos coadjuvantes ao seu redor. Da maravilhosa Jennifer Connelly (que vive a namorada do herói, cujo nome mudou de Bettie pra Jenny por questões de direitos autorais) ao mecânico Peevy interpretado por Alan Arkin, o protagonista está muitíssimo bem acompanhado.

Impossível deixar de destacar o vilão Neville Sinclair, um ator de matinês na pegada Errol Flynn e brilhantemente interpretado por um Timothy Dalton recém-saído do papel de James Bond. Dalton sabe rir de si mesmo, alternando entre o ridículo e o assustador, com uma deliciosa dose de canastrice que só aqueles bons vilões clássicos teriam. Aquele sorriso, aquele olhar, aquele BIGODINHO…

O jornal inglês The Guardian define bem do que estamos falando aqui, no fim das contas, em um memorial em homenagem às três décadas do filme. “As sequências de ação são cheias de suspense e sagacidade visual, especialmente o confronto climático no topo de um dirigível nazista, mas o filme é mais memorável como uma máquina do tempo que te leva para um lugar que nunca existiu, situado entre a história dos desenhos animados e a fantasia da tela de cinema”.

Se isso não te convencer a assistir ao filme, olha… Tá lá no catálogo do Disney+, sem mistério. Dê o play e divirta-se.

E o futuro?

Bom, lá em 2016, a Disney tinha manifestado planos para um reboot de The Rocketeer, rebatizado como The Rocketeers, com roteiro de Max Winkler e Matt Spicer. A ideia original seria uma sequência, ambientada seis anos depois do original, com uma mulher negra como protagonista e nova piloto, depois do desaparecimento de Cliff Secord em missão contra os nazistas.

Nomes como Peter Ramsey (de Homem-Aranha no Aranhaverso) expressaram interesse em dirigir, inclusive, mas as notícias mais recentes, de 2020, dão conta que Azia Squire (O Preço da Perfeição) estava reescrevendo o roteiro para que o filme fosse lançado diretamente no Disney+, com J. D. Dillard (O Mistério da Ilha) na direção.

É o que tem pra hoje, por enquanto.

Ah, sim! Em 2019, o canal Disney Junior lançou uma animação infantil beeeeeeeeem bonitinha, com o mesmo nome e focada em Kit Secord, uma garota de sete anos de idade, tataraneta (ou algo assim) de Cliff e que recebe o jetpack pra se tornar a nova Rocketeer.

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