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Caio e um olhar baterístico sobre a cultura pop

Com o projeto Geek Batera, músico dá a sua reinterpretação para canções de filmes, séries, desenhos animados, games e afins – e além de ser notado por Hollywood, ele virou atração em eventos e em breve deve ir parar na TV

Por THIAGO CARDIM

O ano era 2004. Tal qual um bando de jovens paulistanos que curtem um bom metal espadinha (se o termo não lhe soa familiar, favor ler ESTE texto), um adolescente com cerca de 13 anos de idade se meteu a assistir aquela apresentação do Angra, que abria a turnê do maravilhoso disco Temple of Shadows. A performance de um distinto cavalheiro de nome Aquiles Priester, com sua máscara de polvo cibernético alienígena, mexeu com a cabeça do moleque, cuja vida mudaria pra sempre a partir dali.

O garoto era Caio Gaona, figurinha carimbada que os fãs de cultura pop já devem ter visto (muitas vezes devidamente fantasiado) por trás das baquetas do projeto Geek Batera, seja se apresentando em eventos dos mais diferentes tipos como a Jedicon e a grandiosa CCXP – ou mesmo em seu canal no YouTube, no qual posta vídeos reinterpretando faixas das trilhas sonoras de filmes, séries, games e demais variantes da cultura pop.

Mas tudo começou depois daquele show do Angra, quando o cara começou a matar aula pra estudar bateria. Treinou, se aperfeiçoou, começou até a dar aula. Mas as versões mesmo, aquelas que o tornaram relativamente conhecido por aqui – e, quando falamos “aqui”, entenda este mundinho digital de bits, bytes e likes – só começariam quase 10 anos depois, em 2014.

“Eu estava em um longo caminho, tentando encontrar minha própria identidade”, explica Caio, neste papo exclusivo com o Gibizilla. “Porque, mesmo estando tocando em uma banda relativamente grande na época (Unblackpulse), eu queria fazer algo meu. Então, resolvi gravar a trilha de Pacific Rim (batizado por aqui como Círculo de Fogo) na bateria”. Mal sabia ele que a parada ia viralizar, atingindo hoje belos mais de 40.000 views.

E não ia parar aí.

Hollywood tá de ooooooooolho

Aí, com uma produção bem da trabalhadinha para cada um dos vídeos, Caio começou a se aventurar em todas as frentes possíveis. Mandou ver em épicos como Game of Thrones e O Senhor dos Anéis, explorou a Marcha Imperial de Star Wars, deu sua cara para sons de diversos filmes da Marvel (Vingadores, Guerra Civil, Homem-Aranha, Viúva Negra) e da DC (Coringa, Aquaman, Mulher-Maravilha, Batman vs Superman, Esquadrão Suicida), carregou nas tintas pras canções características de diferentes séries de heróis (de Arrow a Legends of Tomorrow, passando por Defensores, Patrulha do Destino e Jessica Jones)…

Isso sem deixar de lado os animes (Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco, One Punch Man, Boku No Hero Academia, Samurai X) e os jogos de videogame (Sonic, Halo, Final Fantasy, Marvel Vs Capcom).

Ufa.

A produção recorrente o levou, por exemplo, a um momento que considera um dos mais importantes de sua carreira como músico – o Cinematographo, projeto do MIS (Museu da Imagem e do Som, em São Paulo) no qual é convidada uma banda para criar uma trilha sonora experimental para um filme e interpretá-la ao vivo no Auditório MIS. No caso do Gaio (acompanhado dos amigos da banda Triscore), ele fez a sonorização ao vivo do primeiro Guardiões da Galáxia, de James Gunn. Pensa na responsa.

Mas o reconhecimento acabou não sendo apenas daqui – também vindo lá de fora. Quando lançou sua reinterpretação para a canção-tema da série do Demolidor, por exemplo, foi compartilhado por gente como Vincent D’Onofrio (que vivia o Rei do Crime) e Elodie Yung (a atriz que interpretava a Elektra). “Depois foi o Christopher Drake, compositor das animações da DC, e o Kristopher Carter, compositor de Batman do Futuro”, relembra ele, sem jamais se esquecer de um certo Danny Elfman, que coroou a sua versão para o tema do Batman de 1989, e de Ed Boon, um dos cocriadores de Mortal Kombat, que até usou um vídeo de Caio para anunciar um dos personagens de Mortal Kombat X.

Aí, uma turma do elenco da série do Flash, lá do canal CW, também ficou de olho no que Caio fez com as baquetas, incluindo o próprio protagonista, Grant Gustin, e o compositor da trilha, Blake Neely. “Em 2019, o Blake me chamou pra gravar a batera em uma trilha dele”, revela o músico. Infelizmente, a Warner vetou a ideia logo depois da parada gravada, mas Caio reforça que, na trilha sonora do crossover Crise nas Infinitas Terras, se escutam alguns arranjos seus.

Mas e as produções autorais, elas existem?

Ah, existem sim. Apesar, claro, do clima geek acabar permeando também boa parte deste trabalho. Caio estava assinado com uma banda portuguesa, cujo nome é mantido em sigilo, mas por conta da distância e de alguns problemas com a agenda, as duas partes acabaram encerrando essa parceria. O que não foi encerrado foi justamente o contrato dele com a gravadora dos caras, a DyMM Records.

“Não existe emoção maior que lançar algo próprio. Tenho sim ideia de fazer mais coisas e sim, meu contrato com a DyMM cobre isso”, conta ele. “Mas minha ideia agora, além de fazer músicas sobre personagens famosos que tragam alguma mensagem, é fazer trilhas para quadrinhos nacionais”.

A primeira parte, pelo menos, já vem sendo cumprida. Recentemente, ele gravou a faixa Rise Above Pain, com vocais da cantora Bridy. A inspiração é no personagem Corvo, do gente boníssima James O’Barr. “O Corvo é o meu personagem favorito da vida. Sua história, história de sua criação e a própria história de Brandon Lee com relação ao personagem me emocionam muito”. Assim sendo, Caio desenvolveu não só a canção mas também um filtro de Instagram que permitia que as pessoas assumissem a maquiagem característica do anti-herói. “Pensei em uma forma de criar algo imersivo para que as pessoas usassem e deu super certo”.

Meses depois, foi a vez da lindíssima High Price of Life, que traz a voz de Indira Castillo (que também ajudou a desenvolver a letra) e o baixo de Camilla Rodrigues. O título, para os mais atentos, já entrega a temática – O Alto Preço da Vida, minissérie estrelada pela personagem Morte, do gibi do Sandman – mas o contexto é BEM mais profundo.

“Eu luto contra a depressão e ansiedade faz mais de 10 anos e tive um episódio sério de tentativa de suicídio”, abre o jogo Caio, com emoção. “Sendo assim, sempre quis falar sobre isso de uma forma que, além de fazer com que as pessoas se conectassem com a música, fosse um lembrete para mim mesmo. Para nunca desistir de lutar”. O baterista ficou muito feliz com a resposta do público e com o resultado. “A faixa já tocou em rádios grandes do Brasil como a Kiss FM e em uma rádio da Inglaterra”.

Também com os parceiros do quarteto Triscore, Caio promete novidades – porque, sim, mesmo com a quarentena, a banda seguiu em atividades. “A Triscore além de banda é uma família e, mesmo sem shows, continuamos firmes e fortes, trabalhando muito com as versões na internet. Em breve, sairá nosso primeiro som autoral, inspirado em um vampiro famoso dos videogames”. Alguém arrisca um palpite?

Caio conta ainda um passo bastante importante pros músicos, que deve acontecer em breve. “Também seremos banda de um programa de TV aberta focado na cultura geek”. Alguém arrisca um palpite – parte 2?

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