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O Superman que faz sentido está na TV

Nossos mil perdões ao Henry Cavill, que é um cara legal até – mas o Homem de Aço vivido por Tyler Hoechlin na série “Superman & Lois” é a real transposição atual do herói como representação solar do amor e da esperança. Aceita que dói menos.

Por THIAGO CARDIM

Preciso confessar que, em determinado momento da minha vida, eu detestava o Superman – que, na época, eu chamava de Super-Homem, só porque sou velho. Claro que amei a fase pós-Crise do John Byrne, claro que acompanhei todo o drama da morte e do retorno do Homem de Aço, claro que eu estava lá para reclamar mas secretamente achar irada aquela coisa toda de kryptonianos elétricos nos anos 1990. Mesmo assim, Kal-El estava anos luz de ser meu personagem favorito. Aliás, BEM longe disso. O verbo “detestar” lá de cima não é exagero.

Achava ele certinho demais, almofadinha demais, quadrado, coxinha. Reclamava do fato de termos um alienígena na Terra que era fisicamente idêntico a um ser humano – e inclusive fazia piada sobre esperar que algum roteirista fizesse que, de repente, nascesse um pênis bem no meio da testa dele, um efeito inesperado depois de determinada idade para quem nasceu em Krypton, sei lá. O efeito “Cavaleiro das Trevas”, o Supes reaça usado pelo governo dos EUA e depois surrado pelo Morcegão, não ajudou em nada, tampouco AQUELE diálogo no final de Kill Bill. Não era cool gostar do Superman.

Isso até caírem nas minhas mãos dois gibis escritos pelo mesmo Mark Waid – primeiro Reino do Amanhã e depois a mini Legado das Estrelas. E foi aí que passei a ter um olhar diferente sobre ele. Fui mudando aos poucos. Gradual. Olhando para o passado e futuro do herói, as coisas ficaram mais claras para mim. Um enorme sorriso, um imenso coração, o refugiado de um planeta destruído adotado por um casal cheio de amor e que resolve se tornar um símbolo de esperança para a humanidade que o recebeu de braços abertos, mesmo tendo os poderes de um deus sob nosso sol amarelo.

O Superman é o super-herói primordial. O exemplo. O guia. A força. A fé. A empatia. O otimismo irrecuperável. O sol. O dia (esta dualidade com “a noite” incorporada pelo Batman, aliás, é lindamente explorada em Os Melhores do Mundo, de Dave Gibbons e Steve Rude). Assim, ficava ainda mais claro entender o Christopher Reeve do filme clássico de Richard Donner. E assim, fica CADA VEZ MAIS difícil de entender o Henry Cavill dos filmes do Zack Snyder.

Pois então…

Assim, eu já tinha falado, no meu texto sobre o #SnyderCut, que se tinha uma coisa que me agradava naquele filme horroroso de 2017, a Liga finalizada pelo Joss Whedon, eram os 10, 15 minutos finais. Porque, com ou sem bigode, Cavill incorporava ali um Superman de verdade. Sorridente, colorido, iluminado. Um líder, alguém que chega para trazer a força de vontade perdida, alguém que ergue a moral dos companheiros, que os transforma em equipe. Na versão de Snyder, ele vira apenas um par de punhos. Pura força bruta, uma bala de canhão usada para derrotar na base da porrada o Lobo da Estepe.

“Ser herói é se entregar pelo outro, mesmo com medo, mesmo sem ter a certeza de que vai dar certo. Ser herói é sacrifício”, disse ninguém menos do que eu mesmo. E o Superman do Zack Snyder não poderia estar mais distante disso, imerso em suas próprias sombras.

Na real, lá atrás, antes daquela tragédia que atende pelo nome de Batman vs Superman, o cineasta já tinha nos mostrado, em O Homem de Aço (2013), que definitivamente não sacou a ideia por trás do Supinho.

Cavill é um cara incrível, uma fonte de imenso carisma, um homem lindo, divertido, o sujeito que conserta computadores gamer e faz pizzas feias como ninguém… e Snyder não consegue trazer NADA disso pro personagem. O ator, que de fato teria potencial para ser um Kal-El perfeito, está perdido em meio a olhares de fúria e demonstrações gratuitas de poder, numa eterna emulação de um Jesus Cristo messiânico e acima da humanidade. Criado por um Jonathan Kent que ensina que ele não deve se preocupar com ninguém além de si mesmo, este Clark destrói metade da cidade de Metrópolis na ânsia de derrotar seu algoz, sem sequer se preocupar com as pessoas que estão aos seus pés enquanto eles se digladiam nos céus.

Aquilo é qualquer coisa MENOS o Superman.

Aí, quando pintou a série da Supergirl no canal CW, aquela emissora que, com muito menos recursos, construiu sua própria mitologia de heróis muito mais próxima do original do que seus bilionários irmãos dos cinemas, a casa de El enfim ganhou uma representação digna. A Kara de Melissa Benoist obviamente tem suas dúvidas, suas incertezas, dá suas derrapadas… Mas conforme vai ganhando confiança, vai entendendo o que aquele símbolo em seu peito significa. E o poder das mensagens que pode transmitir, mais do que os raios de calor que emite pelos olhos.

E então, eis que pouco depois, entrou pro panteão televisivo dos caras a versão CW do primo de aço. Kal-El em pessoa. Vivido por Tyler Hoechlin.

Senhoras e senhores, ISSO sim é um Homem de Aço

Nas suas aparições na série da Supergirl e nos crossovers entre os múltiplos personagens de todas as séries, é preciso dizer que Tyler já tinha roubado a cena. Já tinha mostrado definitivamente a que veio. Mas o melhor ainda estava por vir. Porque eis que estreou a primeira temporada de Superman & Lois, nova série estrelada por ele e pela esposa, Lois Lane. E aí, minha gente, realmente ficou pequeno pra visão do Zack Snyder. Comparar os dois retratos do personagem era praticamente justapor Clark e o Bizarro. Antíteses completas e absolutas.

De longe, assim, mas muito de longe MESMO, Superman & Lois é a melhor coisa que o canal CW produz atualmente com os heróis da DC – e veja, isso vindo de alguém que assiste TODAS as séries deles, desde sempre. Vi Arrow inteirinha, cara. Estou me submetendo ao sofrimento que é esta série do Flash atualmente. E devo dizer que, mesmo sendo um evangelizador da palavra da zoeira completa que é Legends of Tomorrow, que eu AMO, Superman & Lois tá um nível acima. A narrativa é diferente, a produção tem um quê especial, parece até que bem mais orçamento pros efeitos especiais… Não que o segredo esteja aí. Na real, o segredo tá no coração.

E digo mais – é uma série que você consegue assistir tranquilamente mesmo sem ver qualquer outra das séries do CW, serião. Tem uma ou outra menção ali, mas nada que vá complicar a sua vida, a sua compreensão. A trama vive sozinha. Vá totalmente sem medo.

Esta sequência de meros cinco minutos já é MUITO mais Superman do que qualquer coisa que Zack Snyder tenha dirigido. Se liga no uniforme que faz referência ao clássico, do surgimento do herói, lá de 1938. E no breve diálogo com o garotinho. É lindo. É emocionante. É heroico de verdade.

Clark e Lois são casados e têm dois filhos adolescentes, Jordan e Jonathan. Depois da morte de Martha, mãe de Clark, eles decidem buscar uma vida melhor na tranquilidade do interior – e acabam se mudando pra Smallville, pro sítio da família Kent. Então, o alter ego do Azulão tem que encarar suas raízes, suas origens, ver tudo que mudou e aquilo que mesmo depois de décadas permanece igual. Não quero dizer mais nada, mas estamos falando de uma série na qual os heróis estão, como SEMPRE deveria ser, no pano de fundo. Não é sobre eles. Não é sobre poderes. É sobre o Clark. É sobre herança. É sobre legado. É sobre família. Em muitos aspectos e camadas diferentes.

Tyler Hoechlin sabe ser tanto Clark Kent quanto Superman. Ele é inspirador, admirável, impactante enquanto veste a capa vermelha. O herói que levanta aquele UAU, que impressiona, que dá segurança, “ufa, ele chegou, agora tá tudo bem”. Mas enquanto Clark, é doce, delicado, amável, um paizão incrível. Por mais que tenha suas questões, tropece, bata cabeça, ele sabe admitir seus erros, pede desculpas, tenta de novo. Lindeza pura. Como eu queria ver. Como deveria ser. Ainda mais em mundo como o que vivemos hoje. Pelo menos AQUI, na telinha ou na telona, deveria ser possível reconhecer alguém em busca da paz, da esperança, da harmonia.

A primeira temporada terminou lindamente, com as doses certas de ação e emoção. Como bem disse o amigo Silas Chosen, criador do nosso mascote aqui do site, sim, é novelão. Claro que é. E não que isso, pra gente aqui no Brasil, signifique um demérito. Até porque, vamos lá, quadrinho de super-herói é e sempre foi novelão. A diferença é que este Superman te faz enxergar o mundo com mais otimismo, ajudando o próximo. Enquanto o outro lá, da tela grande, quer te convencer que tudo na vida se resolve na base da cacetada e foda-se o outro. Sacou a diferença?

Em tempo – Superman & Lois tá disponível lá no HBO Max. Alguém avisa lá o Snyder. Qualquer coisa, até empresto a minha assinatura pra ele.

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