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Aquaman 2 encerra DCEU com misto de diversão e melancolia

Continuação das aventuras do herói submarino mostra o que o Snyderverso talvez pudesse ser… e o que o novo DCU de James Gunn JAMAIS deveria fazer

Por THIAGO CARDIM

Chega a ser sintomático que a última cena do último filme do chamado DCEU, o tal DC Extended Universe, seja uma referência direta à última cena do primeiríssimo filme do MCU. Pois é: Aquaman 2 – O Reino Perdido, filme que coloca o prego final no caixão do Snyderverso, abrindo as portas para o DCU comandado por James Gunn, se encerra fazendo uma piada com a sequência final do primeiro filme do Homem de Ferro, de 2008.

É quase como se o DCEU cujas bases foram plantadas por Zack Snyder, aquele mesmo que tentou correr para montar a sua Liga da Justiça, que se apressou para ter material capaz de combater de frente os Vingadores e que acabou enfiando os pés pelas mãos, dissesse assim: “Tá bom, vai, não deu. Que seja. Nós tentamos, mas fracassamos. Valeu aí pela paciência, galera”.

Aquaman 2 – O Reino Perdido encerra o DCEU sem encerrar, de fato. As tais cenas gravadas tanto com Ben Affleck quanto com Michael Keaton (fazendo referência ao seu Batman que ressurgiu naquele pavoroso filme do Flash) não foram sequer usadas. Aquaman 2 é apenas e tão somente um filme do Aquaman. Não tem referências ao restante do Universo DC, não tem participações especiais… E não que isso, seja, necessariamente uma coisa ruim. Afinal, o que o diretor James Wan faz aqui é novamente uma história autocentrada, com começo-meio-fim, um pipocão divertido e sem compromissos – que conversa MUITO mais com os filmes do Shazam e do Besouro Azul do que com a Liga da Justiça pretensamente adulta e sombria de Snyder.

Na verdade, Aquaman 2 parece muito mais MCU do que DCEU, pelo humor, pelo sentimento, até mesmo pelas questões envolvendo problemas familiares. O que, portanto, torna esta despedida algo com um quê de melancólica…

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Aquaman 2
Aquaman 2

Treta entre Manos

Conforme a bola que Wan já tinha cantado, Aquaman 2 – O Reino Perdido é um filme sobre irmãos. Sobre a relação de Arthur Curry (Jason Momoa, aparentemente se divertindo como sempre, apesar das óbvias limitações dramáticas) com Orm, o Mestre dos Mares (Patrick Wilson, que ganha muito mais tempo de tela e, portanto, consegue também mostrar a que veio). Mas é, antes de tudo, um filme sobre FAMÍLIA.

Agora o governante do Reino da Atlântida, nosso Aquaman – que, em seus filmes solo, é um personagem completamente diferente do beberrão insuportável e unidimensional que vemos nos outros filmes do DCEU – também é pai. E ele se sente, apesar dos deveres com o pequeno bebê Junior, muito mais à vontade brincando com o garoto ou socando malfeitores na linha de frente do que tendo que encarar as burocracias que o trono e a coroa lhe trazem.

Mesmo depois da perda de seu mentor Vulko (Willem Dafoe, cuja agenda impediu que ele participasse desta continuação), Arthur é apoiado pela esposa Mera (Amber Heard, que apesar da “polêmica” nos tribunais com Johnny Depp, tem mais espaço na trama do que imaginei) e pela mãe Atlanna (Nicole Kidman). Mas vai precisar engolir o orgulho e recorrer ao meio-irmão Orm, seu grande antagonista no filme anterior, atualmente mantido prisioneiro, se quiser encarar uma imensa ameaça global – do tipo que acelera e muito os efeitos já danosos do aquecimento global.

Com o que eu te contei até aqui, dá pra dizer que Aquaman 2 – O Reino Perdido, apesar de não ser tão cheio de personalidade como seu antecessor, é uma diversão que vale a pena o ingresso. Visualmente exuberante, sabe fazer graça, sabe entregar boas cenas de ação e, principalmente, sabe lidar com o coração – de maneira até meio brega, o que não é um problema ao se tratar de um filme de pessoas usando colantes coloridos para combater o crime.

Mas, de alguma forma, ele carrega um vício que, se James Gunn quiser fazer o DCU acontecer DE FATO, ele precisa mesmo evitar desde o dia 1.

Precisamos falar sobre os vilões

Uma espécie de coadjuvante de luxo no filme anterior, desta vez o Arraia Negra vivido por Yahya Abdul-Mateen II ganha o destaque devido. Estamos falando de um dos meus vilões favoritos do universo DC nos gibis – e que agora usa, inclusive, um uniforme ainda mais parecido com a sua versão impressa. Com mais liberdade para o ator (que, em breve, será o herói Magnum nas séries da Marvel) ser maligno o suficiente, era natural que o Arraia brilhasse em Aquaman 2 – O Reino Perdido. Mas este potencial acaba sendo eclipsado pela insuportável ameaça do “mal terrivelmente genérico”.

Aquaman 2
Aquaman 2

A gente sabe, desde o filme anterior, da treta que o Arraia tem com o Aquaman, por conta da morte do seu pai. Naturalmente, em uma trama que carrega “família” no DNA, seria natural que o sujeito se tornasse o vilão ideal aqui. Mas para dar mais poder ao Arraia, eis que o rival acabou encontrando um certo tridente negro, artefato de alguma forma ligado ao tal “reino perdido” que está no subtítulo do filme. E sem entrar necessariamente em spoilers, o fato é que o Arraia se torna uma marionete de um ser ancestral sem qualquer graça, um Sauron wannabe versão aquática de voz cavernosa e liderando uma legião de zumbis embaixo d’água.

Tá aí uma lição que Gunn pode e deve aprender com relação ao DCEU e, sejamos honestos, até mesmo com o MCU: o Arraia estava ali e já seria o bastante para fazer o filme acontecer. Não precisava de uma criatura sobrenatural, das trevas, das sombras, como diabos quiser chamar, para ser o grande manipulador… e, porra, ainda mais do tipo cujo grande duelo final é algo total e absolutamente anticlímax.

Wan, meu querido, dava pra deixar a sua tara por filmes de terror de lado só um tantinho. Não ia fazer mal algum. Pelo menos pra trama.

Enfim…

O DCEU está oficialmente morto e enterrado. James Gunn já anunciou os primeiros passos do DCU. O papo é de que Momoa talvez retorne como Lobo, o último czarniano. Quanto ao Aquaman, até o momento, não fazemos ideia de qual será o papel nos anos que se seguem. Talvez fosse o caso de deixar o herói submarino “descansar” até repensar o que fazer com ele, tal qual deve acontecer com a Mulher-Maravilha, por exemplo. Um passo de cada vez.

Tchauzinho, Snyderverso. Pelo menos por aqui, não vamos sentir nem um tantinho de saudades de você.

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