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Viúva Negra faz justiça e traz um climão de porradaria pro MCU

O tão aguardado e prometido filme da Natasha chegou, encerrando o hiato cinematográfico pandêmico da Marvel e entregando o nível de ação desenfreada que se esperava, dando um fim em um ciclo e abrindo as portas para outro

Por GABRIELA FRANCO & THIAGO CARDIM

Se existe uma verdade inegável no chamado MCU, o universo compartilhado cinematográfico da Marvel, ela é o quanto a Viúva Negra foi tratada durante muito tempo como refugo, mesmo fazendo parte da equipe principal dos Vingadores. No máximo, uma coadjuvante de luxo. 

Nem um filme solo ela teve (nem ela e nem o Gavião Arqueiro, mas enfim, aí é OUTRA conversa), quando poderia ter sido justamente melhor aproveitada e apresentada do que naquele desnecessário momento sex symbol em Homem de Ferro 2. A Marvel Studios podia ter sido pioneira ao lançar uma produção protagonizada por uma mulher – diabos, eles fizeram filmes de personagens obscuros como os Guardiões da Galáxia (com um homem-árvore e um guaxinim na equipe!) e o Homem-Formiga, qual seria o problema de investir na Natasha?

A resposta tá duas frases antes. Seria uma “uma produção protagonizada por uma mulher”. E tava claro que era mais fácil pro “nerd” padrão que curte filme de hominho e grita aos quatro cantos que não quer política no seu gibizinho aceitar um homem-árvore e um guaxinim falante do que uma mulher roubando o seu protagonismo fálico. 

Mas aí a DC lançou Mulher-Maravilha, foi um baita sucesso, as mulheres lotaram os cinemas, se sentiram representadas, amaram, e deu no que deu. Depois que as águas foram testadas por um estúdio rival, a Casa das Ideias abriu as portas para lideranças femininas, mas acabou começando com Capitã Marvel. Só depois que isso funcionou é que então eles resolveram que era a vez de dar a chance pra Viúva Negra. Até que enfim. 

Só que isso só aconteceu quando a Natasha morreu. 

Um filme que chegou atrasado?

Bom… talvez. É um jeito de pensar. Era óbvio que a gente queria ver a Natasha ganhando destaque, protagonismo, muito antes. E é claro que foi MUITO anti clímax vê-la morrendo em Vingadores – Ultimato e depois assistir ao seu filme solo (que, cronologicamente, se passa entre o final de Guerra Civil e Guerra Infinita), já sabendo qual era o destino da personagem. 

Seria Viúva Negra, o filme, só um prêmio de consolação? Um mero trampolim para Scarlett Johansson se despedir e eles poderem apresentar a nova Viúva, Yelena Belova (vivida por Florence Pugh), ao mundo e então posicioná-la como parte de seus planos futuros, com um novo Capitão, uma nova Thor, uma Gaviã Arqueira, uma Mulher-Hulk e afins? É, de fato, um jeito de pensar. E, hey, a gente não julga quem ficou puto com isso. 

Sem rodeios, mas é CLARO que a Marvel usou Viúva Negra para cumprir parte de sua programação a longo prazo com Yelena. Mas a reclamação sobre Natasha estar cercada de coadjuvantes, sobre ter uma “família” que eventualmente lhe tiraria o estrelato, não faz sentido. Porque estamos falando sobre suas raízes, suas origens. Este tipo de aprofundamento nunca tinha sido dado a ela – talvez apenas uma pincelada naquele filme horroroso chamado A Era de Ultron, pode ser. Então, sim, este filme chegou atrasado. Mas chegou. E fez bem. Fez bonito. 

Não é uma obra prima. Não tem o clima de filme de espionagem de um Soldado Invernal, por exemplo. É até injusta a comparação, apesar de também ter a Natasha, até porque nem era mesmo a ideia, por mais que muita gente estivesse aparentemente esperando por isso. Depois de fazer space operas, filmes de assalto e comédias de aventura, a Marvel resolveu fazer de Viúva Negra um filme de ação. Simples, direto, sem rodeios, sem grandes aspirações. Sabe a saga de Jason Bourne? Bem isso. Só que com uma mulher no papel principal. Uma mulher que chuta bundas pra valer, pé na porta e soco na cara. 

Viúva Negra é James Bond do Daniel Craig, é Busca Implacável com Liam Neeson. Mas estrelado por uma mulher. Será que não foi isso que incomodou os nerdolas? Já que fizeram um estardalhaço quando anunciaram que o personagem uber macho de Ian Fleming poderia ser uma mulher?

Veloz e furiosa

A história de Viúva Negra é bem simples, com uma premissa que a leva de volta ao seu treinamento na Sala Vermelha, na antiga União Soviética, e sua missão disfarçada em pleno solo americano, convivendo não apenas com a caçula Yelena mas também com Melina Vostokoff (Rachel Weisz) como sua mãe e o fanfarrão Guardião Vermelho (David Harbour, sensacional) no papel de pai. O reencontro a leva a dar de cara também com o General Dreykov (Ray Winstone), que controla o programa que criou as Viúvas, um homem cruel que deixou a maior parte das cicatrizes que Natasha carrega consigo e que está longe de ser só uma lembrança nos bastidores de um império caído. 

E era só o que precisava. Tá pronto. 

Tem o Treinador? Ah, tem sim. Mas é uma versão BEM diferente daquele falastrão egomaníaco quase Deadpool dos gibis. A surpresa sobre QUEM está por baixo da máscara existe mas, de verdade, um pouquinho de atenção já te ajuda a matar a charada – e, ainda assim, faz MUITO sentido com relação ao restante da história. Tem o Guardião papaizão total, fazendo piada de tiozão, contando história, ressentido por não ter lutado com o Capitão América? Mas ô se tem. 

Mas nada disso tira, nem de longe, o protagonismo da Natasha. Nem mesmo a própria Yelena, que tem uma tirada ótima sobre o lado mais “heroístico” da irmã mais velha, por mais que seja uma personagem incrível e prometa muito para o futuro, tira os holofotes da Naty. Porque quando a diretora Cate Shortland resolve pisar no acelerador, o negócio vai que vai. A pancadaria come solta, em cenas de uma adrenalina que dá gosto de ver. E ali Natasha brilha e reina, ganhando de goleada. 

Se você é do tipo que curte os machos musculosos se quebrando no soco dentro de um helicóptero despencando em alta velocidade como acontece num Velozes e Furiosos da vida, tá aqui um prato cheio pra você se divertir. Agora, se o teu problema é o fato deste tipo de cena ser protagonizado por uma MULHER, aí a gente já sabe que nome dar a isso, né…

Falando nisso, aliás, até mais do que o próprio legado da Natasha, uma coisa que Viúva Negra traz de importante, fundamental até, é a alegoria sobre o controle masculino que Dreykov representa. Ele, que é o REAL vilão da história toda, quer submeter cada uma daquelas mulheres à sua vontade – e em uma determinada cena, talvez uma das mais fortes e emblemáticas do filme, faz questão de colocar umas contra as outras, incorporando de vez a figura do patriarcado. 

Se fosse APENAS por esta sequência – e pelo que acontece logo depois, que fique claro – o filme já teria valido a pena. Mas o pacote completo de diversão é bom, gostoso, pipocão, sem maiores pretensões de ser algo além disso. Dá até pra dizer que é um filme “menor” da Marvel, menos épico, pomposo, menos “chama todos os heróis aí”, sem que isso signifique necessariamente um demérito. Em hipótese nenhuma. 

Sim, talvez você estivesse esperando algo muito maior, grandioso, trombetas ressoando, ainda mais depois de tanto tempo sem nada deste universo nos cinemas. 

Sim, talvez a promessa de termos ENFIM um filme da Viúva Negra te fizesse sonhar com uma produção BIG, tamanho-família, estrondosa. 

Mas aí, gente, é aquela coisa… Expectativa, cara, é uma merda. E ela é a mãe da decepção. 

A gente veio, viu e se divertiu. E nos bastou. Simbora pro próximo. 

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