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É hora de conhecer a Coração de Ferro

Finalmente estreou, nesta terça-feira, dia 24, a série da Riri Williams, nova heroína do MCU que você DEVERIA saber quem é

Por THIAGO CARDIM

O anúncio oficial aconteceu em 2020, durante um daqueles dias dedicados aos investidores endinheirados: a Disney, por meio da Marvel Studios, iria produzir uma série da personagem Coração de Ferro (Ironheart), a jovem prodígio que assume o legado tecnológico de Tony Stark, como parte do cada vez mais crescente MCU.

As gravações rolaram dois anos depois, ao longo dos meses de junho e novembro de 2022, nas cidades de Atlanta e Chicago. E, desde então, apenas espera. Uma longa e interminável espera. Daquelas que a gente já se acostumou a passar nos últimos anos, com alguns projetos específicos da Marvel (oi, Blade, tudo bem?).

Mas finalmente, neste dia 24 de junho de 2025, o Disney+ liberou os três primeiros episódios de Coração de Ferro, com uma trama que mistura ciência, magia e representatividade. Na próxima terça (1º de julho), teremos outros três episódios, fechando a temporada – sim, é isso mesmo, seis episódios e acabou.

“Ah, esta é uma daquelas séries pras quais a Marvel não tá dando a mínima, tipo a da Eco, por isso tão tentando desovar tudo de uma vez só”, você poderia dizer. E talvez não estivesse tão errado. Mas da mesma forma que Eco acabou sendo uma série muito melhor do que muita gente sequer imaginava, por que não dar uma chance real e oficial para uma personagem que, pelo menos nos quadrinhos, já mostrou a que veio tem muito tempo?

A gente assistiu aos primeiros episódios, que mostram o retorno de Riri pra Chicago, depois de abandonar os estudos no MIT – afinal, ela está cada vez mais obcecada não em buscar notas finais pra concluir o curso, e sim em usar as instalações da instituição para concluir a sua armadura. Mas voltar pra casa, além de trazer uma sensação de fracasso, também intensifica o seu luto, a sensação de culpa por ter presenciado a morte de seu amado padrasto e Natalie, sua melhor amiga, graças um tiroteio entre gangues rivais.

Coração de Ferro tem muito menos de Homem de Ferro e muito mais de uma mistura entre Homem-Aranha (pela juventude inexperiente da personagem e de sua capacidade de transformar qualquer coisa em uma piada fora de hora) e Luke Cage (pela importância da comunidade local como personagem coadjuvante) – e, óbvio, um quêzinho daquele primeiro filme do Homem-Formiga, em especial quando ela se envolve com os criminosos da gangue do Capuz.  

Quem é Riri Williams nos quadrinhos

Riri Williams surgiu em Invincible Iron Man #7 (2016), criada por Brian Michael Bendis e Mike Deodato Jr. Aos 15 anos, a jovem gênio do MIT constrói sua própria armadura inspirada no Homem de Ferro. Após Tony Stark entrar em coma, uma inteligência artificial baseada nele passa a orientar Riri em suas aventuras como a heroína Coração de Ferro.

A jovem nasceu em Chicago, pouco depois da morte de seu pai, e cresceu no bairro de South Shore ao lado da mãe, do padrasto e da irmã. Desde muito pequena, demonstrava um intelecto fora do comum — aos cinco anos foi diagnosticada como supergênio por um psicólogo infantil, o que levou sua família a buscar formas de desenvolver suas habilidades enquanto oferecia o suporte emocional necessário. Introvertida e obcecada por ciência, Riri se destacava nas escolas e, ainda criança, declarou que queria se tornar cientista. Quando uma professora tentou desencorajá-la com um comentário enviesado sobre o que seria possível para uma jovem negra, Riri encarou aquilo como um desafio — e decidiu que provaria que poderia ser tão brilhante quanto Tony Stark.

Aos dez anos, ela fez sua primeira e única amiga, Natalie Washington, que se impressionou com suas invenções improvisadas feitas na garagem. Um ano depois, Riri conquistou uma bolsa para o MIT. Mas aos 13 anos, sua vida sofreu uma reviravolta trágica: durante um piquenique no parque, ela, Natalie e sua família foram vítimas de um tiroteio. Natalie e o padrasto de Riri morreram por balas perdidas. O trauma moldou ainda mais sua determinação em usar a tecnologia para o bem, pavimentando o caminho que a levaria a construir sua própria armadura – e o resto é história.

Brian Michael Bendis, conhecido por criar personagens que depois se tornariam icônicos como Jessica Jones (a detetive um tanto problemática que, aliás, vai retornar do Netflix diretamente pra próxima temporada da nova série do Demolidor) e Miles Morales (o novo Homem-Aranha, claro), uniu-se ao artista brasileiro Mike Deodato Jr. para criar Riri Williams: uma personagem que foi abertamente inspirada na atriz Skai Jackson, conhecida pelo papel de Zuri Ross na série Jessie, do Disney Channel.

A intérprete de Riri Williams

Dominique Thorne, atriz americana formada em engenharia elétrica, dá vida a Riri Williams no MCU. Antes de Coração de Ferro, ela apareceu em Pantera Negra: Wakanda Para Sempre (2022), onde sua personagem auxilia Shuri na luta contra Namor. Thorne também atuou em produções como Se a Rua Beale Falasse e Judas e o Messias Negro.

Em Pantera Negra: Wakanda Para Sempre, Riri é apresentada como uma estudante do MIT que desenvolve uma armadura avançada (e que, no esquema de improviso, lembra bastante a desengonçada armadura original de Stark no primeiro filme do herói). Ela é recrutada por Shuri e Okoye para ajudar na batalha contra Namor, marcando sua introdução no MCU.

Criada e escrita pela poeta, educadora e dramaturga Chinaka Hodge, a série conta com produção executiva de Ryan Coogler (o diretor dos filmes do Pantera Negra), Kevin Feige e Louis D’Esposito. Além de Dominique Thorne, o elenco inclui Anthony Ramos como Parker Robbins/Capuz, Lyric Ross como Natalie Washington, Alden Ehrenreich como Joe McGillicuddy, Manny Montana, Anji White e segundo consta… Sacha Baron Cohen em um papel não revelado (mas adivinha só QUEM os rumores dizem que ele será? Lembram de WandaVision? Pois então…).  

Capuz: entre ciência e magia

O antagonista de Riri na série é no mínimo inesperado: tamos falando de Parker Robbins, conhecido como Capuz, um criminoso que adquire poderes mágicos ao roubar um manto e botas de um demônio. Ele pode se tornar invisível e levitar, representando uma ameaça que une tecnologia e magia.

O Capuz é um sujeito que, desde seu surgimento nas HQs, acreditava piamente que o que estava fazendo era o certo (como todo bom vilão deveria pensar, aliás). E é compreensível que ele e Riri se cruzem porque ambos se encontram em um lugar comum de entenderem a importância da sua pequena comunidade local, sua galera, seus bairros. Agora… misturar tecnologia e magia? Será que dá liga?

Nos gibis, por exemplo, Riri já tinha usado os dez anéis do Mandarim, inimigo recorrente do Homem de Ferro. Mas a decisão criativa da série faz ainda mais sentido.

Hodge e a produtora executiva Zoie Nagelhout estavam particularmente interessadas ​​em explorar a tensão entre o científico e o místico, à medida que Riri percebe que seu mundo pode ser maior — e mais estranho — do que ela esperava. O resultado é uma série que quer ser realista e pé no chão — mas que também não tem medo de se desviar para o fantástico. Como diz Coogler: “Essa [mistura] de Marvel de rua e Marvel mágica é uma combinação bem maluca”.

Controvérsias e representatividade

Desde sua criação, Riri Williams enfrentou críticas de alguns fãs que rejeitam personagens que assumem legados de heróis clássicos. Acusações de “lacração” foram direcionadas à personagem, refletindo debates sobre diversidade e representatividade nos quadrinhos e no MCU.

Você sabe, aquele papinho FURADO daquela turma de ARROMBADOS que você bem sabe quem são. Já dava pra esperar que, no surgimento de uma versão live-action, a coisa toda ganhasse novo corpo.

No entanto, Robert Downey Jr., o eterno Tony Stark, expressou apoio à série e à atuação de Dominique Thorne. Em entrevista, Thorne revelou que Downey Jr. lhe deu “dois polegares para cima”, demonstrando entusiasmo com a nova heroína.

“Muitas pessoas acham que ela é uma sucessora do legado do Homem de Ferro, mas nos quadrinhos, Riri e Tony eram amigos”, explica Coogler. “Ele a aconselhava, e eventualmente ela ganhou sua própria identidade como Coração de Ferro”. E Nagelhout complementa: “Na verdade, é sobre ela provar seu valor e alcançar seu próprio legado”.

Coração de Ferro já está disponível no Disney+, com os três primeiros episódios lançados essa semana.

BÔNUS: PARA COMEÇAR A LER A CORAÇÃO DE FERRO

Quer saber por que Riri Williams conquistou um espaço tão importante no Universo Marvel? Estas cinco HQs são um ótimo ponto de partida para mergulhar no mundo da Coração de Ferro:

1. Invincible Iron Man (2016) #7–14 – A estreia de Riri
Riri Williams aparece pela primeira vez nesta fase escrita por Brian Michael Bendis com arte de Mike Deodato Jr.. A jovem gênio do MIT constrói sua própria armadura baseada na de Tony Stark — e chama a atenção do próprio Vingador Dourado.

Por que ler: É o nascimento da heroína e da mitologia moderna da Coração de Ferro.

2. Invincible Iron Man (2017) #1–11 – A nova geração
Com Tony Stark em coma, Riri assume de vez o manto de heroína — agora com orientação de uma IA do próprio Stark. A série investe no desenvolvimento emocional de Riri, sua vida familiar e o desafio de ser uma adolescente super-heroína.

Destaque: Os embates contra vilões clássicos como o Controlador e a aparição de outros jovens heróis.

3. Champions (2019) – Equipe jovem, ideias grandes
Riri entra para os Campeões, grupo formado por Kamala Khan (Ms. Marvel), Miles Morales (Homem-Aranha), Viv Vision e outros. A série explora dilemas éticos, ativismo e colaboração entre jovens superpoderosos.

Pra quem curte: Dinâmicas de equipe, conflitos ideológicos e a construção de uma nova geração de heróis.

4. Ironheart (2018) #1–12 – A série solo de Riri
Escrita por Eve L. Ewing, essa é a primeira série solo de Riri Williams. Aqui, ela encara vilões como Midnight’s Fire e se aprofunda na busca por sua identidade como heroína e pessoa.

Por que é essencial: Dá profundidade à personagem, com temas como pertencimento, legado e ciência como poder de transformação.

5. Ironheart 2020 – Quando o mundo vira de cabeça para baixo
Durante o evento Iron Man 2020, Riri encara uma crise que testa seus limites técnicos e morais. Enfrentando dilemas sobre inteligência artificial e livre-arbítrio, a HQ a coloca diante de decisões que moldam sua evolução.

Indicação final: Para quem quer ver Riri em uma trama densa e alinhada com discussões atuais sobre tecnologia.