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Jaguar e o humor que virou arma contra a ditadura

Aos 93 anos, foi-se um dos nossos maiores, chargista e cartunista que influenciou gerações – acima de tudo, um humorista político feroz, que jamais achou que “arte sem política” fizesse sentido

Por THIAGO CARDIM

Morreu neste domingo, 24 de agosto de 2025, no Rio de Janeiro, Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe — o icônico Jaguar. Aos 93 anos, ele deixa um legado indelével como um dos cartunistas mais influentes do país e cofundador do lendário jornal O Pasquim.

Jaguar estava internado no Hospital Copa D’Or, vítima de infecção respiratória que se agravou com complicações renais; o artista estava em cuidados paliativos nos últimos dias.

De bancário a chargista contestador

Nascido no raro e bissexto dia 29 de fevereiro de 1932, no Rio de Janeiro, quando criança Jaguar queria ser comandante de navio – mas a realidade falou mais alto e ele começou sua carreira de fato trabalhando no Banco do Brasil. Só que, desde moleque, ainda franzino, já carregava os rabiscos consigo, chegando a ser expulso do Colégio Marista São José por ter desenhado tirinhas pornográficas tendo os padres como protagonistas.

Em 1952, ao mesmo tempo em que mantinha o trabalho para o qual prestou concurso e lhe garantia certa estabilidade financeira (ainda que tenha zerado no teste de datilografia, outros tempos), já publicava cartuns na revista Manchete, graças ao incentivo do cartunista Borjalo, que inclusive foi quem sugeriu seu pseudônimo de artista.

No banco, onde ficou por 17 anos, tinha como chefe ninguém menos do que o cronista Sérgio Porto, aquele mais conhecido pelo pseudônimo Stanislaw Ponte Preta – e foi ele quem aconselhou o jovem, em suas fartas e variadas reuniões no bar mais próximo: “calma, continua desenhando, mas não larga este trabalho de carteira assinada aí ainda não”. Ele só sairia do mundo corporativo em 1974, anos depois da fundação d’O Pasquim. Mas nunca deixaria de ser o ilustrador da maior parte dos livros do amigo.

No entanto, em 1968, lançou sua primeira coletânea, Átila, você é bárbaro, que trazia como protagonista o lendário Bóris, o Homem-Tronco, personagem sem pernas que dirigia um carrinho quadrado. A arte de Jaguar acabou sendo reconhecida por traços vigorosos, irregulares e irônicos, com humor ácido voltado ao cotidiano e à política. Autodepreciativo, certa vez disse que “nunca soube desenhar”, mas seu traço rústico e contundente deu voz ao humor como crítica social afiada.

“Eu detesto desenhar!”, dizia abertamente este vascaíno que evitava falar de futebol. “Se um dia eu puder ou tiver que parar de desenhar, não desenho mais. Minha única inspiração é a seguinte: eu tenho que entregar a porra do desenho! Se não, eles não me pagam”.  

Ao longo de sua história, foi cartunista da renomada e fina revista Senhor e colaborou com a Revista Civilização Brasileira, a Revista da Semana, a Pif-Paf (do igualmente fundamental Millôr Fernandes) e com os jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora. Neste último, aliás, em meio ao Golpe de 1964 e à chegada do AI-5, foi onde o botequeiro Jaguar ficou amigo da dupla Tarso de Castro e de Sérgio Cabral, ao lado da qual descobriu a vocação ainda maior pelo humor etílico e sem papas na língua contra os poderosos…

Criador do Pasquim e da irreverência em papel

Em 1969, Jaguar juntou-se a Tarso, Sérgio e outros nomes como Ziraldo e o próprio Millôr para fundar O Pasquim, jornal satírico que se tornou símbolo da imprensa alternativa durante a ditadura militar. Ele mesmo batizou a publicação, levando em conta o significado de jornaleco difamatório que a palavra já tem: “Já que vão nos chamar de pasquim vamos antes usar o nome. Terão de inventar outros nomes para nos xingar”.

O Pasquim foi um instrumento de resistência cultural: após a promulgação do AI‑5 e com censura crescente, a equipe resistiu com charges, sátiras e jornalismo irreverente — até enfrentou prisão e atentados a bomba. Jaguar, como parte ativa da chamada “imprensa nanica”, foi símbolo de coragem editorial.

Entre suas criações memoráveis está o mascote Sig, ratinho inspirado em Sigmund Freud, criado em parceria com Ivan Lessa, que virou símbolo visual do Pasquim e estampava capas e seções do jornal, apaixonado por Odete Lara e Tânia Scher. Além dele, também circulavam pelo periódico personagens como Gastão, o Vomitador (que, como o nome já indica, vomitava todas as maiores barbáries contra a ordem vigente), as aranhas Jacy e Hélio, a Anta de Tênis e BD, o Capitão Ipanema, protagonista da tirinha Chopnics (mistura de chopp com beatniks).

“A fundação de O Pasquim logo depois do AI-5 foi uma coisa inteligentíssima, né?”, disse ele certa vez, aos risos. “Um grupo de pessoas consideradas de um certo QI, esperou o AI-5 pra abrir um jornal pra falar mal do Governo! Foi uma ideia brilhante! Deu tanto resultado que, seis meses depois, 80% da redação estava em cana”.

Todavia, aos trancos e barrancos, Jaguar foi o único fundador a permanecer até o fim da publicação, em 1991. E de teimoso: se afastou de alguns antigos amigos, arrumou briga com outros, se negava a acreditar que o fim tinha chegado e acabou até dormindo em plena redação jornalística de tanto trabalhar. E insistiu até o último minuto, lutando por um veículo de comunicação que, naquele momento, já não representava quase nada para as novas gerações. O mundo mudou. E O Pasquim fechou as portas.

O mundo pós-Pasquim

Com o fim d’O Pasquim, Jaguar virou editor de A Notícia, um jornal popularesco que explorava manchetes escandalosas (na pegada Notícias Populares). Depois de sua saída, assinou uma coluna no jornal O Dia, na qual mais escrevia do que desenhava, e vivia lembrando histórias dos personagens de Ipanema – o que geraria, claro, outros dois livros assinados por ele: Ipanema – Se Não me Falha a Memória (2000) e Confesso que Bebi: Memórias de um Amnésico Alcoólico (2001), este último, um roteiro de pontos importantes da beberagem carioca.

Mas, em 1999, se meteu novamente no universo do jornalismo satírico ao lançar, com colegas de Pasquim como Ziraldo, a revista Bundas – cujo título era uma tiração de sarro com a cultura da celebração das celebridades fúteis que podia ser vista na revista Caras.

Recentemente, manteve um espaço para seus cartuns no jornal Folha de S.Paulo.

Mas é impressionante lembrar, como disse a própria Folha, que Jaguar nunca guardou um original. Em quase 70 anos de atividade, calculava ter produzido cerca de 30 mil cartuns, charges, caricaturas e ilustrações de todo tipo, desenhados em qualquer pedaço de papel, até guardanapos de botequim, os quais muitas vezes eram enfiados no bolso antes de entregues amassados às redações para publicação.

A beberagem, aliás, quase lhe tirou a vida. Quando completou 80 anos, em 2012, revelou que sofria de cirrose e câncer no fígado. Passou por cirurgia e contou que “já havia vivido mais do que esperava”. Disse ele: “Andei fraco, me sentindo pesado, e meu médico me mandou ir a São Paulo fazer exames. Tudo apoiado por minha mulher, que é médica. Foi a maior burrice que já fiz. Eu não saberia até hoje que estava doente, estaria tomando minha birita”.

Nada mais Jaguar.

Legado que transcende o papel

Jaguar foi, acima de tudo, um humorista político feroz, que jamais achou que “arte sem política” prestasse. Seus traços, seus dizeres e seu rato irreverente Sig marcaram significativamente gerações de cartunistas e leitores. Um Herzog do cartum, que provou que o riso pode ser (e deve ser) instrumento de consciência e crítica.

Lembremos sempre que, sem O Pasquim, não existiriam as revistas Casseta Popular e Planeta Diário, por exemplo, aquelas que se mesclariam e dariam origem ao Casseta & Planeta. O humor anárquico de Jaguar foi inspiração claríssima para a turma de chargistas da nova geração que viria a seguir, num Brasil bastante diferente – como é o caso de Glauco, Angeli, Laerte e por aí vai. “O Pasquim, como um todo, era uma espécie de Monte Olimpo, e Jaguar era um deus muito especial, acolhedor. Sempre deu uma palavra de incentivo”, disse Laerte ao canal Globonews.

Angeli também completa: “Todas as reverências ao carinhoso mestre, dono do traço mais rebelde do cartum brasileiro. Seguimos aqui com sua benção”.

“Melhor cartunista brasileiro e meu amigo querido. É uma perda irreparável para o humor e para o Brasil”, confessou, em poucas palavras, Chico Caruso.

Jaguar teve dois filhos, ambos com a poeta Olga Savary: a escritora Flávia Savary e Pedro Jaguaribe, que faleceu em 1999. Atualmente, era casado com a médica Célia Regina Pierantoni. A esposa, aliás, disse que realizará o pedido do marido – devidamente registrado em cartório! – que suas cinzas sejam colocadas em bares que ele frequentava.

Que todos brindem um último gole ao mestre!

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