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Flavio Colin: o traço inconfundível de um mestre

Para quem ainda não conhece, vale apresentar. Para quem já conhece, vale relembrar. Afinal, estamos falando de um daqueles pilares subestimados dos gibis nacionais.

Por THIAGO CARDIM

Quando falamos de medalhões dos quadrinhos no Brasil, aqueles que foram primordiais para a Nona Arte em nossa terrinha, geralmente tendemos a lembrar de nomes icônicos como Ziraldo, Mauricio de Sousa ou até mesmo a trinca Glauco/Angeli/Laerte.

Porém, poucos nomes são tão fundamentais para a história dos quadrinhos no Brasil quanto Flavio Colin. Ao mesmo tempo popular (embora sem ser lembrado) e cultuado (dentro de um nicho), seu trabalho atravessou gerações e deixou uma marca única, impossível de confundir com qualquer outro desenhista.

Agora, com lançamentos recentes como a coletânea de histórias de guerra publicada pela Tábula e o irreverente Colin para Colorir, da Mino, além do anúncio da campanha de financiamento coletivo para uma compilação de tiras de Vizunga pela Veneta, o legado do artista volta ao centro do debate como tem acontecido nos últimos anos – lembrando com justiça o quanto ele foi essencial para consolidar uma linguagem nacional nos quadrinhos.

Quem foi Flávio Colin

Nascido Flavio Barbosa Mavignier Colin no Rio de Janeiro em 1930, foi ainda jovem com o irmão pro interior de Santa Catarina, graças a uma vaga que o pai conseguiu em uma marcenaria, estabelecendo uma proximidade com a natureza e os animais que também marcaria muito de sua trajetória dali pra frente. Depois de ficar quase uma década sem ver a mãe, foi para Porto Alegre, aos 14 anos – e enquanto estudava num colégio interno, já começou a manifestar interesse pela linguagem das HQs e também a explorar seus dotes artísticos.

Inclusive, ainda na escola, desenhava gibis pros colegas de classe e cobrava, VEJAM VOCÊS, em média mil réis por história (hahahaha).

Colin começou a desenhar HQs profissionalmente aos 26 anos, na Rio Gráfica e Editora (RGE), em 1956, onde teve a oportunidade de trabalhar ao lado de muitos nomes célebres dos quadrinhos brasileiros. De acordo com uma entrevista que deu nos anos 1980, sua primeiríssima HQ profissional saiu na revista “Enciclopédia em Quadrinhos” – mas também desenhou para publicações como “X-9”, “Cavaleiro Negro” (personagem da Atlas, atual Marvel Comics) e “Águia Negra”. Seu primeiro trabalho de destaque, no entanto, foi “As Aventuras do Anjo”, quadrinização da popular série de rádio criada e interpretada por Álvaro Aguiar.

“A dificuldade era que O Anjo, no rádio, se passava nos Estados Unidos e, por isso, todos os nomes e cidades eram americanos. Mas, nos quadrinhos, houve um acordo entre a Rio Gráfica e o Álvaro Aguiar, o autor, para tudo ser transferido para o Brasil”, explicou o próprio Colin, em entrevista para o Universo HQ. “Então, era a mim que competia receber os capítulos da novela, e colocar aquilo tudo em HQ, com nomes brasileiros e cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre etc”.

Já no início dos anos 1960, começou a colaborar com a editora paulista Outubro, onde se destacou cuidando da adaptação para gibis da pioneira série de televisão “O Vigilante Rodoviário”. Lá mesmo, Colin teve contato com histórias de terror, o que abriu caminho para uma grande quantidade de trabalhos nessa linha.

Um verdadeiro defensor dos quadrinhos nacionais, fundou ao lado de nomes lendários como Julio Shimamoto e Renato Canini a chamada CETPA, Cooperativa Editora de Trabalho de Porto Alegre, que publicava e distribuía HQs totalmente criadas no Brasil, tentando reproduzir a estrutura dos syndicates americanos. Foi aí, adaptando a história real do indígena Sepé Tiaraju, guerreiro dos Sete Povos das Missões, que começou a encontrar sua voz definitiva, mergulhando em enredos que exploravam o imaginário popular brasileiro, com lendas, assombrações e personagens da cultura local.

Atendendo a um pedido de Mauricio de Sousa, criou para o Grupo Folha a tira de jornal Vizunga, um dos primeiros personagens de quadrinhos BR realmente com viés ecológico (outro tema bastante importante pra Colin). Mas com o cancelamento da tira e o fim da CETPA, passou a trabalhar na TV Rio e, logo depois, nas agências de publicidade McCann-Erickson e Denison Propaganda. Foram nada menos do que 12 anos trabalhando com propaganda, o que inclusive fez com que ele se afastasse definitivamente dos quadrinhos por um tempo.

“Aí, voltei para a Grafipar, do Paraná, com histórias eróticas; para a editora Vecchi; e fiz o Lobisomem para a editora Bloch. Então, fui pegando trabalhos avulsos, pois não tinha mais uma série completa. Sempre fiz quadrinhos”, explicou ele, no papo com o UHQ.

Sobre o Lobisomem de Colin, que inclusive virou omnibus também pela Tábula, cabe uma curiosidade interessante. Em 1978, um dos títulos de maior prestígio da Bloch era justamente o Lobisomem da Marvel, o tal do Werewolf by Night. Mas a edição brasileira de número 12 seria marcada pela última história de Doug Moench e Don Perlin à frente do personagem, cancelado lá fora, só que os editores brasileiros não queriam perder sua revista de grande sucesso. Assim, sem alarde, resolveram convocar Colin para dar continuidade à saga por conta própria. Jack Russel virou Tab Russel e as histórias se passavam no Brasil, em praias e pântanos, com civilizações perdidas, mulheres voluptuosas e ameaças cada vez mais perigosas a cada edição.

Ali no início dos anos 1990, colaborou com as revistas Calafrio e Mestres do Terror, ambas da editora D-Arte, já com seu nome atrelado ao gênero terror em definitivo. “Há quem diga que não é terror, é terrir (risos). Mas acontece que o terror era o que tinha na época, e o que vendia bastante, principalmente em São Paulo”, brincou ele. “Era um mercado em que o americano e seus copyrights não entravam. Então, era um espaço para o artista brasileiro”.

Também ficou bastante conhecido por sua predileção pelas adaptações históricas – em especial, claro, aquelas de episódios reais ocorridos no Brasil ou histórias inspiradas pelo nosso folclore. “Sempre tive preocupação em fazer algo o mais bem documentado possível. O brasileiro é tão ignorante sobre as suas coisas, sua história, que é bom fazermos algo o mais próximo da verdade possível, para informar direito”, afirmava Colin. “Pra não fazer igual a algumas novelas por aí, que misturam índio americano com o índio brasileiro, e o povo não fica sabendo como é o índio brasileiro”.

Prolífico até o fim de sua vida, Colin foi colaborador da histórica revista O Cruzeiro; teve seus trabalhos publicados na Bélgica, na Itália, na Espanha e em Portugal; foi três vezes ganhador do prêmio HQMix e duas vezes agraciado com o Angelo Agostini; e também fazia ilustrações para livros didáticos e paradidáticos, esculturas e pinturas. Mas sua paixão, claro, eram os quadrinhos, que passou a vida inteira tentando fazer tornarem-se uma arte com um mercado tipicamente brasileiro, para além dos comics americanos.

“HQ no Brasil é um sacerdócio, uma missão”, disse ele, em entrevista pra Folha de S. Paulo. “Gosto de criar sozinho, na minha prancheta. O Ziraldo diz que sou um bobo, um romântico. Mas sou assim porque não deixei morrer o menino que existe dentro de mim. É o que eu sou, um menino que gosta de desenhar. Se amadurecer, aí sim, viro um bobão”.

Influências e estilo

Embora muitos associem seu estilo ao da xilogravura nordestina, o próprio Colin afirmava que a relação era indireta – ele nunca estudou xilogravura, nem a utilizava como referência direta. O que fazia era buscar uma estilização geométrica, marcada por traços firmes, figuras simplificadas, pontilhados e narrativas visuais poderosas.

Essa estética única diferenciava seu trabalho dos artistas que buscavam copiar o estilo realista americano. Em vez disso, Colin apostava em um visual “primitivista” – que, longe de ser ingênuo, era altamente sofisticado e consciente.

“Eu primeiro fui procurando um traço pessoal, algo que me identificasse. Mas um traço onde eu me sentisse à vontade, porque não adianta fazer algo que é pretensamente pessoal, mas você não se sinta confortável”, explicou ele. “Então, eu tinha que fazer alguma coisa que me agradasse, estética e artisticamente. Fui e sou um adepto da simplicidade. Acho que a coisa tem que ser simples”.

O artista disse ainda que, justamente por usar muito contraste em busca desta questão mais sintética, muitos diziam que ele era um desenhista mais moderno. “Eu estilizo, às vezes meio caricato. Por exemplo, eu acho que se você for desenhar um bandidão, ele tem que ter no traço, na figura, alguma coisa truculenta, que o leitor olhe e diga ‘Esse aí é o bandido; e não o mocinho’. Mas a simplicidade é muito difícil, porque é muito mais fácil colocar do que tirar”.

No entanto, Colin defendia que, não importa qual o seu tipo de desenho, a base tem que ter estudo. “Tem que ser acadêmica. Meu esboço é quase acadêmico, a estilização é feita depois. Você não pode partir direto para o cartum, e eu vejo muito disso, principalmente, em fanzines. Mas o cartunista sabe que tem que ter essa base de anatomia. Estilizar direto é muito difícil e o desenho não fica completo”.

O vácuo deixado por sua morte

Colin faleceu em 2002, aos 72 anos, e deixou um vazio criativo no mercado nacional. Nunca conseguiu de fato se sustentar da produção de seus quadrinhos e acabou sendo reconhecido muito tarde. Mas sua ausência foi sentida tanto pelos colegas quanto pelos leitores, já que poucos artistas conseguiram dar continuidade àquela síntese tão pessoal de folclore, terror e estilo gráfico inconfundível.

Artistas como Fábio Moon e Gabriel Bá, Rafael Coutinho, Marcello Quintanilha e Allan Sieber já declararam, em diferentes contextos, a importância de Colin para a formação de um olhar brasileiro nos quadrinhos. Sua capacidade de transformar o traço em linguagem própria inspira até hoje jovens quadrinistas que buscam escapar das fórmulas do mercado internacional.

“Em minha modesta opinião, Colin é o patrono do quadrinho brasileiro contemporâneo”, diz o desenhista Jefferson Costa, das Graphic MSP do Jeremias, em entrevista ao jornal O Globo. “Ele sintetiza nossa cena tão diversa e plural, essa profusão de caminhos, ideias e estilos, em que cada quadrinista brasileiro consegue ser tão único quanto se propõe ser”.

“Flavio Colin e a obra dele são patrimônio do Brasil”, afirma Ivan Freitas da Costa, cofundador da CCXP e CEO da Chiaroscuro Studios, convidado pela própria família de Colin para ser curador do espólio quadrinístico do artista. “Dividir a obra do Colin significa dar a mais editoras a possibilidade de contar com algum trabalho dele em seu catálogo. O resultado são edições mais caprichadas, muitos extras, melhor divulgação de cada lançamento e maior frequência das republicações”.

E sim, isso é fato: de lá para cá, diversas editoras têm se mobilizado para manter sua obra viva: Comix Zone, Conrad, Pipoca & Nanquim, Devir, Nemo e, mais recentemente, vieram os títulos da Tábula e da Mino. Todo mundo de olho no farto material que o velho mestre deixou como legado.

Uma seleção de obras pra conhecer Flavio Colin

Estórias Gerais
(Conrad) – obra-prima em parceria com Wellington Srbek, ambientada no sertão mineiro na década de 1920, misturando faroeste e literatura de cordel. A edição de 20 anos que saiu pela Conrad veio BEM caprichada, repleta de extras. Coisa de colecionador mesmo.

O Boi das Aspas de Ouro (Skript) – pra mim, a grande obra do quadrinista. Uma adaptação da famosa lenda gaúcha de um boi que trazia a felicidade para quem fosse seu dono, narrando a vida de um velho estancieiro, rico e viúvo, que decide perseguir o lendário boi.

Aventuras do Anjo (Figura) – edição que reproduz em fac-símile as artes originais da versão em HQ do personagem surgido como herói de radionovela. Tá tudo lá: os traços de lápis do desenho, as anotações nas margens, as tonalidades das pinceladas de nanquim, as correções com tinta branca, as colagens e as marcas do tempo no papel.

Curupira (Agir) – o autor usa o folclórico Curupira como o mestre de cerimônia das cinco histórias que revelam questões ligadas à fauna, flora, caça, desenvolvimento predatório e outros fatores que afetam nosso meio ambiente. 

A Guerra dos Farrapos (Comix Zone) – com roteiro de Tabajara Ruas, é a mais notória quadrinização dessa epopeia rio-grandense, traçando um panorama que contempla os principais aspectos e personagens da guerra civil de 1835.

Os estranhos hóspedes do Hotel Nicanor (MMarte) – coletânea de uma série de terror escrita pelo icônico Ota (aqui, originalmente com o pseudônimo Juka Galvão) e ilustrada por Colin para a antiga revista Spektro. Um mix de horror gore e humor histriônico, temperado com pitadas de erotismo.

Mulher-Diaba no Rastro de Lampião (Trem Fantasma) – da dupla Ataíde Braz (roteiro) e Flavio Colin (desenhos), mostra uma história ambientada nos sertões nordestinos da década de 1930, com uma mulher amaldiçoada que persegue seus algozes em busca de vingança, uma inimiga que Lampião e seu bando não poderiam vislumbrar sequer em seus piores pesadelos.

Terror no Inferno Verde (Pipoca & Nanquim) – histórias de horror ambientadas na Amazônia, explorando lendas e temores da selva e publicadas em diferentes períodos de sua jornada bastante produtiva, em revistas fundamentais como MAD, Spektro e Calafrio. 

Caraíba (Desiderata) – Colin, exímio conhecedor dos mitos brasileiros, reúne, neste livro, três episódios do personagem Caraíba – um caçador convencido pelo Curupira a tornar-se um defensor da Floresta Amazônica.

Fawcett (Comix Zone) – com roteiro de André Diniz, especula como teria sido a derradeira expedição do explorador britânico na selva amazônica. Foi um dos últimos grandes trabalhos do autor. “Já com pesquisas avançadas e uma primeira versão do roteiro para Fawcett, bem diferente da final, assisti a um bate-papo com o Colin citando o explorador como um dos exemplos de temas brasileiros que poderiam ser explorados nos quadrinhos. Fiquei sonhando com essa possibilidade de parceria até que, uns três anos depois, já com o roteiro pronto, criei coragem e fiz o convite a ele”, explica Diniz, pro Globo.

Flávio Colin continua presente

Seja nos lançamentos recentes, nas reedições ou na memória dos fãs, Flávio Colin permanece como um dos grandes mestres dos quadrinhos nacionais. Seu traço não pode ser confundido, sua ousadia ainda serve de guia, e sua obra segue sendo fundamental para entender a força da HQ brasileira — aquela que não precisa imitar nada nem ninguém para ser universal.

Se quiser saber MAIS a respeito da vida e obra de Colin, sugerimos ouvir os bons episódios especiais dedicados a ele de dois diferentes podcasts: o Confins do Universo e o Lasercast.